05/04/2020 às 18h01min - Atualizada em 05/04/2020 às 18h01min

O vírus divino

Zélia Lopes
Zélia Lopes (Divulgação)
Nunca entendi o motivo das pessoas ricas terem varandas e quintais. Ando pelas ruas da cidade, do Moinho à Rua dos Médicos ou na Praça Félix Martins. Casarões antigos e imensos falam de uma beleza sóbria e clássica como os jardins da Casa de Leitura Lya Botelho.

Eles trazem uma grama verde, mais verde que as de qualquer outro vizinho. Flores que quando murcham são arrancadas sem piedade da terra para darem lugar a outras mais viçosas, porque não dá pra esperar outra estação para vê-las renascer no milagre que a terra secretamente  realiza em suas raízes. Esses são espaços solitários, vazios. Não sentem a dor de serem pisados por pés humanos que se os tocassem se energizariam a ponto de curarem a sua dor. E mesmo assim, Deus alimenta esses jardins e neles depositou, em miniatura, reflexos do seu amor.

Mas pra quê varandas se não há traseiros sentados nas cadeiras mirando essas flores? Se não há crianças gritando e correndo pelos seus quintais? Se ninguém faz piquenique no gramado, se ninguém almoça ao ar livre, nem dança ao pôr-do-sol, nem deita na grama pra ver o nascer das estrelas?

Se tudo é divino, se tudo, absolutamente tudo na Natureza, foi criado pelas mãos de Deus, o que há de Deus no ser que O admira?  Lembro-me de São Francisco de Assis, quando disse: “Entre mim e todas as coisas não deve haver diferença”. Sim. Ele era santo porque se integrou completamente na Natureza, no divino que há em tudo. Então ele sabia que não havia nada a temer, já que tudo, absolutamente tudo, é de origem divina. 

Há uma estranha correspondência entre os jardins ricos da cidade e o vírus que viaja livre pelo mundo. Os dois são criações divinas. E agora, agora que uma ameaça mortal nos aprisiona, os quintais e varandas poderão voltar a fazer sentido àqueles que estão presos em suas gaiolas e quem sabe, no futuro, deixemos nossas crianças brincarem neles...
 
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