30/07/2016 às 20h11min - Atualizada em 30/07/2016 às 20h11min

O festival de besteira que assola a imagem da Petrobras

Por Luiz Alfredo Salomão
Tijolaço

Tenho saudades de Sérgio Porto e do personagem por ele criado, Stanislaw Ponte Preta. É necessário esclarecer aos mais jovens quem foi o Stanislaw Ponte Preta, para que eles investiguem um pouco a contribuição que ele deu, como cronista, ao humor e à crítica social e política com uma verve carioca incomparável.

Inteligente, espirituoso, gozador, otimista, solidário com os amigos, deixou, Stanislaw, uma rica obra que inclui, entre outros, Tia Zulmira e Eu, Garoto Linha Dura, A Casa Demolida e aquele mais conhecido: o Festival de Besteira que Assola o País – Febeapá 1 e 2, tal a riqueza de fatos, afirmações e comportamentos, que observava no cotidiano, tudo registrando com muita mordacidade.

O Brasil deveria lamentar o fato de que não mais esteja entre nós, impedido de comentar, por exemplo, as ansiedades do Governo Temer de retomar a política de desvalorização das empresas estatais, para privatizá-las, e os argumentos mal intencionados hoje assacados contra a Petrobras. Ela é a maior empresa do país, símbolo da capacidade realizadora de nossa gente, e responsável pelos maiores investimentos em curso, tão necessários para alavancar o nosso desenvolvimento econômico.

Tenho ouvido muitos disparates, inclusive ditos por pessoas esclarecidas, dois dos quais desejo comentar: “A Petrobras está falida, quebrada” e “A Petrobras precisa de um choque de gestão, de profissionais competentes e recrutados no mercado”.

Estas sandices têm origem na desinformação disseminada pela mídia comprometida com interesses que não se querem revelar. Esses segmentos da mídia são indiscutivelmente coerentes, pois há décadas atacam a Petrobras, a serviço de atores bem conhecidos. A campanha recrudesce sempre que a Petrobras alcança uma realização excepcional, como, por exemplo, a descoberta do pré-sal, sem dúvida, o maior êxito da indústria mundial do petróleo nas últimas décadas.

Algum juiz decretou a falência da Petrobras? A empresa pediu recuperação judicial? A produção de petróleo está estagnada ou declinante? As reservas estão se exaurindo, ou crescendo? Tem o desprezo ou é reconhecida na comunidade técnica mundial? Como pode a Petrobras captar recursos no mercado financeiro internacional com títulos de prazo de vencimento de 100 anos?

Por que a imprensa não informa a opinião pública com isenção como é seu dever? Como pode estar em dificuldades uma empresa que está investindo US$ 20 bilhões, só em 2016, no mesmo nível dos gastos de capital das maiores petroleiras do mundo? Além disso, a Petrobras é assediada, insistentemente, por grandes corporações multinacionais que desejam fazer parcerias. Como pode estar “quebrada” ou desacreditada? Isso só pode passar na cabeça daqueles que aspiram entregá-la, integral ou parcialmente, aos seus sócios-investidores estrangeiros

A Petrobras recebeu, em 2015, a terceira premiação concedida pela OTC – Offshore Technology Conference. Choque de gestão? Profissionais do mercado? Um recorde de besteiras divulgadas num volume e intensidade que chocariam Stanislaw Ponte Preta, acostumado ao besteirol dos anos 1960, quando não havia internet e essa possibilidade de propagar mentiras à velocidade da luz.

Todo mundo deveria saber que os profissionais da Petrobras são selecionados em concursos públicos, democráticos e abertos a pessoas de todos os recantos brasileiros. Dependendo da categoria profissional, surgem até 100 candidatos para cada vaga! Após esta seleção, fazem cursos de aperfeiçoamento no Brasil e no exterior. A companhia mantém a Universidade Petrobras, onde são treinados milhares de técnicos e gerentes, inclusive por meio de ensino a distância, via satélite e internet, para aqueles que estão no mar, no interior da Amazônia e em outras plagas onde não há espaço para ensino presencial.

Ao longo da vida, como parlamentar e como consultor técnico da área de Estratégia e Desempenho da Petrobras, tive a oportunidade de conhecer centenas de empregados da empresa do maior nível e, especialmente, imbuídos do sentimento patriótico de estar produzindo e garantindo o suprimento de derivados de petróleo e gás em todo o vasto território do país. Também, no magistério, como diretor da Escola de Políticas Públicas e Gestão Governamental, utilizei muitos profissionais da Petrobras para ensinar aos nossos alunos os métodos avançados que usam para tocar a empresa, muito superiores ao que se pode observar na média das empresas privadas.

Gente do mais alto nível, motivada, que “veste a camisa”. De um executivo ouvi, certa vez, a afirmação de que “a nossa remuneração é composta por reais e por emoções. A parcela que mexe com o coração é, certamente, tão grande ou maior do que a que entra na conta”.

Não bastasse isso, por acaso os levianos que identificam lacunas na estrutura de gestão da empresa ignoram a presença de profissionais da Petrobras, da ativa ou aposentados, atuando em elevadas funções, no governo, nas universidades, em todos os recantos do país. Ignoram também, propositalmente, que muitos se desligaram da empresa para dirigir empresas privadas, brasileiras e multinacionais, como Ultra, Suzano, Oxiteno, Ford, Caoa, Prumo, Cecrisa, Deten, Repsol, Statoil, Devon, BG e uma relação interminável de outras organizações. Estão nos governos, federal, estadual e municipal, nas federações da Indústria, nas universidades, no IBP, na Onip, na ANP, no Congresso Nacional, enfim, em todos os locais que demandam competência em gestão e ética.

Os malfeitos de um grupo de ex-dirigentes da Petrobras, cegos pela ambição de enriquecer, não consegue sequer arranhar o prestígio nacional e internacional dessa obra coletiva de homens e mulheres que criaram e desenvolvem essa empresa há mais de 60 anos. Seus detratores podem almejar esquartejá-la para privatizá-la, mas não o conseguirão. Muitos brasileiros estão prontos para combater essa iniciativa em todos os campos, impedindo que mais uma história digna do Febeapá seja consumada, contrariando os interesses da nação brasileira.

Luiz Alfredo Salomão é engenheiro, foi deputado federal, secretário de Estado e vice-ministro de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. É conselheiro do Clube de Engenharia e diretor da Escola de Políticas Públicas e Gestão Governamental/Iuperj.


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