18/05/2020 às 16h15min - Atualizada em 18/05/2020 às 16h15min

Uma escola mineira que faz diferente

Marcus de Mario (*)
Marcus de Mário, escritor e educador.
Em junho de 2004, num encontro sobre educação, conheci o Tonheca e a Cida. Ficamos hospedados no mesmo albergue na cidade de Santos, e depois de várias conversas, eles me falaram do Centro Educacional Conhecer, que haviam criado na cidade de Leopoldina, em Minas Gerais.
 
Combinamos minha visita e lá fui eu para a zona da mata mineira. Já se vão dezesseis anos de muita amizade e interação, apoio pedagógico, com alegrias e tristezas, pois nem tudo são rosas para uma escola inovadora que faz diferente.
 
Os amigos leopoldinenes não me deixam hospedar em hotel, estão sempre me abrigando em sua residência, pois valorizam a solidariedade e a fraternidade, princípios não apenas de suas vidas, mas igualmente da escola. O Conhecer, apesar de nem sempre receber o apoio de quem deveria apoiar, desenvolve seu projeto pedagógicos com base em princípios, ou valores, de grande importância, como autonomia, ética, solidariedade, respeito, amor. Bem que outras escolas podiam seguir esse exemplo, que não está apenas no papel, pois diariamente todos os educadores se esforçam em colocá-los em prática.
 
Vez ou outra a Cida, à frente da direção pedagógica, chora suas tristezas. A fiscalização só quer saber de burocracia. Esta ou aquela professora não consegue entender em plenitude a proposta da escola. O apoio prometido por esta ou aquela organização não veio. Faltam recursos financeiros: a escola pertence e é mantida por uma associação, ou seja, uma organização não governamental sem fins lucrativos. Mas tem a outra ponta: a satisfação dos pais e responsáveis, a alegria dos alunos, os eventos que encantam a todos.
 
A jornada é árdua mas tem suas compensações. O Conhecer foi reconhecido pelo Ministério da Educação como escola criativa e inovadora na educação básica, e tem como um dos seus patronos e amigo o educador José Pacheco, de quem igualmente privamos da amizade, o português que veio ao Brasil mostrar a revolução feita pela Escola da Ponte, em Portugal. Gostou tanto de nossas terras, de nossa gente, que acabou ficando por aqui, e a ele temos muito que agradecer, pois com ele muito aprendemos e nos colocamos em movimento por uma educação transformadora.
 
Em 2019 estivemos todos juntos em Leopoldina, num encontro sobre educação reunindo mais de trezentos educadores de várias cidades da região. Verdadeira festa para os corações. E podia ser diferente? Não, não podia, pois estávamos entrelaçados nos mesmos ideais. Mas que ideais são esses? Os ideais de uma escola sem aula, sem provas, sem notas, sem professores que ensinam. E isso é uma escola? Sim, uma escola
inovadora, uma escola diferente que faz a diferença.
 
No Conhecer os alunos formam grupos de estudo e pesquisa e trabalham por projetos. As professoras são orientadoras e facilitadoras do processo ensino aprendizagem. A avaliação é feita em rodas de conversa. O cotidiano é debatido em assembleias. Todos participam da escola em grupos de responsabilidade. Os pais e responsáveis são convidados a participar das atividades. Atividades externas envolvendo a comunidade são realizadas periodicamente. É, de fato, uma escola diferente e que dá certo, propondo um novo caminho para a educação brasileira.
 
Voltando ao Tonheca e Cida, queridos amigos, é muito gratificante quando vejo seus olhos brilharem, e quando, apesar dos percalços, muitos, eles continuam em frente. Sacodem a poeira dos ombros, respiram fundo e dão continuidade ao trabalho. Não digo que sejam heróis, mas digo que têm muito amor pelo que fazem, pelo projeto educacional que idealizaram e concretizaram.
 
Agora em tempos de distanciamento social, estamos nos comunicando pela internet, aguardando a volta às aulas. O Conhecer está fechado, mas é momentâneo. Não há vírus que possa fazer frente ao que hoje aponta o futuro da escola brasileira.
 
Não sei quantas vezes ainda pegarei a estrada para estar em Leopoldina, mas isso pouco importa, o importante é continuar a dizer e mostrar que quando rompemos com os grilhões que nos prendem ao tradicional, tudo fica muito, muito melhor.
 
(*) Escrito em 20/04/2020

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