27/12/2020 às 13h21min - Atualizada em 27/12/2020 às 13h21min

Jesus Cristo preto, judeu e palestino.

Por Yussef Daibert Salomão de Campos (*)
Yussef Daibert Salomão de Campos (Foto Divulgação)
Mais de dois mil anos de um personagem que rege, direta ou indiretamente, a vida de metade da população mundial, no mínimo. Seja por admirá-lo, seja por renegá-lo, sua presença é inexorável. Além de judeu e habitante da região que aprendemos a reconhecer como Palestina (mesmo com a invasão do Estado Israelense), Jesus deve ter sido, segundo cientistas, como o especialista forense em reconstruções faciais britânico Richard Neave, semelhante "aos judeus iraquianos de hoje em dia. Assim, acredito que ele tinha cabelos de castanho-escuros a pretos, olhos castanhos, pele morena. Um homem típico do Oriente Médio".

Se utilizarmos marcadores sociais de diferença ou paradigmas identitários, como nacionalidade, religião e raça, tão presentes em estudos das Ciências Sociais e Humanas hodiernos, longe estará aquela imagem de um homem loiro, de olhos claros, germânico ou nórdico, cujos estereótipos eurocêntricos imprimiram no Brasil não só a religião católica, mas o Jesus europeu.

Sob o intenso sol do Oriente Médio, "moreno" seria uma forma a mais de evitar falar da cor preta de Cristo, já que se deve considerar "a tez de pessoas daquela região e, principalmente, analisando a fisionomia de homens do deserto", como proferiu o designer gráfico brasileiro Cícero Moraes, especialista em reconstituição facial forense.

A Idade Média, o Império Bizantino e o Renascimento foram indispensáveis para erigir esse estereótipo branco de Jesus. Para o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), "ao longo da história, as representações artísticas de Jesus e de sua face raras vezes se preocuparam em apresentar o ser humano concreto que habitou a Palestina no início da era cristã", variando de "uma figura doce em muitas imagens barrocas ou um Cristo sofrido e martirizado como nas obras de Caravaggio ou Goya".

Como uma população - a exemplo da brasileira - na qual mais da metade se reconhece como preta ou parda, e 86% se declaram cristãos, entre católicos, evangélicos tradicionais, pentecostais e neopentecostais, espíritas, segundo dados do último censo do IBGE, se vê representada em sua religião?

Além do racismo contra as religiões de matrizes africanas, o racismo está presente também na continuidade de um Cristo completamente anacrônico e descontextualizado, que atende somente àqueles que veem nessa matriz religiosa meios de dominar, e não só evangelizar, seus adeptos.

Além das inúmeras traduções (hebraico, grego, aramaico, gótico, armênio, copta, etc.) e edições feitas no texto bíblico que, é sempre bom lembrar, não teve uma linha sequer escrita por Jesus, as interpretações literais, principalmente aquelas voltadas ao Antigo Testamento, poriam Jesus Cristo em contraposição ao cristianismo, caso estivesse vivo, em carne, entre nós. A submissão feminina justificada pela criação de Eva a partir da costela de Adão (Gn 2,21-22) é um dentre muitos casos. É diferente, portanto, ser cristão e ser crístico. Com o cuidado de fugir da armadilha anacronista, também o Novo Testamento apresenta representações idealizadas a atender demandas políticas da Igreja Católica, que são inadequadamente mantidas em nossos dias. A virgindade de Maria, a castidade cristã e, claramente, o Jesus europeu e ariano, nos revelam um cristianismo anticrístico.

Onde está o "amai-vos uns aos outros como eu vos amei", presente em vários livros bíblicos, como João, Pedro, Hebreus? Se Jesus nascesse no Brasil, no século XXI, em condições análogas, mutatis mutandis, ao contexto de mais de dois mil anos, seria preto, pobre, morador da periferia. Mas dificilmente chegaria aos 33 anos de idade, pois as milícias cristãs, as políticas e polícias do Estado (que só formalmente é laico), traficantes que atacam religiões de matriz africana ou um cidadão de bem, que porta sua arma por autorização legal recente, colocariam balas de fuzil bem dentro de seu crânio quando estivesse, ainda, em sua infância, dentro de uma escola pública ou brincando de bola nas ruas da favela. Ou seria torturado e executado por discordar da necropolítica e denunciá-la, ao sair de um debate sobre direitos quilombolas, indígenas, femininos, LGBTQIA+.

*Yussef Daibert Salomão de Campos, professor da Universidade Federal de Goiás, autor do livro Palanque e Patíbulo: o patrimônio cultural na Assembleia Nacional Constituinte e articulista do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult)
 
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