01/04/2016 às 12h04min - Atualizada em 01/04/2016 às 12h04min

Dia da Mentira: mentir faz parte da natureza humana?

Celebrado no dia 1° de abril, o Dia da Mentira é encarado como uma brincadeira, uma data em que as pessoas contam "mentirinhas" que são desmentidas; mas será que existe diferença entre uma pequena e uma grande mentira? A psicoterapeuta Maura de Albanesi esclarece essa e outras dúvidas
Jornalista responsável: Letícia Veloso (Mtb 55.294)
O Dia da Mentira surgiu na França, no século 16, numa época em que parte da população continuava a celebrar o Ano-Novo no primeiro dia de abril, mesmo após a mudança da data para 1° de janeiro, por ordem da Igreja. Com isso, surgiram brincadeiras quanto ao "Ano-Novo de mentira". No Brasil, essa tradição começou com a falsa notícia da morte de Dom Pedro, em 1828, que foi desmentida no dia seguinte. Contudo, brincadeiras a parte, para a psicoterapeuta Maura de Albanesi, mestre em Psicologia e Religião pela PUCSP, a mentira é sempre algo prejudicial à vida das pessoas e ela não faz parte da natureza humana, ou seja, não nasceu com o homem.
De acordo com a psicoterapeuta, o ato de mentir se trata de algo que as pessoas aprendem ao longo da vida. "Temos o exemplo de uma mãe, que eventualmente fala para a criança não mentir, mas quando o telefone toca, ela pede ao filho para dizer que ela não está. Contraditório, não? Bom, a criança registra e pensa que mentir significa evitar fazer algo que não se quer. Então, é esse o aprendizado que nos faz concluir que mentir é bom, porque nos tira de uma situação incômoda", afirma.
Segundo Maura, já a vontade de querer ter e buscar vantagens é algo que faz parte da má conduta humana. "Existem aqueles que desejam tirar o melhor proveito de cada situação. E de repente essa pessoa usa um ‘caminho torto’ para pegar um atalho através da mentira", complementa. Mas será que todo mundo mente? A especialista afirma que, na prática, o ser humano quer sempre sair de uma situação desagradável, porém, existem pessoas que aprenderam a lidar com essas situações por meio da mentira.
Mentirinha ou mentirona?
Maura também alerta que não se pode mensurar as mentiras, classificando-as como "menos ou mais graves", de acordo com a situação. Segundo ela, não existe quaisquer diferenças entre uma pequena e uma grande mentira, pois de todas as formas, mentir é sempre prejudicial para todos e há malefícios.
"A mentira passa a ser uma maneira de se desculpar de algo. Quando começamos a nos desculpar e a criar histórias que não existem para nos afastarmos de determinadas situações, mandamos um comando para a mente de que estamos nos afastando das situações da vida. Na prática, ocorre a redução de coisas boas que poderiam nos acontecer, como se perdêssemos lindas oportunidades que a vida poderia nos propiciar", explica.

Mentir para proteger alguém?
Maura também menciona situações em que as pessoas creem que a mentira pode "proteger alguém de situações delicadas", como ocultar fatos que podem abalar o outro, desde assuntos que envolvem traição ou doenças, por exemplo. "Ao invés de colocar essa pessoa num movimento positivo, ocorre o contrário e mentir pode ser muito prejudicial. Ser claro e verdadeiro ajuda a trazer e resgatar uma força interior, para que a pessoa possa lidar com isso de uma forma íntegra", afirma.

Para a psicoterapeuta, em se tratando dessas situações, as pessoas tendem a imaginar que a mentira é importante para evitar a dor do outro. "Numa traição, por exemplo, é comum pensar que é melhor que a pessoa não saiba que foi traída - para aliviar a dor. Mas é importante destacar que a dor nos faz crescer, nos deixa lúcidos e com forças para seguir em frente. A mentira turva, confunde e não traz mudanças".

Os malefícios da mentira
A pessoa que mente com frequência tende a sofrer com a perda da confiança, por parte outros, segundo Maura. "No caso, ela não se torna confiável, os outros sempre se questionarão se o mentiroso diz a verdade ou não e se as informações procedem. Quando quebramos laços de confiança, quebramos qualquer tipo de relação. Toda mentira é um problema sério e denota até uma falta de caráter", declara.

Além disso, a mentira pode interferir lesar e denegrir a vida do outro, como em casos de fofoca, como alerta a psicoterapeuta. "O mentiroso pode colocar em risco a vida de outra pessoa. Contudo, felizmente, toda mentira ‘tem a perna curta’ e aos poucos as situações se resolvem, mas até essa verdade aparecer, a mentira pode já ter destruído a carreira de uma pessoa ou prejudicado a vida pessoal dela, por exemplo", destaca.

Para Maura, a mentira também conturba a mente e faz com que a vida de quem costuma mentir "gire em círculos" e se estagne. "Quem muito mente, de fato, pouco faz, pois a mente começa a se confundir com essa contrariedade do que se está dizendo e do que a realidade está apresentando. É como se todo o poder mental dessa pessoa ficasse estacionado esperando para ver o que é e o que não é. Cria-se essa névoa que vai entorpecendo a própria forma da pessoa raciocinar. Então, eu não vejo - nunca - nenhum benefício com a mentira", explica.

A convivência com os mentirosos
E como conviver com os "mentirosos"? Para lidar com essa questão, Maura sugere, de forma geral, que é preciso ignorar essas pessoas. "Você pode até conversar, bater um papo, mas nem leve a sério o que esse indivíduo diz, pois o mentiroso é desprovido de credibilidade. Dependendo da situação e grau de intimidade, você pode - de repente - dizer a ele que não acredita em suas mentiras. Isso tende a intimidá-lo e ele vai pensar duas vezes antes de contar a você outra mentira", afirma.

E quais as formas de flagrar a mentira do outro? "Uma das maneiras de desbancar o mentiroso é fazer de duas a três vezes, em média, a mesma pergunta e em momentos diferentes. Em algumas dessas respostas, pode ter certeza que ele pode se contradizer e citar algo inconsistente que denuncie a inveracidade dos fatos", declara.

Como parar de mentir? Confira dicas!
De acordo com a psicoterapeuta, é possível "frear os mentirosos" quando eles percebem que essa mentira se volta para eles e de forma intensa. "Essa pessoa usa muita energia para pensar em o que foi dito ou não e, com isso, gerenciar o seu dia a dia. Essa ação tira o indivíduo totalmente do foco do que ela quer realizar ou fazer", afirma. E para quem não consegue parar de mentir, ela sugere algumas dicas:

-Perceber que a mentira é altamente negativa e que ela cria uma espécie de "nebulosidade" à vida da pessoa, o que desfavorece os seus objetivos e anseios.

-Avaliar as desvantagens e vantagens que a mentira pode causar e imaginar o que poderia acontecer se a pessoa dissesse a verdade. "Muitas vezes, ela mente pois teme as consequências da verdade, o que o outro diria sobre suas ações, comportamento, etc.

-Não usar a mentira como forma de "proteger alguém" de uma determina situação. "A pessoa não deve subestimar a capacidade do outro em lidar com situações complicadas. É preciso reconhecer a força do outro em combater e enfrentar os problemas", afirma.

-Resgatar o poder de falar a verdade. "Isso significa o resgate do próprio poder de lidar com as situações da vida. Seja sempre você mesmo e enfrente os riscos".

Para finalizar, Maura afirma que quando a pessoa para de mentir, ela tem de volta o seu poder pessoal e devolve também o que foi roubado do outro, por causa das mentiras. "Eu creio que não existe nada mais saudável do que dizer a verdade e todos nós temos condições de arcar com a realidade. A verdade é clara, é transparente e ela traz lucidez e o poder de decisão da pessoa, embasada na clareza da verdade", conclui.


Fonte: Maura de Albanesi é mestre em Psicologia e Religião pela PUCSP, Pós-Graduada em Psicoterapia Corporal, Terapia de Vivências Passadas (TVP), Terapia Artística, Psicoterapia Transpessoal e Formação Biográfica Antroposófica, atua com o ser humano há mais de 30 anos. www.mauradealbanesi.com.br.
Jornalista responsável: Letícia Veloso (Mtb 55.294)
 
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