21/01/2015 às 17h15min - Atualizada em 21/01/2015 às 22h05min

Uma visita a Frans Krajcberg

Glória Barroso

Minha prima, Maria do Carmo Azevedo, que tinha pesquisado o telefone dele para satisfazer minha grande vontade de ir vê-lo - e à sua obra -, passa-me o aparelho; com a voz emocionada, apresento-me num só jato: “Sou de Minas e quero demais ser recebida por você, mas gostaria de saber se é possível, porque vamos só para isso”. “Venha na semana que vem porque nesta estou muito ocupado.” Desliguei meio que sonhando e num impulso irresistível pegamos a estrada, eu e Maria do Carmo, rumo à aventura de conhecer o universo sagrado de Frans Krajcberg.

Como tínhamos tempo, fomos atravessando o Espírito Santo até chegar à Nova Viçosa, no sul da Bahia. Chegamos ao Reino Encantado: Natura, o nome dado ao sítio onde o artista vive e trabalha – duro - na construção de sua obra. Monumental, visceral, ligado à natureza, a terra.

Admiração, emoção, respeito.

Por sua obra. Os troncos queimados, galhos que se lançam, se enroscam, que gritam na agonia da vida violada.

Por sua integridade. O que se sente ao penetrar no mundo de Frans Krajcberg! Para um verdadeiro artista sua obra e sua vida são uma coisa só - seu mundo interior se traduz de uma forma única, intransferível, pessoal, readaptando a técnica ou reinventando-a. Com Krajcberg essa fusão é total. Sua arte é a expressão de suas crenças, seus valores, sua vida, sua generosa vida. Uma homenagem à natureza que reverencia, um grito de revolta contra a ação do homem que a destrói. Ele luta, há 40 anos em Nova Viçosa, sul da Bahia, denunciando as queimadas, a ação predatória dos homens, o descaso pelas leis da natureza, o lucro imediato que não leva em conta a resposta da terra agredida - manifesta nos tsunamis, tempestades, secas, verões ardentes e nevascas -, seu apelo, seu lamento, sua linguagem selvagem e sofrida.

"O Brasil, cuja maior riqueza é a natureza, está próximo de se tornar um país de caatingas e cerrados, com exceção de alguns parques e monumentos ecológicos. Estamos próximos do completo esgotamento dos nossos recursos naturais." Ao ver no Paraná, as queimadas: “Meu primeiro pensamento foi: A guerra continua”. Havia dias em que era tanta fumaça que não se conseguia ver a luz do sol. O cenário, aquela terra arrasada pela destruição, era o mesmo dos campos de batalha. E me perguntava que ser terrível era o homem, capaz de fazer aquilo. A arte foi a maneira que encontrei para reagir.”

E ele cria; erguendo com suas mãos amorosas os velhos troncos derrubados - trabalho pesado e rude -, dando a eles um renascimento, não do verde que não volta, mas com cinzas, negros e vermelhos, que muitas vezes são acentuados pelas tintas feitas de pigmentos naturais da terra, do carvão. Uma beleza trágica que é a um só tempo harmonia e violência, silêncio e grito.

Krajcberg ergueu sua casa sobre um enorme tronco, em meio a uma mata que replanta e salva de constantes queimadas (e pasmem: talvez todas elas propositais, a considerar as ameaças que tem recebido daqueles que têm seus interesses contrariados por sua defesa da terra; nós mesmos presenciamos uma quando estivemos lá, em uma manhã iluminada pelo sol e por sua energia criadora), onde mora sozinho, entre árvores e o mar, dedicando-se à sua obra - esculturas, pinturas, fotografia - denunciando por meio delas os crimes praticados – com seu olhar de artista que, na sua solidão, está mais irmanado com a humanidade do que muitos e muitos que se cercam o tempo todo de família, amigos, colegas.

Nascido na Polônia, em 1921, sentiu na pele e na alma a violência, a crueldade, a discriminação por ter sangue judeu; o sofrimento de ver sua família dizimada pelos nazistas nos campos de concentração, os ferimentos adquiridos na 2ª Guerra Mundial; o aviltamento, a fome, seu país humilhado e roubado da liberdade pela arrogância, frieza com que os donos da verdade do momento – arrogando-se o direito de agir de acordo com sua crença em uma raça superior - tratavam os mais desarmados.

Tendo estudado Engenharia e Belas Artes na Rússia, mudou-se para França, onde mantém ateliê até hoje, e, graças a uma passagem paga pelo também grande artista, o russo Chagall, ele imigra para o Brasil, em 1948, naturalizando-se brasileiro. “O Brasil me ensinou a alegria”. O Brasil o encanta pelas cores da terra, pela natureza, pela paz.

Depois de passar por dificuldades em São Paulo, Paraná e Rio, chegou a Minas (“ah, as cores da terra em Itabirito!”), onde encontrou o reconhecimento de outros artistas de nossa terra. Hoje, com fama internacional (o seguro de suas obras enviadas para a França, anos atrás, para uma exposição, foi de R$ 2.800.000 reais, conforme informação de um funcionário seu), vive com toda simplicidade, de sandálias, com sua camisa xadrez, seu chapeuzinho (e é assim que se apresenta nas exposições pelo mundo - assim também o vi expondo em galeria do Rio de Janeiro), deslocando-se entre sua casa, seu ateliê e seu escritório na cidade.

(Enquanto isso, na rodoviária de Vitória, uma obra sua, doada pelo próprio artista, desfaz-se em cupins, em flagrante descaso das autoridades, secretarias de cultura e do povo. Denúncia feita pelo jornal Gazeta, de lá).

No momento concretiza seu museu, que tem sete blocos, dois já prontos, erguidos sobre ‘galhos’, ‘troncos’, que neste caso são de cimento simulando madeira, cobertos também de sapé, rodeados de canteiros de cactos e juta, esculturas vivas bem escolhidas, numa convivência familiar com o espírito de seu trabalho. Tivemos o privilégio de circular por entre essas obras, recém-chegadas de Paris, como em um mundo encantado, misterioso, atormentado e belo.

Mas Krajcberg não nasceu para se acomodar e dormir sobre os louros. Viaja por todo o país observando o vandalismo, a ignorância, a luta pela sobrevivência que não se importa com as consequências desde que tenha seu sustento garantido, tira fotos maravilhosas de flores, árvores e das queimadas, denuncia as grandes plantações de eucaliptos que substituíram as velhas árvores seculares tomando grande parte do Espírito Santo, a intenção da Petrobrás de fazer pesquisas de petróleo em sua mata e as bombas utilizadas no seu serviço e que, abandonadas sem explodirem, como no Iraque, já mataram duas crianças incautas, a omissão do povo que não reage em defesa de seu patrimônio. “Cada vez entendo menos este país”.

Mas segue ele na adversidade, denunciando, criando, não deixando abafar sua voz em defesa do planeta e dos homens, fazendo de sua arte um instrumento de salvação, dos troncos queimados uma reverência à vida.

 


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