26/04/2018 às 23h03min - Atualizada em 26/04/2018 às 23h03min

200 anos depois, uma lenda se faz verdade

Mas essa “Lenda do Feijão Cru” já é bastante conhecida; e não é dela que vou falar. É de uma outra, também ligada à história de nossas origens.

Plínio Fajardo Alvim (*)

Todos nós leopoldinenses já ouvimos ou lemos que Leopoldina nasceu de um Pouso de Tropeiros. Diz a memória oral local que, em razão do “cochilo” do cozinheiro de uma Tropa, o tal pouso recebeu o nome de “Pouso do Feijão Cru”. Com o passar do tempo, o local cresceu, virou distrito, e, no dia 27 de abril de 1854, o Distrito de São Sebastião do Feijão Cru emancipou-se da Vila de Mar de Espanha, tornando-se município autônomo, cuja sede era a “Vila da Leopoldina”. Mas essa “Lenda do Feijão Cru” já é bastante conhecida; e não é dela que vou falar. É de uma outra, também ligada à história de nossas origens.

O que muitos ainda não sabem é de onde teria surgido o nome do “Mar de Espanha”, a cujo município o distrito do Feijão Cru estava subordinado. Diz a tradição oral popular, passada através das gerações com pequenas variações ou protagonistas, e, também transformada em lenda, que alguns desbravadores que participaram do devassamento do Vale do Rio Paraíba do Sul, ao margearem, pelo lado direito, por além das “três barras” (onde o grande rio recebe e incorpora os rios Paraibuna e Piabanha), chegaram à região que, muito mais tarde, seria ocupada pelas terras de Três Rios, Anta, Sapucaia. Buscavam um lugar onde pudessem se fixar, ou onde pudessem erguer um Pouso de Tropas. E chegaram a um local de impressionante beleza, em que o rio se alargava num remanso, inundando as várzeas de suas margens. Há quem diga que havia, entre eles, um espanhol que, levado pela nostalgia de sua terra natal, exclamou, com grande admiração: "Parece um mar, um mar de Espanha!”

O nome acabou sendo adotado para um Porto - ou Registro – Fiscal, ali criado, e para uma fazenda, ambos localizados à margem direita do rio - do lado fluminense, portanto. Ainda existe, nesse lugar, uma fazenda com esse nome. Também há quem diga que o tal espanhol teria sido encarregado de chefiar o Porto. Para autorizar a travessia do rio, ele cobrava uma tarifa exorbitante, muito superior à cobrada, à época, para a travessia da Baía da Guanabara, no “Porto da Piedade”, atual Magé. Alegava ele, como justificativa do alto preço, que, embora a travessia ocorresse em um rio, este era muito perigoso. Dizia: “Parece um mar, um mar de Espanha!”. E, por analogia, o nome “Mar de Espanha” foi também estendido para a região mineira banhada por suas águas – Penha Longa, Chiador, etc. Mais tarde, foi sugerido, pelo Coronel Custódio Ferreira Leite, então futuro Barão de Aiuruoca, para topônimo do município oriundo da emancipação do antigo Distrito de Nossa Senhora das Mercês do Cágado.

Hoje, passados cerca de 200 anos (pouco mais, ou menos), desde que se deu a ocorrência de que trata essa crônica popular/lenda, ali, nesse local (mesmo já tendo havido, há cerca de 75 anos, o desvio de boa parte das águas do Rio Paraíba do Sul para abastecimento da Região Metropolitana da Cidade do Rio de Janeiro), podemos rever o "renascimento" daquele antigo "Mar de Espanha", com muitos quilômetros de extensão, surgido, às margens de Rodovia BR-393, para formar o lago da Barragem da Usina Hidrelétrica de Anta, integrante do Complexo Hidrelétrico de Simplício, de Furnas Centrais Elétricas, inaugurado em 2013 na divisa Rio-Minas. E eu, ao visitar as obras de construção do empreendimento, há alguns anos, acabei, de certa maneira, presenciando o nascimento do “Novo Mar de Espanha”.



(*) Pesquisador e historiador leopoldinense.


 
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