03/07/2020 às 13h43min - Atualizada em 03/07/2020 às 17h05min

Diário de bordo – Educação=Dedicação=Afeto

Dora Deise Stephan (*)
Na foto o diretor da Escola Estadual Doutor Pompílio Guimarães, João Paulo Araújo, a professora de Artes Maria Aparecida Furtado, a Cida, o "Colé" e Dora Stephan, professora da UEMG - Unidade Leopoldina.
Há muitos anos, num dos bailes da vida com a Orquestra Tabajara, depois de muito dançar, resolvi assentar e apreciar os músicos daquela que é uma das maiores orquestras brasileiras, na época ainda sob a regência do Maestro Severino Araújo. Observei, particularmente, um músico que tocava um instrumento que se não me falha a memória – já comprometida com alguns anos de vida bem vivida – era uma tumba. Ele tocava magistralmente. E seus olhos brilhavam de emoção, de alegria. Aí fiquei olhando aquela cena e pensando o quanto ser músico devia ser bom e o quanto era preciso gostar daquilo que fazia. Tentando resgatar meu pensamento naquele momento, eu dizia para os meus botões que era impossível ser músico sem amor pela profissão.
 
Esse pensamento, no meu entender, se aplica a qualquer profissão, em algumas mais do que a outras. Não vou exemplificar para não depreciar nenhuma delas. A profissão de professor, sem dúvidas, estaria entre aquelas que exige um amor e uma dedicação ímpares. Não gosto de romantizar a profissão de professor porque entendo que, acima de tudo, somos trabalhadores da educação. Assim como outras tantas categorias, vendemos a nossa força de trabalho, seja para um grupo privado, seja para o poder público.
 
Em nosso país sobretudo, somos mal remunerados, submetidos a jornadas diárias exaustivas e desgastantes, más condições de trabalho, enfim,  enfrentamos toda sorte de problemas em sala de aula, desde o desrespeito de alguns alunos que não largam o celular, até o reflexo de problemas sociais gravíssimos que adentram as salas de aulas e com os quais nem sempre estamos preparados para lidar. Utilizando uma expressão popular, matamos um leão por dia. E, muitas vezes, não conseguimos digeri-lo e, por isso, dormimos mal – ou nem dormimos – graças à indigestão. Qualquer professor, com um mínimo de sensibilidade, comove-se com as histórias de vidas de seus alunos. Se não, melhor mudar de profissão.
 
A despeito de nosso cotidiano escolar, quase sempre somos recompensados com histórias exitosas. Ou, simplesmente, com sorrisos estampados nos rostos de nossos alunos. Foi o que constatei ao acompanhar, como “intrusa” de uma jornada do Diretor e de Professores  da Escola Estadual Doutor Pompílio Guimarães,  do distrito leopoldinense de Piacatuba – não sem razão Terra de Gente de Bom Coração. Em uma kombi escolar dirigida pelo “Colé”, responsável pelo transporte dos alunos que moram na área rural daquela localidade, partimos numa manhã de sexta-feira  com a missão de  entregar aos alunos que lá residem as apostilas dos  Planos de Estudo Tutorados (PETs),  material didático parte do Regime de Estudo Não Presencial. Não entrarei no mérito de tais recursos didáticos e não tecerei comentários sobre o tal regime, até porque é “o que temos para hoje” e é  preciso esperar para ver os resultados dos mesmos.
 
Tinha tudo para ser um dia comum. Mas definitivamente não foi. A dedicação e o carinho do diretor da referida escola, João Paulo Araújo, e das professoras Ana Cristina Fajardo (Português) e Maria Aparecida Furtado (Artes) tornaram aquele dia especial. O que presenciei ali, por aquelas tortuosas estradas que nos levavam às casas de alunos que não têm acesso à Internet, foi, acima de tudo, um exemplo de quanto a nossa profissão imprescinde de dedicação – e de amor. O trabalho da equipe não se restringiu a simplesmente recolher o primeiro módulo do PET e entregar o segundo.
 
Como o próprio João Paulo disse, é preciso manter o vínculo dos alunos com a escola. Para o professor de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Renato Janine Ribeiro, ensinar não se restringe ao conteúdo, é um ato de socialização principalmente. A dimensão afetiva precisa ser contemplada, enfatiza o ex-ministro da Educação do governo Dilma Roussef (PT).  E de cuidar da dimensão afetiva, a equipe da Escola Estadual Doutor Pompílio Guimarães entende muito bem. Numa das casas que visitamos, estava escrito em um adorno sobre a mesa do delicioso lanche que nos foi servido a seguinte frase: “Não há caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho”, de Mahatma Gandhi. parafraseando o grande líder espiritual: “Não há caminho para a Educação. A Educação é o caminho”.




(*) Dora Deise Stephan– Jornalista e Professora da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG)/Unidade Leopoldina.

 
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