03/09/2015 às 08h42min - Atualizada em 03/09/2015 às 08h42min

Liberdade de colombiano que causou acidente com morte revolta família da vítima

Ele é acusado de dirigir embriagado e provocar a morte do engenheiro Daniel de Oliveira Lacerda. Para Justiça, crime não é de "extrema gravidade"

Pedro Ferreira , Sandra Kiefer / Estado de Minas
César Augusto Martinez Loaiza acumula 16 infrações de trânsito, que somam 72 pontos na carteira (foto Paulo Figueira)

“Por que, meu Deus, por quê?” Três dias depois do acidente que tirou a vida do engenheiro eletricista Daniel de Oliveira Lacerda, de 40 anos, um dos ocupantes da van atingida pelo carro do comerciante colombiano César Augusto Martinez Loaiza, de 29, que dirigia embriagado, a mulher da vítima não se conforma com a tragédia e o tempo todo busca entender o que aconteceu. Valéria Ribeiro Lacerda permanecia internada na tarde de ontem no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII (HPS), aguardando transferência para um hospital particular. O que Valéria não sabia é que o responsável pela morte do seu marido conseguiu sair da prisão antes mesmo dela receber alta médica. A família quis preservá-la de mais um sofrimento, por entender que esse será “mais um crime de trânsito que sairá impune”.

César Loaiza deixou o Centro de Remanejamento de Presos (Ceresp) Gameleira, na Região Oeste da capital, na noite de segunda-feira. Ele recebeu liberdade provisória após pagamento de fiança no valor de R$ 39,4 mil (equivalente a 50 salários mínimos) à Justiça, segundo informou a assessoria de comunicação do Fórum Lafayette. A liberdade provisória foi concedida pela juíza Paula Murça Machado Rocha Moura, que considerou que ele é primário e que o crime não é de extrema gravidade, tendo em vista que “perpetrado sem violência ou grave ameaça à pessoa”. O comerciante colombiano foi autuado por homicídio culposo.

Daniel, Valéria e vários outros parentes voltavam do baile de formatura em direito da sobrinha e afilhada, Luisa Lamaita, de 25, que ocorria numa casa de eventos do Bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, Região Metropolitana de Belo Horizonte. De madrugada, a van fretada pela família foi violentamente atingida pelo carro do colombiano, que dirigia embrigado, em alta velocidade, e avançou um sinal na Avenida Nossa Senhora do Carmo, no Bairro São Pedro, Região Centro-Sul da capital. O engenheiro morreu na hora.

 

Luisa acompanha a tia e madrinha no hospital e ficou revoltada com a soltura do acusado. “Ele é uma pessoa inconsequente”, reagiu. A recém-formanda não se conforma com a morte do tio. “Eles voltavam do meu baile de formatura. Eu tentei fazer tudo certinho e contratei duas vans para transportar meus parentes e amigos, uma saindo de madrugada e outra às 10h, quando terminaria a festa. Na primeira van, estavam meus pais, Daniel, Valéria, meus sogros, minha cunhada, o noivo dela e meus amigos. Minha festa não chegou ao final. Acabou”, disse.

Segundo ela, a família está tentando transferir Valéria para outro hospital de Belo Horizonte.

     

 “Há dois dias estamos tentando vaga para minha tia e esse irresponsável (o colombiano) sacou R$ 40 mil da carteira e saiu da cadeia. Ele tirou a vida de um pai de família maravilhoso, um profissional maravilhoso, que deixou dois filhos pequenos e que tinha planos de morar com a família na Irlanda”, disse a sobrinha. Os filhos da vítima, uma menina de 9 anos e um menino de 11, estão com parentes em Pouso Alegre, Sul de Minas, e também não entendem a morte do pai. “A Valéria ainda não sabe que o motorista foi solto. Ela está emocionalmente abalada, com duas costelas quebradas, e sente muita dor quando chora”, contou a sobrinha.

Impunidade

Recém-formada em direito, Luisa disse que não pode misturar o sentimento profissional com o emocional, mas que ela e outras parentes advogados vão acompanhar o inquérito do acidente e lutar para que o comerciante seja punido, embora esteja consciente de que a legislação de trânsito é falha e precisa ser mudada. O temor da família é que o motorista saia impune como tantos outros que pegaram o volante embriagados, como ocorreu com o francês Olivier Rebellato. Em 2009, à época com 20 anos, ele avançou um sinal na Savassi e provocou um acidente que deixou cinco feridos, incluindo uma jovem em estado vegetativo. Olivier ganhou liberdade provisória. Com o passaporte devolvido, ele voltou para a França. O processo foi arquivado e ele saiu impune (veja Memória).

Luisa não quer que o mesmo aconteça com o comerciante colombiano. “Queria que esse ele voltasse para a cadeia”, desabafou. Ela lembrou que o comerciante havia acumulado 72 pontos da carteira, por 16 infrações de trânsito e uma administrativa. “Ainda assim, ele continuava com a carteira de motorista dirigindo embriagado. O estado tinha que ter tomado a carteira dele”, reagiu. O motorista fez o teste do bafômetro, que apontou 0,38 miligramas de álcool por litro de ar expelido. O índice registrado pelo equipamento está acima de 0,34 mg/l, sendo considerado crime de trânsito. O advogado de César Loaiza, Fernando Ramos Faria Cruz, não foi localizado pela reportagem.

"Ele saiu primeiro da prisão do que minha madrinha do hospital"

Luisa Lamita, afilhada da vítima (foto: Cristina Horta/EM/D.A.Press)

O baile de Luisa Lamaita, que se formou em direito na PUC Minas, era para ser uma grande festa em família. O roteiro incluiu a contratação de duas vans para devolver os convidados em casa, em segurança. Mas a data converteu-se em tragédia. No acidente, morreu o padrinho de Luisa, o engenheiro eletricista Daniel Lacerda, e a madrinha, Valéria, está ferida e internada no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII. Indignada, a família tenta a transferência da paciente para outro hospital de BH. A expectativa agora é levar os filhos, de 10 e 12 anos, para visitá-la.

Era a sua festa de formatura?

Sim. A van estava vindo do meu baile de formatura. Como eu tinha muitos convidados, tomei a precaução de reservar duas vans para deixar as pessoas em casa, depois da festa. A primeira delas saiu por volta das 4h30. Cerca de uma hora depois, ligaram no celular do meu noivo para avisar do acidente.

O que eles contaram para você?

A van bateu, mas está tudo bem. Já falei com seu pai e sua mãe, que estão bem. Meus pais também estão vivos. Mas ele não quis me dizer sobre os outros passageiros. Na hora, baixei para lá. Quando cheguei, aí sim me contaram a verdade sobre os meus padrinhos. Minha madrinha é irmã da minha mãe e está desconsolada com a morte do marido. Ela ainda não encontrou com os filhos, que já sabem o que aconteceu.

Você soube que o motorista foi solto?

A indignação é muito grande. Ele saiu primeiro da prisão do que minha madrinha saiu do hospital. Como assim? Vamos cobrar a responsabilidade do estado, que tem culpa nisso porque deixou um inconsequente bêbado continuar dirigindo por aí . Se ele já tinha 72 pontos, por que não tomaram a carteira dele?

Como ficou a sua formatura?

Meu baile é o de menos. Seria até egoísmo pensar nisso, porque o meu sentimento de dor é muito menor que o da minha madrinha. A data da minha formatura vai ser lembrada como trágica, daqui a um ano, cinco anos, sempre.

Memória

"Refúgio" na França após deixarjovem em estado vegetativo

Na madrugada de 17 de abril de 2009, o francês Olivier Rebellato, então com 20 anos (foto), avançou um sinal vermelho em alta velocidade na Rua Sergipe, na Savassi, e bateu em outro veículo, onde estavam cinco pessoas. No acidente, todos ficaram feridos, deixando ainda uma passageira em estado vegetativo. O bafômetro constatou que o motorista estrangeiro dirigia embriagado. A habilitação dele também não era válida no Brasil. Olivier foi preso em flagrante no dia do acidente e denunciado pelo Ministério Público por três crimes de trânsito: conduzir veículo sob efeito de álcool, dirigir sem habilitação e causar lesão corporal culposa nas vítimas. Seis meses depois, a Justiça concedeu a ele liberdade provisória, condicionada ao pagamento de fiança no valor de R$ 5.935,57. Também devolveu-lhe o passaporte. Assim que recebeu o documento, o estrangeiro deixou o Brasil e se refugiou na França, onde está “a salvo”, já que o país não extradita seus cidadãos. Como o acusado desapareceu, a Justiça ordenou sua prisão preventiva, medida que acabou cassada com a prescrição do crime, mais de três anos depois. O processo foi arquivado.

 


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