14/06/2020 às 10h43min - Atualizada em 14/06/2020 às 10h43min

Júlia Lisboa Pacheco - ‘Dona Julinha’

*1/12/1921 - +5/6/2020

Júlia Lisboa Pacheco - ‘Dona Julinha’ ( Álbum de família)
O nome dela era Júlia. Júlia Lisboa Pacheco. Mas a cidade de Leopoldina, a conhecia como Dona Julinha, ou simplesmente Julinha. Desde que a conheci, trinta e três anos atrás, Dona Julinha tinha um sério problema de coluna que a fazia andar muito curvada e torta. Ainda assim, quando era mais nova, caminhava agilmente apesar dos seus passos pequeninos, compatíveis com o seu tamanho. Minto. Compatível com a sua estatura, não com o seu tamanho, porque o tamanho da sua alma era diametralmente oposto ao que se via por fora.

A casa de Dona Julinha não tinha grades, nem muro. A porta da sala ficava permanentemente aberta e, durante todo o dia, os transeuntes que a viam na varanda entravam para tomar um café: "Tem café aí, Julinha?", presenciei várias vezes alguém perguntando e já rumando para a cozinha para ser servir. Era figura conhecida no local. Conhecida e querida. Querida e admirada, não apenas pelo caráter, pela retidão com que ela e o marido, Seu Pedro, meu escolhido único sogro, criaram os três filhos. Mais admirada ainda, pelo que emanava de bom astral, positividade e, acima de tudo, resiliência. Apesar do desconforto e das fortes dores que devia sentir por causa do problema na coluna, caminhando quase que de lado, em três décadas de convivência, eu jamais a vi reclamar de qualquer coisa que fosse. Para ela, sempre estava tudo bem, tudo bom, sempre com um sorriso no rosto, um olhar positivo para a vida e, claro, uns docinhos maravilhosos para oferecer. Dona Julinha foi doceira de mão cheia. Os doces de leite e coco simulando nozes, o tradicional doce leopoldinense chapéu de Napoleão e os casadinhos eram os meus preferidos.

Dona Julinha foi a única sogra que tive na vida. Não que não tivesse tido uma ou outra antes ou depois, mas ela sempre foi e sempre será a única, até porque, era - e sempre será - a avó do meu filho. Me recebia na casa dela com toda a gentileza e cordialidade, com alegria e hospitalidade. E dizia: 'aqui você está em casa', e eu via que não dizia aquilo da boca para fora. Sabendo que eu era enjoada para comer, sempre que me recebia, quando ainda podia cozinhar, se preocupava em fazer algum prato diferente, quando imaginava que eu pudesse não querer comer o frango com quiabo, por exemplo. "Fiz esse prato para você, Malu, porque eu sei que você não come frango com quiabo”, dizia.

Desde que vim morar em São Paulo, passamos a nos ver muito pouco, porque a distância ficou muito maior, 11h de viagem de carro até à pequena e acolhedora Leopoldina, onde sempre gostei de voltar, pela família que lá eu tinha como se minha fosse, pelos amigos que conquistei, pelas delícias do Periquito, um bar simples e especial, com a melhor comida mineira do sistema solar, com as conversas na varanda com ela...

Com toda a distância, todo mês de dezembro eu rumava para lá, para a festa do seu aniversário. Ela adorava festas, reunir amigos, a família...Estivemos juntas, pela última vez, em dezembro passado...Ela já mais debilitada, mas ainda lúcida. Que sorte a minha não ter tido preguiça de dirigir tantas horas para poder estar com ela nesse que seria o seu último aniversário! Falamos pelo Facetime na semana passada...o olhar já distante, poucas palavras...ali senti que...

Há poucos minutos soube que Dona Julinha, a minha sogra preferida, a avó do meu filho, a mulher que me recebia na casa dela com tanta delicadeza, fechou os olhos para dormir o sono eterno, descansar das mazelas que já se somavam, no auge dos seus 98 anos de vida. E que vida! Que exemplo de dignidade, de fé, de alegria, de bom astral! Convivi com ela por todo esse tempo sem jamais tê-la ouvido proferir qualquer insulto, qualquer ofensa a quem quer que fosse, sem se maldizer, sem reclamar de nada, nada! Eu dizia para o meu filho: “Mire-se sempre no exemplo da sua avó. Ela é a pessoa mais de bem com a vida que eu conheço!". E era.

Dona Julinha foi ao encontro dos seus, do descanso, da paz. Só posso imaginá-la agora numa nuvem fofinha como algodão-doce, toda de branco e com um sorriso largo iluminando a face ao adentrar o céu. Será bem-vinda e acolhida, por certo. Por merecimento. E para a sorte de quem puder desfrutar de sua presença espiritual. Vão ser dias de muita prosa, de reencontros, de alegria, porque a tristeza se sentiria inibida de se avizinhar dela.

Lamento pelos filhos, pelos netos... e por mim, que fico cada dia mais pobre das pessoas que amo e que partem para o andar de cima. É da vida, eu sei. O que eu nunca pensei que poderia ocorrer, no entanto, é o que me angustia, agora: com a doença se esgueirando lá fora, em pleno isolamento e pandemia, eu não vou poder ir dar o meu 'até algum dia' à Dona Julinha, a minha única - porque eu escolhi assim considerá-la - a minha única sogra. E que sogra! E que sorte, a minha!

Descanse em paz, Dona Julinha! Obrigada pelo prazer do convívio e pela enorme oportunidade de ter podido cruzar o meu caminho com o seu nessa vida.

Até à eternidade!

Receba o meu beijo carinhoso, o meu respeito e a minha incomensurável admiração. Muito obrigada!
 
Malu Molter

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