07/09/2014 às 21h29min - Atualizada em 07/09/2014 às 21h29min

A hipocrisia das denúncias políticas e a blindagem dos grandes grupos

Luis Nassif
GGN

Algumas considerações sobre a delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa.

Costa traz indícios daquele que provavelmente é o mais amplo caso de corrupção política sistêmica do país. A desenvoltura com que atuou na Petrobras comprova que dispunha de uma carta em branco. Há pelo menos seis anos rumores sobre sua atuação corriam mercado. É evidente tratar-se de uma peça da real politik de governo.
 
A data escolhida para a divulgação - 7 de setembro, aliás mesma data da eclosão do escândalo Erenice - e as informações divulgadas até agora sugerem muito mais uma chantagem, com elementos políticos, do que elementos concretos para condenar os acusados: políticos e empresas. Uma denúncia exige dados concretos, datas, documentos, comprovação de pagamentos. Costa traz relatos. É como se avisasse: se me deixarem na mão apresento as provas. Ou então é possível que Veja tenha feito um cozidão atribuindo-o a Costa.
 
A denuncia significará um corte no atual modo de fazer política? Evidente que não, porque dificilmente os subornadores serão punidos. E porque uma apuração ampla dos desvios políticos não poupará nenhum partido.
Além disso, até hoje nenhuma investigação envolvendo grandes grupos prosperou na Justiça. 
 
O "mensalão" só foi adiante depois que o Procurador Geral da República inicial, Antonio Fernando de Souza, o sucessor Roberto Gurgel e o relator Joaquim Barbosa tiraram o Opportunity da jogada
 
A Satiagraha parou assim como a operação da Polícia Federal que levantou subornos da Camargo Correia - apanhando com a boca na botija o então chefe da Casa Civil do governo Alckmin Arnaldo Madeira (que a campanha de Aécio cometeu a imprudência de colocar na coordenação paulista). Nos dois casos, alegou-se escutas ilegais, álibis formais para justificar a blindagem desses grupos. 
 
O próprio episódio do buraco do Metrô resultou em um acordo nebuloso entre o governo José Serra, o MInistério Público Estadual e as empresas, pelo qual as diretorias foram poupadas e as empresas tiveram a liberdade de indicar um funcionário para o cadafalso.
 
Em ambos os casos, os grupos de mídia não manifestaram indignação. O que comprova que denúncias e indignação são armas políticas ou de chantagem, não instrumentos de melhoria institucional.
 
Não há velha e nova política.
 
Há a mesma política velha atingindo todos os grupos. O envolvimento direto do ex-governador Eduardo Campos com o esquema Costa tira a aura de pureza da candidatura Marina. Não fosse o envolvimento direto de grandes grupos econômicos blindados na Justiça, o episódio Paulo Roberto Costa seria mais agudo que o "mensalão".
 
O PSDB tem os escândalos do Metrô.
 
Mais uma vez, o episódio será utilizado como elemento político de lado a lado. Mas a mãe de todos os crimes - o financiamento privado de campanha - continuará graças a atuação do ínclito Ministro Gilmar Mendes.
 

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