03/08/2020 às 14h58min - Atualizada em 03/08/2020 às 14h58min

O fechamento da “Fábrica”

Luciano Baía Meneghite
Álbum de Família de Marluce Sodré 1980/Foto da Fábrica 1958-Biblioteca do IBGE
Há algum tempo chegou em minhas mãos por intermédio de Marlene Sodré uma carta datada de 20 de março de 1972 endereçada ao seu pai, José Dário Sodré pelo irmão Rubens Sodré.  Irmãos de minha avó paterna Maria Nazareth.

Além da parte inicial em que são tratados temas familiares de forma bem humorada a carta em determinado trecho acaba sendo um interessante registro da Leopoldina de então e de épocas anteriores.

A antiga Fábrica de Tecidos, que chegou a ter mais de 1.800 funcionários, sendo a maior empregadora do município entrava em falência.  O tipógrafo e telegrafista Rubens Sodré, então residindo em Santa Bárbara lamenta a situação com o irmão “Zezé”,  fundador do Sindicato Têxtil e àquela altura afastado do mesmo por perseguição política. Ele relembra saudoso fatos e personagens pitorescos da Leopoldina das décadas de 1940,50,60.  Vale a pena ler:

“A notícia que, verdadeiramente, me desagradou, fazendo com que despontasse no canto dos olhos uma furtiva lágrima, que fui impotente para retê-la, foi o fechamento da “Cia Fiação e Tecidos Leopoldinense”. Não acreditei no que lia. Mas lá estavam, frias e contundentes, as letras reveladoras do fato ominoso.

Em menino, palmilhei centenas de vêzes as ruas adjacentes à fábrica:- as que dão para a Praça da Bandeira e as que atingem – à avenida Getúlio Vargas. Em várias ocasiões, pude ver os operários saírem cansados após uma pesada jornada, como os vi chegarem para o cumprimento de mais uma etapa do serviço. – Quem sabe Deus – remoendo problemas os maiores e os mais inimagináveis, presos, todos, a um minguado e sofrido salário, que mal dava para fugir da fome negra e ameaçadora. Apesar disso, era a fábrica amada e respeitada por todos, pois constituía-se no principal mercado de emprego de Leopoldina, chegando mesmo a crescer quando a cidade aumentava os seus domínios.

Quantos sonhos, esperanças e ilusões, não foram alimentados em suas salas de trabalho? Quantos flertes, namôros e casamentos não estão gravados em suas paredes frias e nos silenciosos teares?

Quantas decepções, também, não guardam os seus corredores, os muitos operários que tiveram de comparecer ao ESCRITÓRIO DO SO ISAURO BRETTAS, para apanhar “as contas”, despedidos que eram por ciúmes, futricas e candongas?

Quantos nomes feios não andam girando pelos ares da fábrica, como represarias às muitas injustiças e opressões sofridas pelos desencantados operários?

E quantos sonhos de dias melhores e de mais dinheiro no envelope do fim do mês?

Ah! Fábrica da minha meninice!

Quem te viu e quem te vê!

Naqueles tempos, (e quanto tempo faz!), o incômodo toc-toc dos tamancos pelas calçadas e passeios, prejudicando o restinho de sono dos madrugadores, incorrigíveis boêmios das noites frias e de infectos botequins.

E lá se iam todos, numa correria infernal, sempre seguidos do toc-toc dos tamancos, indiferentes ainda aos retardatários transeuntes cruzados ao acaso pelos caminhos, preocupados que estavam em marcar o cartão antes do último apito.

Quem não se recorda daquele hábito do Miguel Lúcio de Brito, de comprar doce de leite no botequim do Sô Heitor Vitoi e presentar às moças? Lá vinha o Miguel, fechando e abrindo os olhos, cuspindo perdigôto em todas as direções e gaguejando como nunca, falando coisas que a gente não entendia. E quando aparecia u’a moça, êle retirava do bolsinho da camisa um doce todo embrulhado e o entregava à mesma. Era sua maneira de ser agradável e de se comunicar com as “meninas”. E, se nós, os marmanjos, lhe pedíssemos um docinho, vinha firme a resposta do Miguel: “Homi não”, seguida de uma risada histérica, desconexa e arrastada.

Miguel representava um imutável quadro de parede, com sua presença marcante, como marcante foi sem dúvida, a figura do Sr. Heitor Vitoi, do botequim, testa ampla e rosto rosado, sempre a sorrir, com seu caderninho de anotações do fiado, no qual o Miguel deixava todo ou quase todo o seu pagamento transformado em doces. Raras devem ter sido as contas que o Sô. Heitor não recebeu. Quase ninguém o fintava. Que o diga o Expedito Ti RISQUEI, herdeiro de sua freguesia, assim que Sô Heitor fechou as portas de seu conceituado estabelecimento, após merecida aposentadoria. Expedito TI RISQUEI também marcou espetacular presença junto aos operários da fábrica, mercê de sua educação e lhanhêza  de trato, o que a todos cativa, indubitavelmente. Ele, Expedito, é um excelente caráter.

A verdade é que, mesmo modestamente, muitos construíram sua vida em torno da fábrica. Uns, lá entraram e saíram sem esquentar o lugar. Outros, lá se encontram até hoje, identificados com sua argamassa e com a dureza de sua concretagem, exibindo aquelas bolinhas de algodão, presentemente parte integrante dos próprios cabelos, por mais escovados que o sejam, significando as mechas brancas resplandecentes tufos de pratas, adquiridos anos após anos de lutas e sacrifícios, eis que os cabelos prêtos há muito caíram e andam pelo chão das salas e dos corredores da fábrica, pisados pelas dificuldades e problemas de seus legítimos donos.

Dos que não esquentaram o lugar na fábrica, eu me lembro do nosso mano Quinzinho, que meteu uma espula (Tubo em que é enrolado o fio no tear) na cabeça de Dona Julieta, moradora como nós da Vila Miralda e, por isso, foi mandado embora, com bilhete azul.

Uma das coisas mais interessantes que eu me lembro, e que que deve ter acontecido na maioria das casas dos operários da fábrica, era o fato de nossos irmãos mais velhos chegarem com o pagamento e a gente ficar por perto, rodeando, até ganhar aqueles trocadinhos que vinham no fundo do envelope. Era a nossa maior alegria. De posse do trocadinho, a gente corria ao botequim mais próximo a comprar doces e balas. Nossa felicidade era aquilo e só: os trocadinhos do fundo dos envelopes de nossos irmãos mais velhos.

E os namoros no Parque Félix Martins, de onde muitos casais tiveram por fim o altar das Igrejas Matriz, Rosário e, por último, o da do Bairro da Fábrica? As moças-operárias saíam de casa mais cedo para poderem namorar pelo jardim. Havia um casal junto de cada árvore e ao soar o penúltimo apito, as despedidas de sempre e a marcação de um novo encontro. E os namoros impossíveis entre moças pobres e rapazes de famílias mais abastadas? Eram dramas e mais dramas, problemas e mais problemas, mas tão comuns como de qualquer outra cidade interiorana. E o amor vencia sempre.

Até o Floriano, aquêle paspalho, se “ajeitava” todo e ficava interceptando as moças, ora conversando com uma, ora com outra, na cisma de que elas estavam gostando mesmo dele. Exibia retratos delas para gente que por ali passava. Quem não se lembra do Floriano paquerador?

Chego a imaginar que é puro sonho o que eu li na sua carta: O fechamento da fábrica e que tudo está com dantes, em seus devidos lugares. Não é possível que isso tenho ocorrido. Mas, se aconteceu verdadeiramente, não deixe que lhe queime os despojos, não permita que falem mal dela.

E, hoje, que toda uma história de suor e de lágrimas é jogada por terra, separe a fábrica, preserve-lhe a dignidade, permitindo que ela se exaure com altivez. Todavia, se algum impropério for atirado às faces descoradas ou despudoradas de determinado diretor, não lhe poupe vitupérios, por mais chocantes que possam parecer, que não há perdão para a incúria de maus administradores ou para a incapacidade administrativa. Não sei e nem pretendo saber se assim o foi, se por incúria ou por peculato. Não sei. Mas, se minha suspeita se se positivasse, e eu viesse a sabê-lo, isso só viria acentuar ainda mais o ódio que sinto dos que têm tudo às mãos e deixam evaporar como que por encanto. O que sei é que muitos pançudos devem ter comido gordo e explorado a fábrica.

E o que suponho é que meia dúzia de apaniguados, de diretores de meia-tigela, puseram a perder 834 operários que, por sua vez, devem sustentar mais algumas bocas com um misero salário. E agora, sem êle?

Não sei o que houve, nem talvez os fatos cheguem ao conhecimento dos operários refletindo sua verdadeira imagem, com o realce dos reais motivos que forçaram o fechamento da fábrica. Uma coisa, porém, fica como lição: - a vida nababa de meia dúzia de diretores que não tiveram o menor respeito pelo futuro de 834 operários, administrando mal os seus negócios. Uma pena. Uma lástima.

Hoje, quem percorrer suas salas de trabalho e deparar-se com teares vazios e emudecidos, vai sentir vontade de chorar e vai ter desejo de ligar a chave da força e pôr todas as máquinas em movimento e, em seguida, sair gritando, fábrica a dentro: - “A fábrica tá funcionando... a fábrica tá funcionando... venham todos... voltem ao trabalho...”

Tomara que isso ocorra. Eu torço para que aconteça o melhor. Que o grupo de americanos adquira mesmo a fábrica, para satisfação de todos. Quando falta vergonha aqui, quando a honestidade é rara, bom mesmo é buscar dinheiro lá fora.

Bom mano, acho que desentalei. Falei o que devia e o que não era da minha conta. Desculpe-me, mas era preciso falar. Embora muita coisa dita pertença mais à classe da estória da fábrica...”


 A carta segue com despedidas. 

(Pouco depois a antiga Companhia de Fiação e Tecelagem Leopoldinense foi  arrendada para a Intertex, funcionado por curto período. O enorme prédio ficou anos fechado. Na década de 90 instalou-se no local a Calfat que pouco depois também fechou. Durante o segundo governo Márcio Freire foi criado o CEDEL - Centro para o Desenvolvimento de Leopoldina, com a instalação de algumas empresas no local, sendo a maior parte ocupada pela APA Confecções.)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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