08/06/2024 às 08h51min - Atualizada em 08/06/2024 às 08h51min

Zona da Mata vê aumento de temperaturas e agravamento de inundações

Alerta foi feito por especialistas durante encontro regional do Seminário Crise Climática em Juiz de Fora nesta sexta-feira (7).

Assessoria de Imprensa da ALMG
Deputados discutirm os desafios na convivência com a crise climática com especialistas e lideranças locais de Juiz de Fora (Foto: Guilherme Bergamini)

As temperaturas vêm aumentando em todo o planeta e, na Zona da Mata, a situação não é diferente. Nos últimos anos, a média das temperaturas máximas em Juiz de Fora aumentou em 1,3º C, enquanto a média das temperaturas mínimas subiu 1,7º C.

O alerta foi feito por especialistas durante o encontro regional do Seminário Crise Climática em Minas Gerais: Desafios na Convivência com a Seca e a Chuva Extrema, realizado em Juiz de Fora nesta sexta-feira (7/6/24). Ao longo de todo o dia, deputados, pesquisadores e autoridades locais discutiram os desafios na convivência com os fenômenos climáticos extremos.

Conforme lembrou a professora Cássia de Castro Martins Ferreira, do Laboratório de Climatologia da UFJF, a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento são as principais razões para o aumento das temperaturas médias globais, que tem reflexos diferentes nas diversas regiões do mundo.

No sudeste da América do Sul, como explicou a professora, as mudanças esperadas com o aquecimento global são o aumento das temperaturas, com chuvas mais extremas e incremento das precipitações em algumas regiões.

Para a Zona da Mata, essa situação é ainda mais preocupante, porque as chuvas não são distribuídas da maneira uniforme ao longo do ano. Historicamente, o período chuvoso se concentra nos meses de primavera e verão, que respondem por 88% das precipitações anuais. Como a mudança climática tem levado ao aumento da estiagem e à redução do período chuvoso, significa que as chuvas ficarão ainda mais concentradas em um curto intervalo de tempo, o que pode aumentar o risco de enchentes.

É possível visualizar o agravamento desse problema em Ubá. A série histórica de ocorrência de inundações registra apenas um evento desse tipo na década de 1991 a 2000. Esse número subiu para quatro entre 2001 e 2010 e passou para sete entre 2011 e 2020.

Mas o aumento dos fenômenos climáticas extremos se dá em toda a Zona da Mata, como lembrou a professora Flávia Chein, do Departamento de Economia da UFJF. Ela apresentou números do Atlas de Desastres Naturais do Banco Mundial, segundo os quais 95% dos municípios da região foram atingidos por algum fenômeno desse tipo entre 1991 e 2022.

Os registros desses eventos se intensificaram após 2019, e os danos e prejuízos causados representam mais de 3% do PIB regional. Por isso, na avaliação da professora, é preciso tomar providências urgentes. “Não temos muito tempo para pensar a melhor estratégia de atuação. Temos que agir para ontem, e não para amanhã”, afirmou.

Na avaliação do professor Nathan Oliveira Barros, é preciso mudar a forma como o ser humano interage com o planeta. “Não dá mais para usar os recursos hídricos como usamos. Precisamos questionar aquilo que consumimos, não só o preço, mas também o quanto determinado produto é prejudicial para o clima. E precisamos trazer esse debate para a política; que essa causa não seja uma bandeira de esquerda ou de direita”, defendeu.

Região tem exemplos de boas práticas para convivência com clima extremo

Para conviver com as mudanças climáticas, existem iniciativas bem sucedidas na Zona da Mata. Um exemplo é o processo de mapeamento de áreas de risco da Defesa Civil de Juiz de Fora. Utilizando softwares livres e cruzamentos de dados, a instituição desenvolveu uma metodologia própria para monitorar áreas de risco geológico e hidrológico, com grande economia de recursos públicos.

Com as informações levantadas, é elaborado um plano de contingência, que integra todas as secretarias municipais e tem o objetivo de oferecer uma resposta rápida às situações de emergência em casos de chuvas torrenciais.

A Prefeitura de Cajuri, em parceria com a Emater-MG, desenvolveu o projeto Infiltrando Água no Solo, para reduzir o risco de enchentes e amenizar o problema do assoreamento dos rios. Para isso, são desenvolvidas ações de recuperação de pastagens, de fomento ao plantio direto e de manejo conservacionista na agricultura.

A Embrapa Gado de Leite, sediada em Juiz de Fora, desenvolve pesquisas para recuperação de solos degradados pela pecuária. O manejo adequado das pastagens tem o objetivo de minimizar os riscos relacionados aos fenômenos climáticos adversos.

A Associação Municipal dos Catadores de Papel, Papelão e Materiais Reaproveitáveis de Juiz de Fora também dá o seu exemplo de trabalho sustentável. A atuação dos catadores, ao destinar os resíduos sólidos para reciclagem, contribui para a mitigação da emissão de gases do efeito estufa.

Deputados destacam necessidade de se enfrentar a crise climática

O presidente da ALMG, deputado Tadeu Martins Leite (MDB), ressaltou que o objetivo da ALMG com o seminário técnico é elaborar um grande diagnóstico da situação climática do Estado, para subsidiar a elaboração de leis e aprimorar a fiscalização de políticas públicas estaduais e federais. “A crise climática é o principal problema do Brasil e do mundo. Estamos sob alerta; por isso a urgência deste seminário”, afirmou.

A deputada Delegada Sheila (PL) chamou a atenção para a necessidade de se combater os crimes ambientais. “Quando isso não é feito porque não temos estrutura suficiente para concluir uma investigação para que a justiça seja feita, não só o meio ambiente é degradado, mas também se acelera a mudança climática, porque aumenta a emissão de gases de efeito estufa”, explicou.

Por sua vez, o deputado Charles Santos (Republicanos) defendeu que a responsabilidade pela proteção do meio ambiente é de todos: cidadãos, governantes, legisladores e Poder Judiciário. “O desafio é nos unirmos, para buscar os melhores caminhos”, disse.

Para a deputada Beatriz Cerqueira (PT), é preciso entender que a crise climática foi socialmente construída. “A culpa não é da chuva nem do sol, na medida em que os grandes empreendimentos avançam sobre os territórios, comprometendo o uso do solo e da água”, afirmou. Ela ainda lembrou que as tragédias climáticas não afetam toda a população da mesma forma, pois seus efeitos são diferenciados conforme o gênero, a raça e a classe social das pessoas atingidas.

Já o deputado Coronel Henrique (PL) argumentou que os produtores rurais não podem ser responsabilizados como os principais responsáveis pela crise climática. “A ninguém interessa mais o equilíbrio ambiental do que ao produtor rural, porque ele vive do solo e da chuva”, argumentou. Para o parlamentar, o maior desafio é conciliar a geração de emprego, renda e desenvolvimento com o meio ambiente equilibrado.


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