10/08/2014 às 18h33min - Atualizada em 10/08/2014 às 18h33min

Livro sobre a história do Cutubas será lançado hoje na sede do clube

CUTUBAS: clube de negros, território de bambas – Memória e Patrimônio afrodescendente de Leopoldina/MG

O livro "CUTUBAS: clube de negros, território de bambas " de Margareth Cordeiro Franklin será lançado neste sábado às 19:00h no salão social dos Clube dos Cutubas na rua Sete de Setembro.

 

História e memória afrodescendente

Por Natania Nogueira.

O negro no Brasil é geralmente relacionado à escravidão. Ela, por sua vez, representa um estigma, mas é uma memória que não pode ser negada, nem esquecida. Não é esquecendo o passado que construímos o futuro, mas lembrando e preservando.

Por mais de 300 anos, negros africanos foram trazidos para a América, há muito o que se estudar e pesquisar sobre sua presença, sua cultura suas relações sociais, enfim, sobre os vários aspectos que envolveram a sociedade escravista, que caracterizou o Brasil até o final do século XIX.

A história do negro no Brasil, entretanto, não termina com a abolição. Ela apenas inaugura uma nova etapa, marcada pelo trabalho, pelo preconceito e pela pobreza, mas também por práticas culturais que ultrapassam as barreiras étnicas. Aspectos da vida cotidiana, estratégias de sobrevivência e formas de resistência, em uma sociedade marcada pelo preconceito. A memória e a história do negro após a abolição talvez sejam um dos campos mais férteis para pesquisa da atualidade e, certamente, ainda pouco explorado.

Nesta semana, tive a satisfação de receber em mãos, por intermédio de uma amiga, um livro que aborda justamente isso: uma história do negro e sua inserção na sociedade após o fim da escravidão. O livro, CUTUBAS: clube de negros, território de bambas – Memória e Patrimônio afrodescendente de Leopoldina/MG, traz a história de um clube social fundado por negros no ano de 1925. Um clube recreativo, frequentando e mantido por negros, por descendentes diretos de ex-escravos. Ele traz à tona a história dos afrodescendentes da minha cidade, cujo município chegou a ter, durante o Império, o segundo plante de escravos de Minas Gerais.

De autoria da pesquisadora Margareth Cordeiro Franklim, ele revela a memória do negro em Leopoldina a partir de pesquisas em documentos assim como resgata essa memória a partir da história oral. Entrevistas com frequentadores do clube trazem a luz práticas sociais e aspectos da cultura popular que não constam dos livros sobre a história local, que analisam muito mais a vida da elite e os desdobramentos da política e economia e pouco espaço (ou nenhum) reservam à gente simples,em especial ao afrodescendente.

É surpreendente a quantidade de informação que se pode obter a partir de um objeto tão singular. Um exemplo de como podemos preservar a memória e preservar a cultura. E falamos aqui de cultura material e imaterial, que marca a presença, a ação a importância afrodescendente na nossa sociedade.

O livro conta parte da história do clube Cutubas, de Leopoldina, mas poderia ser a história da Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora, o mais antigo clube social negro  do Brasil, fundado em 1871, em Porto Alegre(RS); ou do Clube Beneficente Cultural e Recreativo Jundiaiense 28 de Setembro,  de Jundiaí (SP), fundado por negros em 1897; ou mesmo do o Clube 13 de Maio dos Homens Pretos, fundado em São Paulo (SP) em 1902.

Os clubes fundados por negros eram instituições informais presentes em várias cidades, em diversas regiões do Brasil, e remontam à segunda metade do século XIX. Esses clubes representam uma memória antiga, um patrimônio cultural que testemunha e atesta uma parte da nossa história que ainda não chegou aos livros didáticos.  São lugares de resistência e identidade negra que precisam ser nomeados reconhecidos em seu pleno direito como patrimônio histórico e cultural.

Uma iniciativa de grande valor, uma pesquisa que enriquece não apenas a história local, mas a História do Brasil. É também uma forma de alcançar um público maior, de sensibilizar a comunidade e as autoridades para a importância da cultura e práticas afrodescendentes, que são um patrimônio valioso e que ainda não teve seu devido reconhecimento.

 Sugestões de leitura:

DOMINGOS, Petrônio, Os clubes e bailes blacks de São Paulo no pós-abolição: notas de pesquisa. Anais do XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009.Disponível em http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.1375.pdf, acesso em 06 de ago. de 2014.

FELIX, Rita de Cássia Souza. Damas de Ébano nos clubes sociais negros: trancinhas e batom Ebano ladies in Black Social Clubs: short braidsandlipstick. Revista Comunicações, UNIMEP, Piracicaba, n. 1, p. 39-53 jan.-jun. 2014. Disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/index.php/comunicacao/article/viewFile/2051/1257, acesso em 06 de ago. de 2014.

FRNAKLIM, Margareth Cordeiro. CUTUBAS: clube de negros, território de bambas – Memória e Patrimônio afrodescendente de Leopoldina/MG.- Belo Horizonte: UtopikaEditoral, 2014.

TANNO, Janete Leiko. Clubes recreativos em cidades das regiões sudeste e sul: identidade, sociabilidade e lazer (1889-1945), UNESP – FCLAs – CEDAP, v.7, n.1, p. 328-347, jun. 2011. Disponível em: http://pem.assis.unesp.br/index.php/pem/article/viewFile/223/223, acesso em 06 de ago. de 2014.

 


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