20/11/2019 às 19h42min - Atualizada em 20/11/2019 às 19h42min

Tula Pilar, a poeta leopoldinense, seguidora de Carolina Maria de Jesus

Poeta, dançarina, atriz, ex-empregada doméstica, vendedora da revista Ocas, Tula Pilar Ferreira nasceu em Leopoldina, Minas Gerais, em 1970. Quando tinha dois anos mudou-se para Belo Horizonte com a mãe e as irmãs. Aos sete, começou a ajudar a sua mãe, que era cozinheira, no trabalho, não deixando de lado a escola e as brincadeiras.

Teve a primeira filha, Samantha aos 15 anos. Continuou a trabalhar, tentou morar no Rio de Janeiro, mas aos 19 anos foi trabalhar como doméstica em São Paulo, em casa de família. Trabalhou também como passadeira, mas em um momento de dificuldade financeira acabou conhecendo o trabalho da Revista Ocas, produzindo poemas e vendendo a revista. Tula virou referência em todos os saraus da periferia da cidade.

Participou de festivais de literatura e publicou o livro “Palavras Inacadêmicas” de maneira independente em 2004 e “Sensualidade de fino trato”, publicado pelo selo do Sarau do Binho em 2017. Também teve participação em obras coletivas, como o “Negras de Lá, Negras Daqui”, lançado em fevereiro deste ano.

Mãe solo com três filhos, Pilar, vê sua trajetória muito parecida com Carolina de Jesus. Lançou o “Cadin de coisa”, sarau que mistura culinária mineira e arte.

“Sou uma Carolina”, por Tula Pilar Ferreira

“Sou uma Carolina
Trabalhei desde menina
Na infância lavei, passei, engraxei…
Filhos dos outros embalei

Sou negra escritora que virou notícias nos jornais
Foi do Quarto de Despejo aos programas de TV

Sou uma Carolina
Escrevo desde menina
Meus textos foram rasgados, amassados, pisoteados
Foram tantos beliscões
Pelas bandas lá de Minas
Eu sou de Minas Gerais

Fugi da casa da patroa
Vassoura não quero ver mais
A caneta é meu troféu
Borda as palavras no papel
É tudo o que quero dizer

Sou uma Carolina
Feminino e poesia
A negra escritora que foi do Quarto de Despejo
aos programas na TV

Hoje uso salto alto
Vestido decotado, meio curto e com babados
Estou na sala de estar
No meu sofá aveludado
Porque…
Sou uma Carolina
Feminino e poesia
Pobreza não quero mais
A caneta é meu troféu
Borda as palavras no papel
É tudo o que quero dizer…

Carolina…”

Segundo os filhos, Tula Pilar não estava bem e foi levada para o hospital  dia 11 de abril de 2019. Ao que tudo indica, que teve uma parada respiratória a caminho da UPA.

Agora, além dos poemas, do sorriso, dos filhos, do entusiasmo nos deixa um grande vazio. Saudades Pilar!

O enterro  aconteceu em 12/04, no cemitério da Saudade, Taboão da Serra-SP


Texto de Flávia Martinelli/Jornalistas Livres

Atualizado em 20/11/2019
 
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