21/05/2018 às 14h44min - Atualizada em 21/05/2018 às 14h44min

Jornalista do Leopoldinense dá palestra para alunos do EJA no Ginásio sobre censura.

Ele contou a sua trajetória profissional, a censura ao seu trabalho, as ameaças recebidas e as demissões por falar demais.

O jornalista Luiz Otávio Meneghite, editor responsável pelo jornal Leopoldinense, foi convidado e proferiu palestra para cerca de 70 alunos de duas turmas do EJA, na noite de terça-feira, 15 de maio, na Escola Estadual Professor Botelho Reis - ‘Ginásio’, a convite do Professor João Paulo Araújo.

Segundo o Professor, a ideia do projeto surgiu perante a necessidade de trabalhar a temática da ditadura militar com os alunos do 3º Ano do EJA. “Por meio de uma atividade diagnóstica percebi que muitos não conheciam o sistema, apesar de serem favoráveis a intervenção militar. A partir desse diagnóstico planejei uma série de aulas para trabalhar o tema. A ideia era mostrar a ditadura sobre todas as suas perspectivas, mostrando os pontos positivos e negativos. Por meio de várias sequências didáticas trabalhei o conteúdo de forma diferente, sem seguir uma linha sequencial. A ideia era trabalhar com temas. Nesse sentido trabalhamos a questão da implantação da ditadura, a economia, a legitimação do golpe, a resistência e a censura. Sobre esse último os alunos se mostraram muito interessados e a partir desse momento começamos a trabalhar com a censura na atualidade. Daí surgiu a ideia de ouvir o jornal Leopoldinense. O projeto está em fase de conclusão, mas já é perceptível os conhecimentos adquiridos pelos alunos”, disse.
O jornalista Luiz Otávio Meneghite e o professor João Paulo Araújo.

O que é o EJA

EJA é a sigla para a Educação de Jovens e Adultos, uma modalidade de ensino cujo objetivo é permitir que pessoas adultas, que não tiveram a oportunidade de frequentar a escola na idade convencional, possam retomar seus estudos e recuperar o tempo perdido. É o novo nome do antigo Supletivo. O objetivo é restaurar o direito à educação negado aos jovens e adultos, oferecendo a eles igualdade de oportunidades para a entrada e permanência no mercado de trabalho e qualificação para uma educação permanente.

A palestra

Acompanhado de sua esposa, a colunista Maria José Baia Meneghite e de seu filho, o repórter João Gabriel Baia Meneghite, o jornalista contou aos estudantes um pouco de sua vida; a origem humilde, filho de pais operários, o pai pintor de paredes e a mãe tecelã na fábrica de tecidos e o gosto pela leitura a partir do hábito de ler jornais junto com o pai.

A leitura diária de jornais foi reforçada quando aos 11 anos trabalhou como jornaleiro em um ponto de parada de ônibus junto à BR116. “Entre a chegada e a partida dos ônibus eu aproveitava para ler jornais e revistas e o gosto pela escrita foi uma consequência natural”, disse Luiz Otávio.

Durante a palestra o jornalista contou aos atentos alunos que os seus primeiros contatos com a imprensa ocorreram entre as décadas de 1970 e 1980 na forma de colaboração em vários jornais locais como A Tocha, A Verdade, Folha de Leopoldina, Equipe (antes de se tornar órgão oficial do Município), chegando a se tornar correspondente dos Diários Associados na região. “Tudo isso na época da ditadura militar”, observou Luiz Otávio.

Trabalhando na Prefeitura de Leopoldina a partir de 1968 e onde permaneceu por 33,5 anos, Luiz Otávio contou que entre outras funções exercidas como funcionário público a que mais lhe marcou foi a assessoria de imprensa, que lhe proporcionou a oportunidade de conseguir a doação do jornal Equipe, título então pertencente aos seus fundadores Ely Rodrigues Neto e Geraldo Amaral, para a Prefeitura, tornando-se então, Órgão Oficial do Município de Leopoldina.

Luiz Otávio Meneghite

A censura na imprensa de Leopoldina

Em 1998, prestes a se aposentar, Luiz Otávio foi convidado a gerir a quase centenária Gazeta de Leopoldina, situação que perdurou por exatos 5 anos. Foi nesse ponto que o jornalista entrou no tema para o qual foi convidado pelos alunos do EJA: a censura no jornalismo.

Ele contou que quando assumiu a Gazeta de Leopoldina o jornal  estava sem circular há 7 meses e o colocou novamente ativo em 20 dias. Alguns anos depois, começou a receber interferência de um famoso político à época e, não concordando com as suas pretensões, foi convidado a deixar a direção do jornal. Em pouco menos de 6 meses após a sua saída, o tradicional e quase centenário periódico deixou de circular definitivamente. Com o auxílio do advogado José do Carmo Machado Rodrigues e do premiadíssimo jornalista José Barroso Junqueira foi então fundado em 23 de agosto de 2003 o Grupo Leopoldinense de Notícias Ltda, que abriga o jornal Leopoldinense impresso, prestes a completar 15 anos de circulação ininterrupta e a partir de 2009, a sua versão online com milhares de acessos de todas as partes do globo terrestre ao site www.leopoldinense.com.br

O jornalista relatou aos atentos alunos que durante toda a sua trajetória profissional foi alvo de cerca de 14 processos judiciais, a maioria de iniciativa de políticos locais e apenas 2 de criminosos comuns. “Saímos vitoriosos de todos os processos” contou Luiz Otávio Meneghite, lembrando de situações pelas quais passou, sendo até ameaçado de morte, ameaças essas extensivas aos seus familiares.

As ameaças recebidas

Teve um político, que ainda está vivo e mora em Leopoldina, que fez a seguinte ameaça: “Vamos mata-lo por inanição. Vamos fazer ele gastar tanto dinheiro com advogados que ele não terá como continuar com o jornal. A estratégia não deu certo”, observou Luiz Otávio.

Ainda dentro do tema ‘censura’ escolhido pelos alunos do EJA, o jornalista recordou de duas passagens pelo rádio em sua carreira profissional quando foi demitido “por estar falando demais e ter a língua comprida. Um dia, ao sair da emissora, estava sendo aguardado do lado de fora por um político acompanhado por umas pessoas mal-encaradas que textualmente ameaçou: cuidado que você pode morrer, pois está falando demais”, relatou Luiz Otávio.

Outra narrativa do jornalista sobre censura ocorreu há poucos anos, quando noticiou a prisão de duas quadrilhas de tráfico de drogas. Logo após a veiculação da matéria no site do jornal, um telefonema dado pela esposa de um dos presos foi contundente: “Você tem meia hora para retirar a notícia do ar. Caso contrário um membro de sua família pode morrer”.

Em determinado ponto da palestra, o jornalista foi sabatinado pelos alunos e a todos respondeu. Ao que parece, satisfatoriamente, pois ao final foi bastante aplaudido. Luiz Otávio ficou muito emocionado com a reação dos estudantes e agradeceu ao Professor João Paulo Araújo pela oportunidade, deixando uma palavra de incentivo a todos: “Leiam sempre que puderem, leiam de tudo, até bula de remédio, pois a leitura só faz bem”, disse arrematando: “Sinto um grande orgulho de ter dois de meus 5 filhos, João Gabriel Baia Meneghite e Luciano Baia Meneghite, seguindo a carreira jornalística. Os dois estão prontos para dar continuidade ao trabalho construído até aqui”, concluiu.

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