19/04/2015 às 20h22min - Atualizada em 19/04/2015 às 20h22min

Projeto busca recuperar 400 mil nascentes e salvar bacia no leste de Minas

Ricardo Rodrigues e Ana Lúcia Gonçalves - Hoje em Dia
Eduardo Fernandes torce para ações do instituto chegarem rápido à região, antes que nascente seque. (Leonardo Morais/Hoje em Dia)
O projeto Olhos d’Água, criado pelo Instituto Terra para revitalizar as nascentes do rio Doce, o décimo mais poluído do país, foi destaque do Fórum Mundial da Água, na Coreia do Sul, nessa semana. Com ajuda de empresas e cidadãos, a iniciativa piloto já salvou duas mil nascentes no entorno do rio, em Minas e no Espírito Santo, e 7 mil hectares de áreas degradadas estão em recuperação com o plantio de 4 milhões de árvores. A instituição foi fundada e é presidida pelo renomado fotógrafo Sebastião Salgado, mineiro de Aimorés.
 
A meta do programa é ambiciosa: proteger e recuperar cada uma das 400 mil nascentes do Doce, desde a nascente do rio Piranga, seu principal formador, em Ressaquinha, na Serra da Mantiqueira, até a foz, em Linhares (ES). O custo estimado é de R$ 3 bilhões para salvar todos os olhos d’água do Doce nos dois estados, por meio de projeto de reflorestamento e reconstituição de matas ciliares. Um trabalho que deve durar 30 anos.
 
Ganho
 
Quanto ao resultado esperado nos 230 municípios da bacia, diz o diretor da entidade, José Armando Figueiredo Campos, “pode-se estimar, conservadoramente, acréscimo de 0,5 litro por segundo (l/s) ou 1.800 litros por hora (l/h) na vazão média anual de cada nascente”. Multiplicado por 400 mil, seriam 720 milhões de l/h de aumento de vazão ao final da calha principal do rio Doce, próximo à foz.
 
Somente em um dos afluentes, o rio Piracicaba, seriam recuperados mais de 10 mil hectares de Mata Atlântica e plantados entre 1,5 milhão e 2 milhões de espécies nativas em um dos biomas mais ameaçados e importantes do mundo em biodiversidade. O custo? Em torno de R$ 90 milhões.
 
Aval
 
Em Minas, a expansão do projeto depende de aval do governador Fernando Pimentel ao acordo de cooperação proposto por Sebastião Salgado. O trabalho feito pelo Instituto Terra, que dirige junto com a arquiteta Lelia Warnick Salgado, conquistou o governador capixaba Paulo Hartung.
 
Características da bacia hidrográfica do Rio Doce

Características da bacia hidrográfica do Rio Doce

Economista por formação, assim como Pimentel e Salgado, Hartung firmou acordo de cooperação com a ONG e a ArcelorMittal, para recuperar 5 mil olhos d’água neste ano. Ele prevê que todas as nascentes da porção capixaba da bacia estarão recuperadas até 2019, por meio de parceria com os produtores rurais.
 
O maior desafio de Pimentel, segundo fonte do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sisema), será sensibilizar a iniciativa privada a destinar recursos às ações de revitalização dos rios mineiros, a exemplo do projeto ambiental de Salgado.
 
O Executivo firmou o “Pacto pelas Águas de Minas Gerais” com as federações da Indústria (Fiemg) e da Agricultura e Pecuária (Faemg), além de outras entidades empresariais, em março. Mas nenhum item contempla a iniciativa implantada no rio Doce.
 
Produtores veem com bons olhos chegada de projeto ao campo
 
A água que brota entre pedras à beira da estrada e encanta o fazendeiro Eduardo Fernandes Pessoa não apareceu neste ano. Mas o “sumiço” da nascente não foi, de tudo, uma surpresa: nos últimos três anos ela vinha dando sinais de fraqueza e o filete nem formava mais uma poça.
 
A esperança do produtor de Governador Valadares, no Leste do Estado, é ver o projeto do Instituto Terra chegar à região e, com ele, o fim das previsões de um futuro sombrio sem água. “Soube que vamos receber assistência técnica e insumos”, comemora.
 
O sítio Cajueiro fica no distrito de Santo Antônio do Porto e tem, ao todo, quatro nascentes. Esses “olhos d’água” abastecem a casa e as cem cabeças de gado de leite. A principal delas foi cercada há três anos, uma empreitada que Eduardo Fernandes enfrentou sem assessoria técnica.
 
O objetivo era evitar o pisoteio do gado e a extinção, como acabou acontecendo com a que ficava à beira da estrada, mesmo cercada. “Descobri que cercar apenas não resolve. Eu fiz isso e não adiantou”
 
A principal nascente continua com água, mas não aumenta seu volume. “Só de não ter secado com essa estiagem toda, é sinal que funcionou”, analisa o fazendeiro. Ele acredita que as áreas cercadas precisam de mais mudas e serem ampliadas. “Vamos torcer para que o Instituto Terra consiga todas as parcerias que busca para ampliar o projeto até aqui porque precisamos de ajuda”.
 
Riqueza
 
Na Estância Paraíso, localizada em São Geraldo de Tumiritinga, distrito de Tumiritinga, a principal nascente é guardada como um tesouro. Escondida entre bananeiras e mata nativa, brota do chão em uma área montanhosa.
 
Orgulhoso, o fazendeiro Edberto José Zanon Rezende faz questão de enumerar as qualidades da água fresca que “de tão pura” tem aparência levemente azulada quando enche o tanque de fundo branco.
 
Há três anos, ele cercou um hectare no seu entorno e, com orientação de técnicos do IEF, plantou ao redor. A propriedade de 584 hectares tem outras seis nascentes à espera de revitalização.
 
“Se não fosse o IEF, talvez não teria tido interesse de cuidar delas. O mesmo vai acontecer com outros produtores quando o projeto do Instituto Terra chegar aqui. Eu mesmo quero receber assistência, afinal, cuidar das nascentes é cuidar do terreno que normalmente é acidentado e garantir água para o futuro. Estamos cuidando de um tesouro”, enfatiza Rezende.
 
“Com essa crise hídrica anunciada, uma nascente pode até não fazer diferença, mas muitas podem ser a nossa salvação”, completou.

 

 

 


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