30/12/2015 às 08h28min - Atualizada em 30/12/2015 às 08h28min

Os espaços da memória e a educação patrimonial

A culminância do projeto este ano envolveu uma visita ao pequeno distrito de Piacatuba.

Natania Nogueira
Alunas,moradora e a representante da Secretaria de Cultura e responsável pelo Projeto Educar, Amanda Almeida.
No final do ano de 2015 tivemos, novamente, na Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado o projeto EDUCAR, que trabalha educação patrimonial com alunos do Ensino Fundamental II, na rede municipal de ensino de Leopoldina.
 
O projeto EDUCAR é uma iniciativa do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA /MG) e que tem por objetivo a conscientização do cidadão a partir de um processo ativo de conhecimento, apropriação e valorização de sua história. O projeto trabalha em cima da necessidade da preservação de bens culturais locais pela comunidade, promovendo assim o exercício da cidadania.

Assim como no ano de 2014, o projeto foi desenvolvido com alunos do sétimo ano, com idades entre 12 e 13 anos. Os alunos participam de aulas teóricas, aprendem noções básicas sobre patrimônio material e imaterial, a identificar o patrimônio arquitetônico, histórico e cultural local, produzem material sobre o tema, etc. 
 
A culminância do projeto este ano envolveu uma visita ao  pequeno distrito de Leopoldina, chamado  Piacatuba. O distrito foi oficialmente criado em 10 de outubro de 1851, pela lei nº 533, com o nome de Nossa Senhora da Piedade, na época pertencente ao Município de Mar de Espanha. Mas a história da comunidade começou um pouco antes, com a doação de terras feita por Domingos de Oliveira Alves em 23 de agosto 1844. (saiba mais sobre a História de Piacatuba, clicando aqui).



O lugarejo possui um conjunto arquitetônico único, preservado pela comunidade local, do qual os alunos escolheram, durante as aulas, uma obra em especial: a Rua dos Escravos ou Rua das Pedras. Trata-se de uma rua pavimentada por escravos, no século XIX, quando Leopoldina despontava como um dos municípios de produtores de café da Zona da Mata de Minas. 

Piacatuba encanta pelo seu conjunto arquitetônico. São casas simples do interior, algumas do final do século XIX outras mais recentes. A comunidade se identifica com o espaço, compartilha de uma identidade histórica e cultural que acabou de tornando um elo muito forte que une a todos, independentemente da idade.
 
E se a comunidade se identifica com o local, os alunos da escola se identificam com o tema escravidão. A Escola Municipal Judith Lintz possui um projeto de consciência negra, representado pelo grupo de dança Pérola Negra. Muitos dos alunos que participaram do EDUCAR fazem, de alguma forma, parte do grupo.  Além disso, a escola realiza todos os anos a Festa da Consciência Negra, que consegue levar para toda a comunidade escolar  a valorização da cultura do negro promovendo um trabalho multicultural que vem apresentando resultados significativos. 

Assim, escolher a Rua dos Escravos remete a uma identidade étnica e cultural, desenvolvida e valorizada pela escola. Essa identidade pode e dever ser também entendida como resultado de uma educação patrimonial. A educação patrimonial é marcada pela diversidade. Cito aqui as palavras do professor Marcos Antônio da Silva:
 
(...) é preciso pensar nos incontáveis patrimônios históricos que professores e alunos, como representantes da rica diversidade social, vivenciam de múltiplas formas, desde suas identidades étnicas até a própria educação que experimentam.(SILVA, Marcos Antônio. História, o prazer em ensino e pesquisa. 2ª ed. - São Paulo: Brasiliense, 2003, p. 52)

Verifica-se ainda que a própria escolha do bem cultural, em toda sua simplicidade, remete ao fato de que os estudantes entenderam o quão profunda pode ser a ideia de patrimônio e a própria proposta do projeto. Eles poderiam ter escolhido grandes monumentos, símbolos da elite, mas optaram por uma rua construída por trabalhadores simples, vítimas da escravidão e de vários tipos de violência. Um espaço da memória construído a partir do suor e sangue de escravos.

A escolha de uma via pública também nos leva a refletir sobre os espaços da memória. Estas crianças aprenderam que um simples vilarejo habitado por pequenos agricultores, ser considerada um patrimônio, um local onde podemos encontrar diversos bens culturais. Que a memória e a história podem estar presentes numa casa simples, no coreto de um praça, numa rua centenária. 
 
Podemos avaliar o êxito do projeto a partir da reação dos jovens estudantes ao visitarem reste espaço de memória que é Piacatuba. Eles ficaram encantados com as ruas, a praças as casas. Uns contaram histórias sobre os avós ou bisavôs que moravam em distritos, outros se interessaram pelos tipos de construção que ali encontraram. Todos se sentiram muito a vontade para falar e ouvir.
 
Por fim, o passeio foi encerrado com um piquenique na Praça de Piacatuba. Cada um levou um lanche e todos compartilharam, inclusive os adultos. E é preciso destacar o fato de que nem um papel de bala foi deixado para traz. Todos jogaram o lixo nos latões. Afinal, manter limpos os espaços públicos é uma forma de preservação patrimonial.


Alunos do 7º ano da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado, de Leopoldina (MG).


Conjunto arquitetônico de Piacatuba,que remonta à época do Império.

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