17/08/2014 às 09h03min - Atualizada em 17/08/2014 às 09h03min

História de uma Tragédia

Luciano Baía Meneghite

Atualmente assistimos muitos desastres naturais resultantes do desrespeito do homem pela natureza. Tais tragédias para alguns parecem distantes da realidade de nossa cidade, mas já há sessenta anos Leopoldina e região viveram um grande desastre natural.

Final de 1948. Desde o dia 03 de dezembro, uma frente fria estacionada, provocava chuvas na região dos municípios de Além Paraíba, Leopoldina, Pirapetinga, Volta Grande e parte de Santo Antônio de Pádua-RJ.Áreas banhadas pelo rio Paraíba do Sul, seus afluentes e subafluentes, rio Pardo, rio Pirapetinga, rio Angu. A chegada de uma massa polar de trajetória oceânica com elevado teor de umidade alimentou essa frente fria e na madrugada de 14 para 15 de Dezembro, violenta chuva desabou na região.

As águas arrastaram tudo o que estava pela frente. A erosão nos morros desmatados formaram um mar de lama e detritos e numa área de cerca de 1.500 quilômetros quadrados o que se viu foi um rastro de destruição. Pelos vales, Fazendas e plantações totalmente arrasadas. A rapidez com que as águas avançaram sobre as áreas ribeirinhas impediu que muitos se salvassem. Corpos de pessoas e animais eram vistos por toda parte. O pluviômetro de Volta Grande foi destruído pela força das águas. Baseado em indicadores ambientais exibidos após a calamidade estimou-se que a área nuclear tenha sido atingida por mais de 400mm de chuva em apenas 24 horas. Nas sedes dos municípios de Leopoldina, Cataguases e Recreio onde os danos foram menores, formaram-se comissões de socorro as áreas rurais atingidas, mas como as chuvas prosseguiram,embora em menor intensidade até dia 20 e as condições de estradas eram críticas com interdições por desabamentos, o trabalho de resgate e assistência a desabrigados e feridos foi muito prejudicado.

O número de vítimas fatais identificadas na região chegou a cerca de 250, por volta de 108 em Volta Grande, 130 em Leopoldina, sendo 72 em Providência, 6 em Abaíba, 31 em Tebas e 21 no então distrito de Argirita. O arraial de S Pedro entre Santo Antônio de Pádua e Pirapetinga, com aproximadamente 60 casas, desapareceu por completo. A ferrovia ficou interditada no trecho entre Porto Novo e Recreio ligando a Carangola, também interditada por deslocamentos de aterros e barreiras. O mesmo acontecendo com a rodovia Rio-Bahia ainda não asfaltada. A comunicação com o Rio de Janeiro, então Capital Federal ,passou a ser feita por Ubá. Houve interrupções no fornecimento de energia elétrica e nos já precários serviços de telefonia. A economia da região, baseada na agropecuária, foi seriamente abalada com racionamento de alimentos e outros produtos. A tragédia alcançou repercussão nacional. De diversas partes do Brasil vieram ajudas, tanto governamentais quanto de entidades e voluntários. Uma reconstituição dramatizada da tragédia foi levada ao ar pela Rádio Nacional, então o principal órgão de comunicação do País. Registro este ainda preservado em gravações.

Toda esta catástrofe, no entanto, poderia ter sido atenuada, não fosse a irracionalidade e ganância na ocupação do solo.É o que o professor Hilgard O’Reilly Stermberg da faculdade Nacional de filosofia do Rio de Janeiro,publicou num detalhado estudo,na revista Brasileira de Geografia em Abril de 1949:

“ Retirado, de terras que jamais deveriam ter sido agricultadas, o manto protetor de matas virgens, lavradas as glebas segundo as linhas de maior declive, permitindo o pisoteio e o apascentamento excessivos – estava armado o cenário para uma passagem dramática da tragédia, cujo último ato ainda está por escrever.”

Este foi um alerta feito há mais de sessenta anos. Antes deste já haviam sido feitos outros e depois também. Pouco tem adiantado.


Fontes consultadas :
Revista Brasileira de Geografia- Abril de 1949
Gazeta de Leopoldina de 19 de Dezembro de 1948
Arquivo jornal LEOPOLDINENSE

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