11/07/2015 às 10h38min - Atualizada em 11/07/2015 às 10h38min

Último quadro de Luiz Raphael

Por Alexandre Moreira/Casa de Leitura Lya Botelho.
Acervo: Angela Domingues Rosa (2007)

A casa do avô é um fantasma cujas formas se dissolvem na brancura do cânhamo da tela. A parede lateral revela a mercadoria da loja no nível da rua e se avizinha das casas na subida do morro, estas sim, definidas pela destreza do pincel do artista.

A vegetação exuberante da colina não chega a ocultar a presença imponente do prédio do hospital. Do alto, parece olhar, entre as árvores, o saudável movimento da cidade logo ali, mais abaixo.

Mas é a fachada, para sempre inacabada, que capta o olhar do observador que busca adivinhar o que haveria por detrás das portas-janelas rigorosamente desenhadas em arcos. Pessoas? Cortinas? Um pedaço de uma sala? Alguma mobília antiga?

A metade inferior da tela tem os precisos traços feitos pela mão do artista em sua busca para recriar um espaço público há muito não mais existente. Estaria desenhando de memória? Reproduziria o que lhe contaram que havia em frente à casa dos avós? Decidira criar uma nova paisagem urbana que se adequasse aos seus sentimentos em relação àquela casa, àquela rua, à sua Leopoldina?

Nunca mais saberemos.

Luiz Raphael Domingues Neto deixou-nos antes de concluir essa obra, mas a força imagética da mesma reside nesse mesmo fato: cada um vê e a completa à sua maneira. O artista e o espectador se unem para criar uma experiência artística única, onde a memória, as experiências, o conhecimento e, sobretudo, a emoção, completam com pinceladas invisíveis o projeto inacabado.

Homem de espírito renascentista, artista sensível e dedicado à causa do registro iconográfico da sua cidade, Luiz Raphael nasceu nesse mesmo sobrado, que tantas vezes pintou. Ali, no andar superior, onde seus avós moravam, pela primeira vez o ar da sua amada Leopoldina adentrou seus pulmões. Naquela casa começava a ser tecido pelas Moiras, a vida e o destino do artista. E, pasmem, foi pintando o lugar do seu primeiro momento nesta terra, que o artista expirou.
Ciclo completo para o artista, restou-nos uma tela inacabada para admirar.

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