08/12/2014 às 09h06min - Atualizada em 08/12/2014 às 09h06min

Negros (em) números, por Daniel Afonso da Silva

Daniel Afonso da Silva
Jornal GGN

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, IPEA, em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, SEPPIR, vem de lançar o livro Situação da população negra por estado.

Fundado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, PNAD, de 2001 a 2012, seu objetivo é retratar a “evolução” da situação dos negros na sociedade brasileira neste início de século 21.

Organizado em quatro vastas direções – características familiares (renda, composição da família e adequação de moradia), escolaridade, trabalho (e renda) e seguridade social –, ele vem ajudar repisar o chão deveras repisado da questão racial à brasileira.

Suas conclusões reforçam o saber sabido que merece ser sempre dito: os negros continuam estruturalmente em situação deploravelmente desfavorável em comparação aos não-negros.

As ações sociais dos governos FHC-Lula-Dilma melhoraram decididamente a situação dos pobres e miseráveis entre nós. Como essas categorias possuem, essencialmente, cor – e cor negra –, os negros foram diretamente beneficiados, embora não-negros também tenham sido.

Os programas setoriais, essencialmente dos governos Lula-Dilma, de amparo às comunidades quilombolas e as tradicionais de matriz africana vêm tendo, aí sim, impacto exclusivo sobre os negros. E, com isso, vêm promovendo inequívoca, e talvez a única e efetiva, reparação histórica possível, mesmo que tímida e sutil.

O ProUni, das mais controversas ações de afirmação, como uma ação social e por essa razão, impacta substantivamente também sobre a população negra.

Sob quaisquer aspectos, no Brasil de hoje os negros vivemos notoriamente melhor que no Brasil de ontem ou anteontem.

A autoestima negra vem aumentando à medida que se multiplica positivamente a sua inserção na sociedade de classes. Quanto mais aumenta a civilidade da sociedade com relação aos cerca de 60% cidadãos autodeclarados de tez escura vão se abrindo possibilidades de ampliação da dignidade de todos nós.

É vergonhoso que os menos prestigiados entre nós tenham cor. É improcedente que as penitenciárias tenham cor. É um vexame que os desempregados, analfabetos, sem-teto, sem-universidade, sem-leite, sem-gás, pais adolescentes, em geral, tenham cor.

Segundo alguns dos dados disponíveis no livro em questão, em 2001, das famílias que sobreviviam com até 25% de um salário mínimo como renda per capita, em escala de 0 a 50, 38,1% eram negras contra 17,3% brancas. Em 2012, esses parâmetros foram para 14,7% contra 6,2%.

No outro extremo, em 2001, das famílias que viviam com mais de 3 salários mínimos per capita, 1,8%, sempre na escala de 0 a 50, eram negras contra 9,6% brancas. Em 2012, a proporção passou a 4% contra 13,8%.

Mesmo com o indisfarçável elogio à negritude, à periferia e aos cultos afro-brasileiros, “a bala não é de festim”, como diria Mano Brown.

A Situação da população negra por estado vem simplesmente melhor endossar essas constatações. A quantidade e a qualidade de seus números, tabelas e gráficos são um convite à reflexão. Reflexão que precisa ser de todos nós.

A quem quiser possa, o livro está disponível em http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=24121 e/ou http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livros/livro_situacao-social-populacao-negra.pdf .

Daniel Afonso da Silva é professor na Universidade Estadual da Paraíba.


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