28/12/2018 às 19h51min - Atualizada em 29/12/2018 às 12h40min

Clube dos Cutubas incluído entre os clubes sociais de negros de relevante interesse cultural

Muitos clubes têm mais de 100 anos e testemunham a história negra em Minas, guardando em seus acervos documentos importantes que devem ser preservados.

Década de 40 -Esperança Jazz e componentes do curso de corte e costura do Clube Cutubas. (Acervo de Elpídio Rodrigues)
Clubes ou associações culturais e recreativas voltadas para a integração e sociabilidade da comunidade negra, que promovam a divulgação das manifestações culturais de origem africana e afro-brasileira, agora são considerados de relevante interesse cultural para Minas Gerais.

Já está em vigor a Lei 23.208, de 2018, que reconhece o interesse cultural dessas instituições e prevê ações de proteção e preservação das mesmas. A norma também esclarece que essas instituições culturais poderão, a critério dos órgãos responsáveis pela política de patrimônio cultural do Estado, ser objeto de proteção específica, por meio de inventários, tombamento, registro ou de outros procedimentos administrativos pertinentes, conforme a legislação aplicável.

A lei teve origem no Projeto de Lei (PL) 3.920/16, de autoria do deputado Rogério Correia (PT), aprovado pelo Plenário da Assembleia Legislativa no dia 11 de dezembro, e foi publicada na edição do Diário Oficial de Minas Gerais desta quinta-feira (28/12/18).


Grimaldo Bocard dos Santos, Elpídio Rodrigues, Valdir de Paula "PICO", José Eduardo da Silva Patrocínio "Zezinho Gordurão", Roberto Silva, Américo Silva"Merquinho", Manoel Bernardo, Francisco Silva, na 1ª reunião realizada em 06/06/2010, na sede social do clube com a finalidade de resgatar sua história através de depoimentos e pesquisas. (Foto -Acervo Revista Hora H)

Negros segregados construíam seus próprios espaços de lazer

Segundo justificativa do autor do projeto, os primeiros clubes sociais de negros surgiram no fim do século XIX, antes da abolição da escravatura, numa época em que os negros eram frequentemente barrados em lugares de lazer. A partir da rejeição, esses grupos começaram a construir seus próprios espaços de socialização, como uma forma de resistência ao sistema escravagista vigente.

Em todo o País, centenas de associações negras com finalidade cultural, assistencial ou recreativa tinham como principal atividade fazer bailes e garantir relações de sociabilidade a partir do congraçamento e da confraternização entre as famílias, incluindo festas diversas e relações além do círculo familiar.

Identidade - Esses lugares de sociabilidade tornaram-se importantes na produção simbólica de identidades e autoestima, espaços de produção e troca, de aprendizagem, de disputas e solidariedade, de fortalecimento de vínculos de amizade, de afetos e sentimentos íntimos. E isso era bem necessário diante da urgência de inserção social dificultada pelo extremo preconceito racial no país pós-abolição. 

As festas, os bailes, os desfiles carnavalescos, as passeatas festivas, os cortejos e o carnaval sempre ocuparam a vida dos clubes. Mas não só. Muitos clubes agiram como associação beneficente, tentando minorar as dificuldades dos sócios, prestando solidariedade em caso de necessidade. 

Clubes mineiros - No estado de Minas Gerais existem muitos clubes de negros: Clube 13 de Maio (Divino), Clube 13 de Maio (Coronel Fabriciano), Clube 13 de Maio (Araguari), Clube Black Chic (Uberlândia), Clube Chico Rei (Poços de Caldas), Clube dos Cutubas (Leopoldina), Clube Flor da Mocidade (Recreio), Clube Mundo Velho (Sabará), Clube José do Patrocínio (Prata), Clube Palmeiras (Ituiutaba), Clube Princesa Izabel (Itabira), Clube Raça Negra (Frutal), Clube União (Araxá), Clube União (Patrocínio), Esporte Clube Biquense (Bicas), Associação Quilombo dos Palmares (Mar de Espanha), Liga Operária Beneficente de Ubá (Ubá), Clube Operário (São João Nepomuceno) e Elite Clube (Uberaba).

Muitos clubes têm mais de 100 anos e testemunham a história negra em Minas, guardando em seus acervos documentos importantes que, com a nova lei, devem ser preservados e devidamente valorizados como fonte de conhecimento e pesquisa.



História e memória afrodescendente

Por Natania Nogueira.

O negro no Brasil é geralmente relacionado à escravidão. Ela, por sua vez, representa um estigma, mas é uma memória que não pode ser negada, nem esquecida. Não é esquecendo o passado que construímos o futuro, mas lembrando e preservando.

Por mais de 300 anos, negros africanos foram trazidos para a América, há muito o que se estudar e pesquisar sobre sua presença, sua cultura suas relações sociais, enfim, sobre os vários aspectos que envolveram a sociedade escravista, que caracterizou o Brasil até o final do século XIX.

A história do negro no Brasil, entretanto, não termina com a abolição. Ela apenas inaugura uma nova etapa, marcada pelo trabalho, pelo preconceito e pela pobreza, mas também por práticas culturais que ultrapassam as barreiras étnicas. Aspectos da vida cotidiana, estratégias de sobrevivência e formas de resistência, em uma sociedade marcada pelo preconceito. A memória e a história do negro após a abolição talvez sejam um dos campos mais férteis para pesquisa da atualidade e, certamente, ainda pouco explorado.

Nesta semana, tive a satisfação de receber em mãos, por intermédio de uma amiga, um livro que aborda justamente isso: uma história do negro e sua inserção na sociedade após o fim da escravidão. O livro, CUTUBAS: clube de negros, território de bambas – Memória e Patrimônio afrodescendente de Leopoldina/MG, traz a história de um clube social fundado por negros no ano de 1925. Um clube recreativo, frequentando e mantido por negros, por descendentes diretos de ex-escravos. Ele traz à tona a história dos afrodescendentes da minha cidade, cujo município chegou a ter, durante o Império, o segundo plante de escravos de Minas Gerais.

De autoria da pesquisadora Margareth Cordeiro Franklim, ele revela a memória do negro em Leopoldina a partir de pesquisas em documentos assim como resgata essa memória a partir da história oral. Entrevistas com frequentadores do clube trazem a luz práticas sociais e aspectos da cultura popular que não constam dos livros sobre a história local, que analisam muito mais a vida da elite e os desdobramentos da política e economia e pouco espaço (ou nenhum) reservam à gente simples,em especial ao afrodescendente.

É surpreendente a quantidade de informação que se pode obter a partir de um objeto tão singular. Um exemplo de como podemos preservar a memória e preservar a cultura. E falamos aqui de cultura material e imaterial, que marca a presença, a ação a importância afrodescendente na nossa sociedade.

O livro conta parte da história do clube Cutubas, de Leopoldina, mas poderia ser a história da Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora, o mais antigo clube social negro  do Brasil, fundado em 1871, em Porto Alegre(RS); ou do Clube Beneficente Cultural e Recreativo Jundiaiense 28 de Setembro,  de Jundiaí (SP), fundado por negros em 1897; ou mesmo do o Clube 13 de Maio dos Homens Pretos, fundado em São Paulo (SP) em 1902.

Os clubes fundados por negros eram instituições informais presentes em várias cidades, em diversas regiões do Brasil, e remontam à segunda metade do século XIX. Esses clubes representam uma memória antiga, um patrimônio cultural que testemunha e atesta uma parte da nossa história que ainda não chegou aos livros didáticos.  São lugares de resistência e identidade negra que precisam ser nomeados reconhecidos em seu pleno direito como patrimônio histórico e cultural.

Uma iniciativa de grande valor, uma pesquisa que enriquece não apenas a história local, mas a História do Brasil. É também uma forma de alcançar um público maior, de sensibilizar a comunidade e as autoridades para a importância da cultura e práticas afrodescendentes, que são um patrimônio valioso e que ainda não teve seu devido reconhecimento.

Fontes> Assessoria de Comunicação da ALMG e Arquivo do Jornal Leopoldinense
 
 
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