30/08/2014 às 18h26min - Atualizada em 30/08/2014 às 18h26min

Pauta polêmica pode levar Marina a perder apoio de evangélicos

Por Raphael Di Cunto
Valor
As críticaslevaram Marina a divulgar nota em que recua de parte do texto do programa.

BRASÍLIA  -  Propostas polêmicas incluídas no programa de governo da presidenciável Marina Silva (PSB) foram alvo de críticas de líderes evangélicos desde o lançamento do texto, na sexta-feira, e colocaram em risco seu eleitorado mais fiel, os evangélicos, que lhe garantiram boa parte dos 19 milhões de votos em 2010 e deram sustentação para alavancar a sua candidatura agora.

No programa, Marina se compromete com pautas do movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais), como a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo, combate à discriminação sexual nas escolas e casamento homossexual. O texto promete também regulamentar os procedimentos para o aborto no Sistema Único de Saúde (SUS) nos casos previstos em lei, como por gravidez fruto de violência sexual.

A defesa causou uma onda de críticas nas redes sociais e entre lideranças evangélicas. Um dos principais integrantes da bancada no Congresso, o líder do PMDB na Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (RJ), afirmou que as propostas defendidas pela candidata são “totalmente opostas aos princípios defendidos pelos cristãos”.

“Com esse programa de governo, vai ficar um pouquinho difícil para ela manter os votos dos evangélicos. Quero ver qual liderança evangélica ou católica que terá coragem de defender essa candidatura com esse programa de governo”, afirmou o pemedebista na rede de microblogs Twitter. “Lamentável ver alguém que se diz evangélico defender um programa desses”, completou.

As críticas de vários setores levaram Marina a divulgar nota neste sábado em que recua de parte do texto do programa. Segundo a nota, o texto que “chegou ao conhecimento do público até o momento, infelizmente, não retrata com fidelidade os resultados do processo de discussão sobre o tema durante a formulação do plano de governo”.

A coligação do PSB atribui a diferença a uma “falha processual na editoração”, que incorporou redação que “não contempla os diversos pensamentos que se dispuseram a contribuir para sua formulação e os posicionamentos de Eduardo Campos e Marina Silva” sobre o tema. Mas ressalta na nota que “permanece irretocável o compromisso irrestrito com a defesa dos direitos civis dos grupos LGBT”.

As diferenças não são poucas. No texto distribuído na internet, consta que “vivemos em uma sociedade sexista, heteronormativa e excludente em relação as diferenças. Os direitos humanos e a dignidade das pessoas são constantemente violados e guiados, sobretudo, pela cultura hegemônica de grupos majoritários (brancos, heterossexuais, homens etc)”.

A nova versão é mais light: “Ainda que tenhamos dificuldade para admitir, vivemos em uma sociedade que tem muita dificuldade de lidar com as diferenças de visão de mundo, de forma de viver e de escolhas feitas em cada área da vida. Essa dificuldade chega a assumir formas agressivas e sem amparo em qualquer princípio que remeta a relações pacíficas, democráticas e fraternas entre as pessoas.”

A versão divulgada inicialmente também faz a defesa de projetos específicos, como o Projeto de Lei 122/06, que criminaliza a homofobia e foi fortemente combatido pela bancada evangélica no Congresso, e a preparação de material didático “destinado a conscientizar sobre a diversidade de orientação sexual e as novas formas de família” – o governo Dilma foi atacado por líderes religiosos por causa do que chamaram de “kit gay”, material preparado pelo Ministério da Educação para combater o bullying nas escolas, e teve de recuar da distribuição do material. Esses dois trechos saíram da nova versão do programa de Marina.

Foi alterada ainda a redação do artigo em que é prometido “eliminar os obstáculos à adoção de crianças por casais homossexuais” para mudar o foco. “Como nos processos de adoção interessa o bem-estar da criança que será adotada, dar tratamento igual aos casais adotantes, com todas as exigências e cuidados iguais para ambas as modalidades de união, homo ou heterossexual”, diz a nova versão.

Hoje em crescente ascensão nas pesquisas de intenção de voto, Marina se consolidou como terceira via em 2010 ao receber o voto dos insatisfeitos com a polarização PT-PSDB e principalmente do eleitorado evangélico que desistiu de votar na presidente Dilma Rousseff quando líderes religiosos passaram a fazer campanha contra a petista por uma suposta posição favorável ao aborto. Dilma conseguiu retomar terreno no segundo turno, ao se comprometer a não adotar nem estimular nenhuma medida que facilitasse o aborto.

Resta saber agora como o programa de governo terá impacto no eleitorado de Marina, que é evangélica, mas defendeu no lançamento do programa o Estado "laico". O melhor desempenho da candidata em pesquisa Ibope feita entre 23 e 25 de agosto era justamente no eleitorado evangélico, que lhe dava 37% das intenções de voto, contra 27% de Dilma. No eleitorado geral, Dilma vencia por 34% a 29% de Marina.

 

 


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