07/08/2019 às 16h40min - Atualizada em 07/08/2019 às 16h40min

Registros revelam os pontos culminantes de Leopoldina

João Gabriel B. Meneghite
Recentemente o jornal Leopoldinense publicou uma reportagem divulgando fotografias do Alto de Santa Úrsula, apontado por muitas referências bibliográficas como o ponto culminante do município de Leopoldina, com 712 metros acima do nível do mar.
 
A montanha fica localizada na Comunidade de São Martinho, no Distrito de Providência, sendo um ponto de referência das divisas entre os municípios de Leopoldina e Estrela Dalva (Distrito de Água Viva).
 
Após a repercussão da matéria, o topógrafo da Prefeitura Municipal de Leopoldina Ricardo de Souza Oliveira, comentou que as antigas publicações tratavam esse lugar como o ponto culminante, mas ressaltou que os estudos foram atualizados, indicando uma região com altitude superior. 
 
Com base nas informações apresentadas pelo especialista da Prefeitura de Leopoldina , consultamos o acervo dos pesquisadores leopoldinenses José Luiz Machado Rodrigues e Nilza Cantoni, obtendo uma cópia de um mapa do IGA – Instituto de Geociências Aplicadas, de 1981, última atualização cartográfica do município. O material revela que a Serra da Boa Vista tem 761 metros de altitude, portanto, considerada oficialmente, como o local mais elevado de Leopoldina.
 
 
As antigas referências bibliográficas
 
Cabe salientar que muitas publicações tratam o Alto de Santa Úrsula como o ponto culminante do município. É possível observar essa informação no site da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, Wikipédia, antigas publicações de jornais, entre outros meios que serviram como base para o desenvolvimento de artigos científicos e reportagens.
 
A referência é antiga e está na Carta Topográfica organizada pelos Engenheiros Benedito Quintino dos Santos e Gil Morais Lemos, de 1928, por ordem do então Presidente da Câmara Municipal Dr. Carlos Coimbra da Luz, sendo a planta executada pelo senhor Maurício Lussy, em obediência ao decreto de Lei Nacional nº 311 de 02 de março de 1938. 
 
Em 1977 e 1981 foram publicados novos trabalhos, sendo esse último realizado pelo Instituto de Geociências Aplicadas – IGA, com base nas informações contidas no estudo anterior (1977) da Diretoria de Geodésia e Cartografia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.
 
Ranking dos pontos culminantes de Leopoldina.
 
Com base nas informações contidas na cartografia de 1981 do IGA, fizemos um levantamento, organizamos e compilamos os dados sobre as altitudes contidas no mapa, elencando os pontos culminantes do município.
 
1º lugar: Serra da Boa Vista - O ponto mais alto da Serra da Boa Vista tem 761 metros de altitude e fica nas proximidades da Comunidade 104, antiga colônia do DNER, localizada na BR116. Pertence ao território do Distrito de Tebas, sendo o relevo uma referência de divisa entre os municípios de Santo Antônio do Aventureiro, Argirita e Leopoldina. É neste local que se situa uma das nascentes do Rio Pirapetinga e do Córrego Santa Mariana.

Serra da Boa Vista 

2º lugar: Serra Pendura Saia - O segundo ponto tem 759 metros de altitude e fica na divisa com Além Paraíba, no território do Distrito de Providência. Moradores da região contam que, no passado, uma mulher caiu lá do alto e a sua saia ficou agarrada em um galho no “paredão de pedras”, daí a origem do nome ‘Pendura Saia’. O bioma em seu entorno é composto por uma área repleta de árvores, plantas e animais como a onça parda.

 Serra Pendura Saia - divisa de Leopoldina com Além Paraíba

Serra Pendura Saia - ao fundo, à esquerda, é possível observar o Alto de Santa Úrsula.

 
 
Aferições apresentam divergências
 
No passado, para medir a altitude de uma montanha utilizava-se o barômetro, que calcula a pressão atmosférica para se chegar a um determinado resultado - em 2016 esse equipamento foi considerado impreciso pelo IBGE, que passou a utilizar o GPS (Sistema de Posicionamento Global), que registra com exatidão as medidas.
 
Com isso, foi lançado o projeto ‘Pontos Culminantes’, que refez as medições dos principais picos brasileiros, revelando números surpreendentes e descobrindo, por exemplo, que o pico da Neblina, a maior montanha do Brasil, localizada na Amazônia, tem 20 metros a menos do que se pensava – passou de 3014 metros para exatos 2.993,78.
 
Trata-se de um método inovador, apresentando resultados que alteraram as altitudes contidas nos livros de geografia. Segundo o setor de geociências do IBGE, o projeto foi realizado em parceria com IME - Instituto Militar de Engenharia e, parou por aí – não se sabe quando haverá novas expedições e tão pouco se será ampliado para os municípios.
 
Sendo assim, os demais picos brasileiros permanecem com aferições antigas, restando aos interessados no assunto consultar algumas ferramentas como o Google Earth, programa de computador que apresenta um modelo tridimensional do globo terrestre, fazendo uma cartografia do planeta. Inclui, entre outros recursos, imagens de satélite e fotografias aéreas, sendo um sistema de informação geográfica em 3D que permite estimar a altitude de diversos pontos.
 
Altitudes de Leopoldina observadas no mapa oficial e pelo Google Analytics
 

Ao se comparar as medidas de um mesmo ponto, levando em consideração as informações contidas no mapa oficial com os resultados da ferramenta Google Analytics, as altitudes apresentam divergências significantes, ao ponto do ranking ser alterado.
 
Por exemplo, se considerarmos o mapa do Instituto de Geociências Aplicadas, a Serra da Boa Vista é o ponto culminante, com 761 metros de altitude, seguida pela Serra Pendura Saia, com 759.
 
Levando-se em consideração os resultados de elevação apresentados pelo Google Earth, a Serra Pendura Saia apresenta 746 metros de altitude e a Serra da Boa Vista 724.
 
Cabe salientar que as informações contidas no mapa são resultantes de aferições com barômetros, método antigo utilizado pelo IBGE; Já os resultados do Google Earth são provenientes de imagens por satélite, sendo muito comum a sua utilização por profissionais de diversas áreas, que usam o programa para fundamentar os seus projetos e também mapear locais com difícil acesso ou com deficiência cartográfica.
 
Nossa reportagem tentou contato com especialistas no assunto para verificar a existência de algum estudo comparando a precisão do barômetro versus o Google Analytics, mas sem êxito.
 
O fato é que as informações oficiais dão conta de que a Serra da Boa Vista, localizada no território de Tebas, é o ponto culminante de Leopoldina e até que sejam realizados novos estudos, utilizando métodos mais precisos, a dúvida permanecerá.
 
Algumas curiosidades:
 
Alto de Santa Úrsula pode ser o ‘paredão’ mais íngreme de Leopoldina
 
Altitude e altura são palavras semelhantes, mas com significados diferentes. A altitude é a distância vertical entre o nível do mar e a extremidade superior da montanha; Já a altura é a distância exata da base da montanha à extremidade superior do ponto mais alto. 
 
Evidentemente que trata-se de uma suposição, sendo a classificação uma tarefa pertinente a especialistas, no entanto, é possível observar a imponência do Alto de Santa Úrsula em relação aos demais relevos pertencentes ao território de Leopoldina.
 
O Alto de Santa Úrsula tem 398 metros de altura e 712 de altitude. Ao que tudo indica, os pontos culminantes de Leopoldina têm alturas inferiores a essa montanha, localizada na Comunidade de São Martinho, Distrito de Providência.

Alto de Santa Úrsula 


E o Morro do Cruzeiro?
 
O Morro do Cruzeiro é um mirante natural muito frequentado por turistas e, por isso, o mais popular de Leopoldina. A pedreira monoteca, de granito escuro, tem altura de 385 metros do solo e 630 metros do nível do mar. Na cartografia do IBGE, apresenta 600 metros de altitude; Pelo Google Earth 623.
 
Se considerarmos o valor de 630 metros de altitude, o Morro do Cruzeiro ocupa 26º posição no ranking de altitudes do município de Leopoldina. 
O Morro do Cruzeiro e a cidade de Leopoldina.
 
A necessidade de atualização da base cartográfica.
 

A última atualização cartográfica do município de Leopoldina foi realizada em 1981, pelo IGA – Instituto de Geociências Aplicadas, com base nas informações contidas no estudo anterior (1977) da Diretoria de Geodésia e Cartografia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Nestes mapas as denominações das montanhas, serras e morros estão desatualizadas, muitas delas, sem nome, a exemplo do Morro do Cruzeiro, que no mapa aparece apenas referência a ‘Antenas de TV’. Segundo a pesquisadora Nilza Cantoni, é possível observar referências de propriedades existentes em 1856 ou mencionadas em cartas de sesmarias

 
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