26/04/2019 às 22h48min - Atualizada em 26/04/2019 às 22h48min

História do Município de Leopoldina

Pesquisa de João Gabriel Baia Meneghite com revisão de Luciano Baia Meneghite, Luiz Otávio Meneghite e Nilza Cantoni

A Zona da Mata Mineira foi conhecida como ‘Áreas Proibidas” e ‘Sertões do Leste’. Era o caminho utilizado pelos contrabandistas de ouro para chegar ao Rio de Janeiro e foi vedada pelo governo para colonização.

No final do século XVIII a mineração estava em crise, fazendo com que muitas famílias buscassem terras férteis em áreas proibidas, dando inicio à colonização em nossa região – habitada até então por Índios Puris, que desapareceram com a chegada dos desbravadores.

Conta a lenda que no inicio do século XIX os tropeiros acamparam em uma clareira, ao lado de um córrego, onde foi aceso o fogo para fazer a comida e espantar os animais. O cozinheiro teria dormido e as chamas se apagaram, deixando cru o feijão que estava sendo preparado – daí a origem do nome do ribeirão que corta a cidade.  

Em 1813 foram doadas as primeiras sesmarias no território onde mais tarde viria a surgir o arraial do Feijão Cru, então pertencente ao termo de Barbacena, Comarca do Rio das Mortes.

A primeira matriz foi erguida onde atualmente é a praça Dom Helvécio, em honra a São Sebastião, escolhido o padroeiro do povoado. O núcleo inicial da aldeia surgiu nas imediações do Rosário e, em seu entorno, estão os logradouros mais antigos da cidade, como as ruas do Rosário (atual Rua Tiradentes); Direita (atual Rua Gabriel Magalhães) e Riachuelo (atual Rua Joaquim Ferreira Brito).


Na década de 1840 foi criado o distrito de São Sebastião do Feijão Cru, pertencente ao município de São Manuel do Pomba, atual Rio Pomba. Mais tarde, em 1851, foi incorporado ao território do então criado município de Mar de Espanha e, três anos depois foi publicada a Lei Provincial nº 666 de 27 de abril de 1854, que o emancipou com o nome de Vila Leopoldina, em homenagem à princesa Leopoldina Bragança e Bourbon, filha do Imperador D. Pedro II e da imperatriz D. Teresa Cristina.

Mais tarde, em 1861, foi elevada a categoria de cidade.

Vinte municípios da região pertenceram ao território de Leopoldina no século XIX, como os distritos de Meia Pataca  - hoje Cataguases; São José do Paraíba, antigo nome do município de Além Paraíba, entre outros.
 
NOME ATUAL NOMES ANTERIORES
Abaíba Santa Isabel
Além Paraíba São José do Paraíba
Angaturama São Joaquim
Angustura Madre de Deus do Angu
Argirita Bom Jesus do Rio Pardo
Cataguarino Empoçado
Cataguases Meia Pataca
Conceição da Boa Vista Conceição da Boa Vista
Itapiruçu Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Pomba
Laranjal Nossa Senhora da Conceição do Laranjal
Miraí Santo Antônio do Muriaé e Santo Antônio do Camapuã
Palma São Francisco de Assis da Capivara
Piacatuba Piedade
Pirapetinga Santana do Pirapetinga
Providência Providência
Recreio Recreio
Ribeiro Junqueira Campo Limpo
Santo Antônio do Aventureiro Santo Antônio do Aventureiro
Taruaçu Rabicho e Dores do Monte Alegre
Tebas Santo Antonio de Thebas
 
Atualmente, o município é formado pelos distritos de Abaíba, Providência, Ribeiro Junqueira, Piacatuba e Tebas.

O ciclo do café foi um marco no seu desenvolvimento econômico, que foi acentuado com a chegada da estrada de ferro, em 1877, cujo nome homenageia a cidade de onde saíram os capitais que iniciaram sua construção. A Estrada de Ferro Leopoldina fazia a ligação comercial com o Rio de Janeiro, capital do Império.
Fazenda Providência, uma das mais antigas da região. 

Nesse período, Leopoldina era sede de comarca e já desenvolvia o ensino de Latim e Francês. Em pleno desenvolvimento, o município recebeu a visita do Imperador D. Pedro II e a Imperatriz D. Tereza Cristina, em 1881. A Câmara Municipal se recusou a recebê-los, sob alegação de ausência de recursos financeiros para cobrir as despesas exigidas, gerando polêmica e dividindo a opinião pública entre monarquistas e republicanos.

Em 1876, Leopoldina abrigava a segunda maior população de pessoas escravizadas da província de Minas Gerais, cerca de 15.253. No ano de 1883, o número aumentou para 16.00l.

Após a abolição da escravatura, a exemplo do ocorrido no restante do país, restou à população negra permanecer nas fazendas ou, ocupar de forma precária, as periferias do município.

No final do século XIX e início do século XX, houve um aumento do número de imigrantes italianos em Leopoldina, que vieram para trabalhar na lavoura de café, sendo formadas colônias para abrigá-los.

Em Leopoldina, desde a metade do século XIX funcionavam escolas reconhecidas pelo bom nível de educação. No inicio do século XX, a cidade ficou conhecida como Atenas da Zona da Mata, cujo termo é uma referência à cidade grega de Atenas, renomada pela valorização artística e cultural de seu povo.

O Ginásio Leopoldinense foi uma das referências. Muitos vinham de longe para estudar nessa instituição de ensino, fundada em 1906. O colégio também ofertou o ensino técnico na área agrícola e ensino superior de farmácia e odontologia.


Muitas personalidades brasileiras como o governador Milton Campos, o cineasta Humberto Mauro, o escritor português Miguel Torga e o compositor Ary Barroso estudaram no Ginásio.

A energia elétrica chegou à cidade em 1908, após a construção de uma Usina, na Cachoeira da Fumaça do Rio Novo, em Piacatuba, que leva o nome de Antônio Maurício Barbosa, proprietário das terras cedidas para construção da barragem.

Em 1911 surge o Esporte Clube Ribeiro Junqueira, fundado por alunos e professores do Ginásio Leopoldinense. O professor José Botelho Reis, que hoje dá nome a escola, trouxe do Rio de Janeiro conhecimentos sobre o futebol, ensinando aos seus alunos a jogarem.

Em 1912 foi fundada em Leopoldina a Casa Bancária Ribeiro Junqueira Irmãos e Botelho, mais tarde, Banco Ribeiro Junqueira, voltado para o financiamento da cafeicultura e rizicultura. Possuía trinta agências nos Estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, sendo considerado um dos bancos brasileiros com grandes volumes de depósitos.

Leopoldina viveu momentos de crescimento em sua economia; no entanto, coma queda da demanda internacional do café, principalmente em 1929, e com a crise econômica norte-americana, o declínio dos preços do grão determinou mudanças na economia da Zona da Mata e do município, que passou a se sustentar na pecuária leiteira e no cultivo do arroz.

Em 1944, o Brasil participou da segunda guerra mundial, e fez parte da coalizão militar dos países denominados ‘aliados’, que se opuseram as forças ‘potências do eixo’. Dentre os milhares de oficiais e soldados, cerca de 35 pracinhas de Leopoldina atuaram na guerra, seja protegendo a costa brasileira, participando de batalhas na Itália ou de prontidão vigiando as prisões para onde eram levados os prisioneiros de guerra.

Entre as décadas de 1930 e 1960, algumas lideranças políticas tiveram projeção no Brasil, como José Monteiro Ribeiro Junqueira, que foi Agente do Executivo de Leopoldina - cargo equivalente a Prefeito; também exerceu os cargos de Deputado Estadual; Deputado Federal e Senador da República.

O leopoldinense Clóvis Salgado da Gama foi vice-governador do Estado de Minas Gerais. Em 1955, quando Juscelino Kubitschek de Oliveira renunciou ao mandato para disputar a Presidência da República, assumiu o governo mineiro. Com a vitória de Juscelino, tornou-se Ministro da Educação e Cultura do Brasil. Como governador, criou o Conservatório de Música. A escola leva o nome de sua esposa, a cantora lírica Lia Salgado.

Outro político que teve projeção foi o delegado de polícia e ex-prefeito de Leopoldina Carlos Luz, que ocupou o posto de Presidente da República, quando exercia o cargo de Presidente da Câmara dos Deputados, em função do afastamento de Café Filho. Foi Ministro da Justiça no governo Eurico Gaspar Dutra e também Deputado Federal.

Com a construção da Rodovia Rio-Bahia, ligando o sul ao norte do país, passando por dez estados, o processo de industrialização na região foi favorecido, fortalecendo a posição geográfica de Leopoldina, que também é cortada pelas rodovias BR-267 e BR-120.

Na BR-116, antiga Rio-Bahia, são transportados, aproximadamente, 50% do Produto Interno Bruto Brasileiro. Estudos apontam um alto potencial de desenvolvimento da região devido à localização geográfica estratégica. No entanto, a Zona da Mata ficou empobrecida em conseqüência da guerra fiscal entre os Estados.
 
Distrito de Abaíba

Abaíba fica a 16 quilômetros de Leopoldina e o seu acesso se dá pela estrada vicinal da região do Desengano, passando por Arraial dos Montes. Há rotas alternativas pela MG 454, passando pelos municípios de Recreio e o distrito de Providência.

O distrito é banhado pelo Rio Pirapetinga. A antiga linha ferroviária atravessa o local, onde existe uma estação por onde  passará o Trem Turístico Rio-Minas.

O povoado surgiu no entorno da estação ferroviária Santa Isabel, sendo formadas na região algumas fazendas da família ‘Monteiro de Barros’. O território do distrito foi desmembrado de Providência em 1890, passando a se chamar ‘Santa Isabel’.

Em 1943 passou a ser denominado Abaíba,que significa ‘difícil, trabalhoso, íngreme’.

O nome é o mesmo da histórica Fazenda Abaíba, criatório da raça Mangalarga Marchador, cuja linhagem é referência nacional.

A Fazenda do Niagara, também em Abaíba, foi uma das primeiras propriedades rurais da região a ter energia elétrica. Lá nasceu José Monteiro Ribeiro Junqueira, o Senador Ribeiro Junqueira, fundador da Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina.

Na primeira metade do século XX, existia no então distrito de Santa Isabel uma fábrica que exportava sucos de laranja.

Em 1948, Abaiba e toda região foram atingidas por uma violenta chuva, matando tragicamente seis pessoas no distrito e cerca de duzentos e cinqüenta nos municípios vizinhos.

A Folia de Reis é uma tradição antiga no local. Grupos formados por músicos, cantores e dançarinos vão de porta em porta fazendo louvações aos donos das casas nos distritos e povoados da região.

Um evento tradicional é a Festa de Santa Isabel, padroeira do distrito. Durante três dias são realizados eventos religiosos, partidas de futebol, festas com leilão de prendas, barracas com salgados e bebidas e apresentações musicais. 

Foto panorâmica do Distrito de Abaíba - João Gabriel B. Meneghite

 

Enchente de 1948 em Abaíba.


Distrito de Providência

O distrito de Providência foi fundado em 9 de maio de 1890. Fica a 15 quilômetros da cidade. O acesso é pela estrada sem pavimentação denominada MG- 454, que também faz ligação com os municípios de Volta Grande e Recreio.

É uma das regiões mais altas do município, com um conjunto de lindas cadeias de montanhas. Possui uma estação ferroviária, que será incluída no projeto Trem Turístico Rio-Minas.

A região possui dezenas de fazendas, muitas delas, preservam a história do período do ciclo do café e escravocrata – um potencial turístico que pode ser explorado, gerando divisas para a comunidade.

A Fazenda Providência, popularmente conhecida como ‘Fazenda Velha’, foi uma das principais produtoras de milho e outros grãos, atualmente, concentra-se na criação de gado leiteiro.

A Fazenda Cruz Alta chegou a cultivar mais de um milhão de pés de café em suas terras, tendo à frente o pecuarista Coronel Marco Aurélio Monteiro de Barros.

Já a Fazenda Paraíso era considerada uma das maiores e mais luxuosas da Zona da Mata, com mobiliários clássicos e objetos históricos. Lá nasceu Jerônima Mesquita, líder feminista com grande atuação na área social e luta pelos direitos da mulher. Em sua homenagem, a data de seu nascimento - 30 de abril é, no Brasil, o Dia Nacional da Mulher.

Vista panorâmica do Distrito de Providência - Foto: João Gabriel B. Meneghite


A histórica Fazenda Paraíso.



Ribeiro Junqueira

Ribeiro Junqueira fica a 16 quilômetros de Leopoldina e o seu acesso se dá pela rodovia BR-116, seguindo por uma rua pavimentada até o distrito. Existem rotas alternativas, a exemplo da rodovia MG-454, que faz ligação com o município de Recreio, além de outras estradas vicinais.

O distrito foi criado em 1878 como Campo Limpo, mas foi alterado o nome em 1948 para homenagear o Senador José Monteiro Ribeiro Junqueira.

A sua estação de trem foi inaugurada em 1874, com grande capacidade para estocar a produção de café dos agropecuaristas. No local, existiu uma agência alfandegária, onde eram inspecionadas as mercadorias a serem exportadas para a província do Rio de Janeiro.

A região é composta de muitas propriedades rurais que produzem leite, fornecidos para a Cooperativa dos Pequenos Produtores Rurais da comunidade.

Um dos eventos tradicionais realizados no distrito é o Concurso Leiteiro, onde também são realizadas muitas atrações musicais.

No futebol, teve equipes competitivas e formou jogadores de destaque no cenário nacional. O mais conhecido deles é Adevaldo Virgílio Neto, que jogou no Botafogo e foi campeão dos jogos Pan-americanos com a Seleção Brasileira, em 1963, em Tóquio, no Japão.

Outro destaque no futebol foi Anselmo Almeida, que jogou na Copa Libertadores das Américas pelo ‘Independiente de Medellín’.

Vista panorâmica do Distrito de Ribeiro Junqueira - Foto: João Gabriel B. Meneghite

 

Ribeiro Junqueira (Foto:Hugo Caramuru)

Tebas

O distrito de Tebas fica a 12 quilômetros da sede municipal e o seu acesso se dá pela rodovia BR-267.

Anteriormente, o local era conhecido como Santo Antonio do Monte Alegre, cujas terras pertenciam ao município de Leopoldina e o então distrito de Piedade, hoje Piacatuba.

Em 30 de novembro de 1880 foi criado o distrito de Tebas, cuja origem do nome é motivo de debate, sendo atribuído a uma cidade grega; também a um nome de um ribeirão; ou de origem da língua tupi, com sentido desembaraçado, forte, graúdo; outros dizem ser em homenagem a Manoel Joaquim Thebas, que teria doado terras para a construção da paróquia.

Curiosidade sobre  Tebas 
 
Com a Inconfidência Mineira, a Coroa portuguesa considerou infame até a quarta geração de Tiradentes, provavelmente fugindo de perseguições, parte de seus familiares vieram para Tebas. Sua última parente viva, nascida no distrito em 1890 e falecida em Leopoldina em 2001, aos 111 anos, foi a professora Carmem da Silva Xavier, prima em quarto grau do inconfidente. 

O local já foi sede temporária da administração municipal, pois, em 1894, houve uma epidemia de febre amarela que causou muitas mortes em Leopoldina.

A região tem muitos descendentes de italianos, pois fica próxima a Colônia Agrícola da Constança, formada em 1910 na região da Boa Sorte, onde foram vendidos lotes para os imigrantes trabalharem na lavoura e sustentarem as suas famílias. 

Os doces produzidos no distrito são muito conhecidos e já conquistou o paladar da Rainha da Inglaterra, Elisabeth II e do Papa João Paulo II.

O carnaval é um evento muito tradicional no distrito, que recebe turistas da região para curtir os tradicionais blocos. Outras festividades como o Concurso Leiteiro e eventos relacionados à gastronomia movimentam o turismo do local.

Vista panorâmica de Tebas - Foto: João Gabriel B. Meneghite




Piacatuba

Piacatuba fica localizado a 22 quilômetros da cidade sede.  A entrada principal para o distrito é pela BR-120, seguindo em direção a Rodovia Francisco Mendonça Gama. No acesso ao distrito encontra-se o Aeroporto da Vargem Linda.

Próximo à região da Laginha, está a Fazenda Experimental da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – EPAMIG, onde são desenvolvidos trabalhos de reprodução de peixes de espécies nativas e ornamentais para fomento da piscicultura.
 
Anteriormente, aquele pequeno lugarejo era denominado Curato de Nossa Senhora da Piedade e pertenceu ao Termo de São João Nepomuceno. Tornou-se distrito em 1851 e foi incorporado ao território de Leopoldina em 1854. Só em 1923, o distrito de ‘Piedade’ passou a ser denominado Piacatuba, nome de origem tupi, cujo significado é: PIÁ = Coração; CATÚ = Bom; BÁ (em vez de ABÁ) = Lugar -  que significa “LUGAR DE GENTE DE BOM CORAÇÃO”.

Piacatuba tem como pano de fundo os casarões do século XIX, formando um belo cenário, sendo muito requisitado por produtores de cinema para ambientação de filmes e séries.

Ficou conhecido nacionalmente por sediar o Festival Viola e Gastronomia, alavancando o turismo do lugar, que conta com dezenas de pousadas para hospedagem dos visitantes.

Em seu território localiza-se a Usina Hidrelétrica Maurício, construída no Rio Novo, formando uma represa muito visitada por turistas, assim como a Cachoeira Poeira D’água, que são belezas naturais de Piacatuba.

A festa da ‘Cruz Queimada’ também tem sido um atrativo para os visitantes, que saem de longe, levando suas dádivas, em cumprimento a promessas atendidas. A lenda da cruz tornou-se símbolo religioso e local de peregrinação.


Rua das Pedras


Torre da Cruz Queimada - Acervo: Plínio Alvim
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