11/02/2015 às 11h41min - Atualizada em 11/02/2015 às 11h41min

Nova técnica reaproveita lodo da indústria de laticínios

Apoiados pelo Programa de Incentivo a Inovação, pesquisadores descobrem como utilizar resíduo na produção de sabão, biofertilizante e biocombustível.

Sabão feito a partir de efluentes de laticínios.

Pesquisadores da Faculdade de Ciência e Tecnologia de Montes Claros (Facit) desenvolveram uma técnica que transforma lodo da indústria de laticínios em sabão, resina para polimento, biofertilizante e até biocombustível. Com essa nova tecnologia, o soro do leite, que é cem vezes mais poluente que o esgoto doméstico, não contamina a água nem o solo e ainda pode ser reaproveitado.

A legislação ambiental obriga as fábricas de laticínios a instalarem estações de tratamento de efluentes para que o resíduo do leite não seja jogado dire­tamente na rede de esgoto. O material é gerado de vários processos dessas fábricas, como operações de higienização, descartes e descargas, vazamentos e outros tipos de perdas de leite. “Depois dos resíduos passarem pelas estações de tratamento de efluentes, sobra um lodo que se solidifica e que tem alta carga de matéria orgânica. Por isso ele é tão poluen­te”, explica Bruno Magalhães Silva, um dos pesquisadores.

De acordo com ele, o resíduo não pode ser enterrado ou descartado em rios, como ocorre com o esgoto doméstico, pois pode contaminar o solo e os recursos hídricos. O material também não pode ser estocado por muito tempo por causa do cheiro que exala. Em geral as indústrias têm que enviar esse lodo biológico para incineração. “Como é um material com muita água, faz com que o processo se torne demorado e caro, pela alta demanda de energia”, afirma Bruno.

Pensando em solucionar o problema, Bruno e os pesquisadores da Facit, Gilzeane Santos Sant’Ana Prazeres e Moacir Antônio Dias Júnior, apoiados pelo Programa de Incentivo à Inovação (PII), criado pelo Sebrae Minas  e a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sectes), descobriram que, ao separar e isolar os materiais que constituem o lodo,  poderia produzir novas substâncias.  

O processo de beneficiamento consiste em separar a água do resíduo, por prensagem do lodo biológico e, posteriormente, encaminhá-lo para uma unidade de extração, onde a gordura é separada do resíduo sólido, possibilitando a destinação adequada de cada componente. “Identi­ficamos a quantidade de água, gordura e de composto orgânico que podem ser rea­proveitados comercialmente, como, por exemplo, na elaboração de subprodutos como resina, sabão e biofertilizante”, conta o pesquisador.

Resultados

De acordo com o pesquisador, uma das opções para reaproveitamento da gordura obtida a partir do beneficiamento do lodo biológico é a fabricação de sabão e de uma resina para polimento. “Hoje as fábricas de sabão têm que processar material orgânico como ossos, pele de animais para produzir a gordura que entra na composição do sabão. Nossa tecnologia permitiria entregar a gordura pronta para essa indústria, o que eliminaria essa fase de processamento, gerando grande economia”, diz Bruno Silva.

Os pesquisadores também obtiveram sucesso nos testes de bancada para produção de uma resina para polimento, que poderia ser utilizada em alguns setores da indústria química, para fabricação de graxa, e em madeireiras, por exemplo. “O grande mérito do projeto foi criar uma alternativa para a destinação adequada, do ponto de vis­ta econômico e ambiental, para o lodo biológico gerado na estação de tratamento de efluentes líquidos das indústrias de laticínios”, afirmou a pesquisadora Gilzeane Santos.

Outro destino para o lodo seria o biodiesel. Poucas pessoas sabem, mas biodiesel também pode ser fabricado a par­tir de gordura animal, ou sebo bovino. Ainda que os óleos vegetais sejam a principal fonte para produção desse tipo de combustível no Brasil, a gordura animal tem sido cada vez mais utilizada. Por isso que um dos principais mercados seria o fornecimento de gordura para produção de biodiesel. Hoje, os produtores compram sebo dos frigoríficos e usinas de reciclagem animal, mas há concorrência com as indústrias de higiene e limpeza, que também utilizam essa matéria-prima, o que eleva o preço.

O lodo da indústria de laticínio também poderia ser utilizado no ramo da indústria química, sendo aproveitado na produção de fer­tilizantes. Um solo apto para produção agrícola deve ter um nível ade­quado de matéria orgânica. Os fertilizantes têm a função de equilibrar os níveis de matéria orgânica, que são, na verdade, resíduos animais ou vegetais, no solo a ser cultivado. O lodo biológico da indústria de lati­cínios é riquíssimo nesse tipo de material, como ácido láctico e proteínas. Assim, a separação desse resíduo, pode gerar uma matéria-prima para a produção de um biofertilizante, com qualidade e baixo custo.

 Programa de Incentivo à Inovação

O Programa de Incentivo à Inovação (PII), criado em 2006 pelo Sebrae Minas, em parceria com a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Estado de Minas Gerais (SECTES), já foi realizado em universidades, faculdades e centros tecnológicos de Lavras, Itajubá, Juiz de Fora, Viçosa, Uberlândia e Belo Horizonte.

Em Montes Claros, o edital de seleção do PII foi publicado em 2011, para pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Faculdade de Ciência e Tecnologia (Facit), Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (ICA/UFMG) e Faculdades Integradas do Norte de Minas – Instituto de Ciências da Saúde (Funorte). 

O objetivo do programa é proporcionar uma mudança cultural nas universidades e nos pesquisadores, com a disseminação da cultura empreendedora, a obtenção de novos recursos para pesquisa e a possibilidade de geração de empregos para estudantes graduados e pós-graduados.

Fonte: Assessoria de Imprensa do Sebrae Minas

 


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