14/05/2020 às 09h08min - Atualizada em 14/05/2020 às 09h08min

Lagarto mais antigo da América do Sul é descoberto no interior de Minas

Trabalho, com participação da UFMG, foi divulgado na Communications Biology, publicação da revista Nature

Autores: Jonathas Bittencourt, Tiago Simões, Michael Caldwell, Max Langer.
Os lagartos caminhavam pela região onde hoje é a América do Sul pelo menos 20 milhões de anos antes do que se pensava. A descoberta está presente no artigo Discovery of the oldest South American fossil lizard illustrates the cosmopolitanism of early South American squamates, publicado no dia 29 de abril pela Communications Biology, do grupo Nature. O animal, batizado de Neokotus sanfranciscanus, foi descoberto na cidade de João Pinheiro, região noroeste de Minas Gerais, por um grupo de pesquisadores da UFMG, USP, Universidade de Harvard (EUA) e Universidade de Alberta (Canadá), em pesquisa com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). “O estudo mostrou que a diversidade de lagartos e serpentes no Cretáceo da América do Sul era mais cosmopolita (ou seja, uma fauna mais "generalizada"), em contraste com a fauna atual, bem mais endêmica. A descoberta é importante para entender como se deu a evolução da biodiversidade no continente desde a época dos dinossauros”, explica o professor Jonathas Bittencourt, do Laboratório de Paleontologia e Macroevolução do Instituto de Geociências (IGC/UFMG), coordenador da pesquisa.

A nova espécie tem cerca de 135 milhões de anos, 20 milhões a mais que os fósseis de lagarto até então encontrados no continente. O parentesco do Neokotus sanfranciscanus foi descoberto pelo comparação com espécies fósseis e viventes, com dados de anatomia e sequenciamento de DNA. As características únicas da dentição do novo lagarto revelam que ele faz parte da família Paramacellodidae, extinta há pelo menos 66 milhões de anos e até então desconhecida na América do Sul. “A maioria das espécies de lagartos fósseis são provenientes do Hemisfério Norte. Apenas uma pequena porção dessa diversidade antiga é conhecida para a América do Sul, África, Oceania e Antártica. A maior parte dos lagartos fósseis da América do Sul foi descoberta no Brasil e nossos achados demonstram sua relevância para entender os padrões globais da evolução do grupo, bem como a origem e evolução das cerca de 2.000 espécies viventes de lagartos e serpentes sul-americanas”, afirma o pesquisador de Harvard e coautor do artigo, Tiago Simões.

A ocorrência do lagarto data do período Cretáceo, entre 145 e 66 milhões de anos atrás. “Esse período é extremamente interessantes para a evolução da vida na Terra. Houve grande diversificação de répteis e aves, a origem de alguns grupos de mamíferos, a separação dos continentes do sul, que estavam juntos desde a época da Pangeia, além da grande extinção no fim do período, que dizimou não só dinossauros, mas diversos outros grupos de animais e plantas”, diz Jonathas Bittencourt.

Do dente de tubarão ao lagarto franciscano

Os pesquisadores do Laboratório de Paleontologia e Macroevolução da UFMG trabalham desde 2012 na busca de fósseis na região norte de Minas Gerais. Em 2017, na cidade de João Pinheiro, foi encontrado um dente de tubarão grudado em uma rocha do período Cretáceo. Além de menor, o dente era diferente dos materiais de outros peixes cartilaginosos conhecidos na localidade. Para fazer a análise, a rocha foi mergulhada em solução de água oxigenada a 30%, deixando apenas o fóssil, sem qualquer dano. Outras amostras semelhantes passaram pelo mesmo processo, revelando uma grande variedade de pequenos restos de tubarões, descoberta publicada na revista Historical Biology.

Nas amostras analisadas, foi encontrado um pequeno osso com dentes, depois falanges, vértebras, uma cintura pélvica quebrada e um fragmento de osso maxilar. Os pesquisadores então se deram conta de que não se tratava de um peixe, mas de um lagarto. A partir da análise filogenética foi feita a identificação de que se tratava de espécie desconhecida até então. “O Neokotus tem uma dentição peculiar, com bases espessas e ápices não divididos e recurvados para dentro da boca, provavelmente usados para capturar insetos”, conta Jonathas Bittencourt. Essas características únicas ajudaram no batismo do animal. “Neokotus” vem do grego, que significa “novo e estranho”, e “sanfranciscanus” diz do lugar onde ele foi encontrado, na Bacia do Rio São Francisco.

Artigo: Discovery of the oldest South American fossil lizard illustrates the cosmopolitanism of early South American squamates.

Publicação: Communications Biology (29 de abril de 2020)
 

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