17/03/2018 às 12h38min - Atualizada em 17/03/2018 às 12h38min

Catanic II

Por Luciano Baía Meneghite

E de novo tô no entupido ponto de ônibus da Carlos Luz. O sol de março ainda castiga às três da tarde e muitos esperam à sombra no outro lado da rua. Um molequinho de uns quatro anos chega melado de picolé até a nuca. Picolé daqueles de uva “mancha-pulmão” como diz uma vizinha. Um vira-lata magrelo lança-lhe aquele olhar pidão e o menino o deixa lamber o picolé. A mãe que fofocava com uma conhecida custa perceber o gesto, mas ao ver, dá um arranco que quase faz o anjinho voar. O resto de picolé voa no meio da rua, o vira-latas vai atrás e quase é atropelado por um motoboy com uma gorda segurando um pinche zero. O pinche se assusta e pula da moto. O menino do picolé abre o berreiro. Carros que vinham atrás buzinam e lindos nomes são lançados ao ar. Uma dona de muleta que saía do baile do Pró Idoso aproveita para atravessar a rua mesmo com o sinal aberto, pois seu ônibus já vinha. A gorda sai em disparada atrás do pinche, a quem chama de “Neném”. Para não ser atropelada por um caminhão de material de construção dá uma trombada na véia que acaba prendendo a sandália num bueiro. 

E o menino do picolé não para de berrar. Às vezes agacha no chão, suspira e logo recomeça o show. A mãe diz que compra outro picolé, mas não tinha de uva ali por perto e pra ele só servia de uva. O Neném da gorda corre por entre as pernas do povo. O vira-latas atrás dele, a gorda atrás do vira-latas e o motoboy atrás da gorda. O povo suando, outros zoando, a véia tentando desgarrar a sandália do bueiro, o menino berrando, outros buzinando.  “Ah... Zé de Melo!!!” Diria a Lúcia que trabalhou lá em casa, lembrando do famoso médico psiquiatra diretor da extinta clinica São José. Realmente, como dizem: “Se cercar vira hospício, se cobrir vira circo.” O ônibus pro Posto Puris encosta. Era o que a Véia ia, se a sandália desgarrasse.  O tumulto aumenta.

Eis que aparece correndo aquele maluquinho do carrinho de picolé. Dá outra trombada na véia que acaba arrancando o pisante, a dentadura e a muleta. A sandália voa e acerta o pinche que desmaia. A gorda enfim pega seu neném chorando, mas este logo acorda e lambe sua boca. Os dois vão embora com o motoboy. E pra finalizar o maluquinho tinha o picolé de uva. O menino enfim se acalma e entra no ônibus com a mãe. A véia vai atrás.  Os que ficaram respiram aliviados e aplaudem o vendedor de picolé que não entende nada.  E chega o “Praça da Bandeira-Via Pirineus.” Enfim vou pra casa.

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