17/01/2019 às 17h40min - Atualizada em 17/01/2019 às 17h40min

Há 39 anos uma tragédia se abateu sobre Leopoldina causando mortes e destruição

Renato Campos Baptista


Muitos, como eu, têm gravado na memória, de forma indelével, a tragédia que se abateu sobre Leopoldina naquela noite de segunda-feira, 21 de janeiro de 1980. Por mais que se queira varrer da mente tais fatos, aquela noite fatídica deixou em mim marcas profundas e dolorosas que irão se perpetuar até o fim dos meus dias.

Chovia intensamente por volta das 20:00 horas, quando um pressentimento fez com que eu ligasse para a minha mãe – moradora da rua Marechal Deodoro -, preocupado com a continuidade e o volume da chuva, orientando-me a não ir até lá enquanto chovesse.  Às 22:00 horas, aproximadamente, a chuva cessou e, então, consegui sair de casa, à rua Colatino Barbosa de Castro, na Vila Esteves e desci em direção à Praça da Bandeira.

Por precaução, e sem saber, ainda, se havia maiores estragos, preferi trafegar pelas partes mais altas, acessando o Alto da Ventania e descendo até a praça. Estacionei no início da Benedito Valadares e segui a pé até a casa de minha mãe. Vestígios de barro e entulhos espalhados pela praça davam mostras dos estragos provocados pela enchente. Notícias desencontradas afirmavam que uma tromba d’água se abatera sobre o bairro da Pinguda, causando prejuízos incalculáveis e, pior, ocasionando três mortes.

A seguir, reunimo-nos na cozinha e trocamos informações, vez que inúmeros vizinhos por lá passaram num vaivém frenético e sempre tinham algo a acrescentar. Nesse ínterim, adentrou a casa, em prantos, nosso amigo Atayde Lamim Alves, desesperado com a suposta perda da esposa Sra. Maria Pires Alves e da sogra, Sra. Joaquina Teixeira Pires, que, segundo ele, se deixaram levar pela correnteza que se formou na Marechal Deodoro, a uma altura superior a um metro. Procuramos acalmá-lo, argumentando que elas (mãe e filha) deveriam ter se abrigado em casa de algum vizinho, com o que ele não concordava. Embora não tenha testemunhado a triste ocorrência, um pressentimento doído assaltava-lhe a mente e o corpo, sem que pudéssemos fazer algo para minorar seu sofrimento, se não oferecer-lhe conforto e solidariedade. Seu cunhado, José Teixeira Pires, confidenciou a tanto quantos se dispuseram a prestar auxílio, que sua irmã portava um cordão de ouro com três bonecos, simbolizando suas filhas, Noemides, Marides e Marimides.

Posteriormente, confirmou-se o sombrio pressentimento. Seu sogro, Sr. Ataliba Pires, morador próximo à cabeceira da ponte, sentindo-se em perigo com o volume d’água que invadia rapidamente sua residência, saiu em direção à praça, mãos dadas com a esposa e esta com a filha, escorando-se timidamente pelas paredes, sem qualquer segurança. Sem onde se agarrar de forma segura, e, já exausto pela força despendida, viu a correnteza, tomar-lhe das mãos seus bens mais preciosos, e desaparecer nas águas turvas e traiçoeiras do Feijão Cru.

Cessada a chuva, a água recuou ao seu nível quase natural, dando condições às famílias atingidas de procederem à limpeza de suas moradias, tomando-lhe, por inteiro, a noite.

De regresso à casa, optei seguir pela rua 3 de Junho, curioso com a situação da residência que deixara há um ano, frente à marcenaria do Gedeão. Também lá os estragos eram flagrantes e todos se desdobravam na limpeza. Quis o destino que eu passasse por aquela rua e me detivesse para apreciar parte da tragédia. Alguns moradores e curiosos espalhavam-se ao longo da ponte e teciam comentários os mais diversos, desde o nível atingido pelas águas, quanto pelas vidas ceifadas brutalmente. Em dado instante, um voluntário anônimo que “passeava” pelo lamaçal da D. Geni Gama (?), entre inúmeras bananeiras tombadas, gritou e pediu ajuda, sugerindo que ali poderia estar um corpo. Um arrepio percorreu-me o corpo e, sem medir conseqüências, atirei-me sobre os entulhos e atolei-me até os joelhos. Com dificuldade de locomoção, ainda assim caminhei por uns 10 metros e ajudei na identificação. Limpamos com as mãos o barro que encobria o rosto e o pescoço. A cena do cordão de ouro com os três bonecos está viva em minha memória, nada obstante 39 anos tenham decorridos. Removemos o corpo para o passeio e o cobrimos. Alguém saiu para comunicar aos familiares. Pressentindo aquele momento de comoção e de dor, retirei-me para não vivenciar ainda mais, detalhes daquela tragédia que parecia não ter fim. A procura pelos demais corpos continuou e, no dia seguinte, foram encontrados.
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