23/09/2016 às 09h55min - Atualizada em 23/09/2016 às 09h55min

A Torre da Cruz Queimada de Piacatuba

Plínio Fajardo Alvim
Fotografias: 1º Cedida por Humberto Luiz Martins Ferreira, 2º cartão postal sem autoria, 3º Luiza Meneghite César
 Piacatuba é um distrito pertencente ao município de Leopoldina-MG. Curato de Nossa Senhora da Piedade foi o seu primitivo nome. Suas origens remontam às primeiras décadas do século XIX e coincidem com o início do povoamento desta parte da Zona da Mata mineira. O acesso à Piacatuba está localizado entre Leopoldina e Cataguases, à altura do km 8 da Rodovia Ormeo Junqueira Botelho, nas proximidades da Fazenda da Aurora, onde se encontra a Indústria Aurora Têxtil.

 A Cruz Queimada e a origem de Piacatuba – No dia 23 de agosto de 1844, cumprindo uma promessa feita a Nossa Senhora da Piedade, o Capitão Domingos de Oliveira Alves doou uma porção de terras onde deveria ser instalada uma povoação que receberia o nome daquela padroeira. Para demarcar a área ele mandou erguer uma cruz de madeira-de-lei – tapinoã.

Entretanto, outro fazendeiro reivindicava a posse daquela terra. Gerou-se, então, o conflito que deu origem ao conhecido episódio da CRUZ QUEIMADA que, de acordo com a crônica oral popular,teria sido profanada. Mas a cruz teria resistido às escavações, aos machados e ao fogo e vem sendo cultuada através das gerações.

Símbolo maior do cristianismo, a Cruz foi atacada, rudemente, quando interesses mesquinhos fizeram um homem atear fogo ao Santo Cruzeiro, erguido para representar a fé e a religiosidade de um humilde fazendeiro. A Cruz de N. Sra. da Piedade resistiu às chamas e, hoje, cognominadaCruz Queimada de Piacatuba, atrai milhares de devotos e peregrinos que vão render-lhe homenagens e pedir-lhe proteção, além de agradecer-lhe as graças alcançadas. A Festa da Santa Cruz Queimada ocorre, anualmente, desde 1928, no dia 3 de maio.


A Torre da Cruz Queimada recebe muitos visitantes (Foto: Luiza Meneghite César)

Segundo os Párocos Pe. Zeferino de Abreu - que lançou a Pedra Fundamental da Capela primitiva, em 30 de outubro de 1910 - e Pe. Raymundo Nonato Fernandes de Araújo, que elaborou a obra e construiu a Torre, de 1924 a 1928, o episódio da Cruz Queimada teria ocorrido 30 em setembro de 1847. Outra versão, mais mística e menos factual, informa que o fato teria se passado em agosto de 1823. Ainda não foram encontradas outras provas documentais que confirmem esta ou aquela data. No entanto, a Cruz Queimada existe. Está lá, protegida, dentro da Torre, para quem quiser conhecê-la ou venerá-la.

Cruz Queimada - Piacatuba, MG from cumbuca on Vimeo.

O acontecimento da Cruz Queimada de N. Sra. da Piedade foi - e ainda é - tão marcante na história de Piacatuba, por representar a própria origem do lugar, que, em 1910, o Coronel Joaquim Fajardo de Mello Campos, importante produtor rural e chefe político na região (vide matéria publicada neste site), resolveu reunir fundos para erguer uma Capela para abrigar a Cruz. O Coronel Fajardo faleceu em outubro daquele ano, sem concretizar o seu intento, vitimado por um fulminante ataque cardíaco, quando iria participar de um leilão de bezerros que organizara em prol daquela Capela da Cruz Queimada de N. Sra. da Piedade.

Sua viúva Guilhermina Balbina Henriques Soares Fajardo e seus filhos, cumprindo os desejos de Fajardo, foram os maiores benfeitores da Torre-capela da Cruz Queimada, cujas obras estiveram paralisadas por muitos anos, de 1910 a 1924.

A construção foi retomada em 18 de julho de 1924 sob a direção do citado Pe. Raymundo Nonato F. de Araújo e terminada em 30 de abril de 1928. No dia 3 de maio de 1928, a Torre da Cruz Queimada foi inaugurada, solenemente, com grandiosa festa que durou três dias e que, por tradição, vem se repetindo, anualmente, até hoje.
 
A construção da Torre da Cruz Queimada - Fundamentado na pesquisa que realizo há mais de trinta anos, em várias fontes (fotográficas inclusive), suponho que a primitiva Capela da Cruz Queimada, cuja Pedra Fundamental foi lançada em 30 de outubro de 1910 pelo Pe. Zeferino de Abreu, seria, a princípio, construída ao lado da Matriz de N. Sra. da Piedade. Por razões que ainda não consegui apurar, o local de sua construção foi mudado para a área hoje ocupada pela Praça da Santa Cruz Queimada, a principal de Piacatuba. A obra da Torre, em estilo eclético, tendendo ao neoclássico, com três pavimentos e cerca de 12 metros de altura, foi projetada e dirigida pelo Pároco Pe. Raymundo Nonato F. de Araújo.

De acordo como o que escreveu, em 1957, o Cel. Olivier Fajardo de Paiva Campos, "Foi o Coronel Joaquim Fajardo de Mello Campos quem teve a iniciativa da construção da Torre da Cruz Queimada em Piacatuba. No dia da sua morte, dia 9 de Outubro de 1910, partio de sua Fazenda Aurora, em direção a sede do distrito de Piacatuba, onde vinha assistir a um leilão de Bizerros, por ele promovido com a finalidade de angariar dinheiro para a construção da referida Torre da Santa Cruz Queimada." "...Neste dia inaugurava-se o Predio do Forum de Leopoldina, como era vereador a Câmara Municipal, foram-lhe prestadas diversas homenagens, sendo inaugurado o seu retrato ns salões da Câmara Municipal: Lá está no local onde ele faleceu uma Cruz de madeira de ipê que seus irmãos e amigos ali colocaram, esta pezada Cruz foi carregada a mão nos braços do povo de Piacatuba, que queriam lhe prestar aquela homenagem."...

A Gazeta de Leopoldina noticiava, no dia 7 de junho de 1925, que os trabalhos de construção da Torre"vão bem adeantados" e que "O rev. Padre Raymundo está providenciando, desde já, para a acquisição de um grande relógio com 4 mostradores, o qual será collocado no alto da Torre da Cruz Queimada".

A mesma Gazeta de Leopoldina informava, já em junho de 1927, a data prevista para a inauguração da Torre: "Está marcada para o dia 18 do próximo mez de Julho a inauguração, no districto de Piacatuba, da "Torre da Cruz Queimada"...; e, mais adiante, "Segundo ouvimos dizer, a Cruz Queimada será depositada no primeiro pavimento, devendo ser collocados na torre um relógio com grande mostrador e um possante foco electrico."... Mas a inauguração só ocorreria no ano seguinte.
 
A Festa de Inauguração da Torre - O Coronel Olivier Fajardo, continuando seu relato, revela:

"...aos 3 de Maio de 1928, foi uma das festas mais concorridas, que temos assistido no distrito de Piacatuba, havendo diversas solenidades cívicas e religiozas, muitos discursos foram pronunciados no ato da inauguração, destacando-se o pronunciado pelo Dr. Arthur Guimarães Leão, na ocazião em que era colocado o retrato do maior benfeitor daquela construção Coronel Joaquim Fajardo de Melo Campos, que teve a iniciativa da construção da Torre da Cruz Queimada, isto antes de Outubro de 1910: Conforme declarações feitas pelo Padre Zeferino de Abreu, por ocasião da pedra fundamental, ao 30 dias do mez de Outubro de 1910, conforme consta do Livro do Tombo folhas 8 e 9,"...

            Também a Gazeta de Leopoldina noticiou aquela grande festa, que durou três dias – 1º, 2 e 3 de maio, enfatizando que "pelas quatro bandas as estradas despejavam no local gente aos montões durante os treis dias de festa...". Ao longo desses dias foram realizadas missas, procissões e bênçãos religiosas; além de apresentações de bandas de música e queima de fogos.  No dia primeiro de maio foi inaugurada a "luz electrica" da torre. A inauguração ocorreu, oficialmente, no dia 3 de maio de 1928.

Continua a Gazeta de Leopoldina: "Ao meio dia inaugurou-se a torre com a máxima solemnidade; presidiu o acto o sr. Cel. Olivier Fajardo, a convite do rvdmo vigário pe. Raymundo".  Depois de Olivier, que enalteceu os esforços do Pe. Raymundo Nonato, também discursaram: o Cel. Américo Almada, que falou sobre o monumento – "seu princípio, sua construção e sobre seu futuro para o logar"; o Dr. Arthur Leão e o Dr. Carlos Luz, "fazendo ver o poder da união e os resultados dos esforços; pontiou com clareza os nomes dos interessados na construcção da torre magestosa da Santa Cruz Queimada". No final da cerimônia, foi inaugurado o retrato do Cel. Joaquim Fajardo, no interior da Torre, acompanhado das eloquentes palavras do Dr. Arthur Leão. E, à tarde, encerram-se os festejos, com nova queima de fogos, além da coroação da Santíssima Virgem e outras manifestações que demonstram e confirmam a religiosidade do povo de Piacatuba – "Lugar de gente de bom coração".

O Relógio - Foram organizadas, em 1930, umas "esmolas sorteadas" (uma espécie de rifa) para aquisição do referido relógio que seria instalado na Torre da Cruz Queimada. Alguns dos bilhetes da "esmola sorteada" foram adquiridos por Maria do Carmo Côrtes Villela Fajardo (Ducarmo ou Carmita) e por seu marido, Manoel Fajardo Soares, então residentes na Fazenda da Torre (coincidências do destino), em Angustura-MG. Manoel era um dos filhos de Joaquim Fajardo e Guilhermina Fajardo.
 
Livreto conta a Lenda da Cruz Queimada – Em 1981, Waldemar Barbosa (Valinho), antigo e respeitado morador de Piacatuba, publicou, a partir de dados compilados, o livreto "História da Cruz Queimada – Nossa Senhora da Piedade – Período 1823 a 1981", cuja venda foi revertida em prol da manutenção da Torre-capela. Segundo a compilação, a queima da cruz teria ocorrido no ano de 1823. Contudo, ao longo de minhas pesquisas, ainda não localizei a fonte dessa informação. O que consegui apurar, até agora, é que o acontecimento teria se passado em 30 de setembro de 1847, como já mencionei anteriormente.
 
TV exibe a História da Cruz Queimada - Acredite, se quiser! - Em agosto de 1984, a partir de sugestão apresentada por este autor, que recebeu um prêmio pelo aproveitamento da idéia, o Programa "Acredite, se quiser" - Segmento Nacional, da extinta Rede Manchete de Televisão, produziu e transmitiu, em rede nacional, o episódio intitulado "A cruz de N. Sra. da Piedade", reconstituindo a história da Cruz Queimada de Piacatuba, narrado e mostrado pelo famoso ator Walter Forster, que esteve em Piacatuba.
 
Jornal Estado de Minas publica a Lenda da Cruz Queimada - No dia 8 de janeiro de 2002, a história da Cruz Queimada foi contada pelo Jornal Estado de Minas, que também estampou a foto da Torre de Piacatuba em sua Primeira Página. Ao longo de todos os seus mais de 150 anos de existência, a Lenda da Cruz Queimada já foi contada e reproduzida em variados canais, formas e veículos de comunicação – desde a via oral, passando pela imprensa, rádio, televisão, internet, etc.
 
No muro do colégio, a lenda da Cruz Queimada - Em 2009, alunos da Escola Pompílio Guimarães pintaram a lenda da Cruz Queimada, no muro do colégio, em cerca de quinze quadros – com aproximadamente 2m X 2m, cada um. Uma bela e criativa maneira de se fixar, divulgar representar o simbolismo religioso e o significado da Cruz Queimada para a história local e regional.
 
A Lenda da Cruz Queimada - A tradição local conta, com pequenas variações, a seguinte história da Cruz Queimada de Piacatuba:
"A luta pela posse de terras virgens na bacia do rio Pardo, entre duas famí­lias, foi um dos fatores do surgimento de Piacatuba, outrora chamada Piedade de Leopoldina, na primeira metade do sé­culo XIX. Uma gleba de terras foi doada, no dia 23 de agosto de 1844, pe­lo Capitão Domingos de Oliveira Alves, onde deveria ser instalada uma povoação, cuja padroeira seria Nossa Senhora da Piedade. Uma tosca cruz, com cinco ou seis metros de altura, foi colocada como demarcação da área doada. Para facilitar o trabalho a cruz foi fincada em terreno bastante arenoso.
Entretanto, um outro fazendeiro reinvindicava a posse daquelas terras e, inconformado com a demarcação, ordenou que a cruz fosse derrubada. Ele mandou que seus escravos esca­vassem ao pé da cruz, mas ela não se desprendia da terra. Irritado, o homem mandou que a cortassem em pedaços, mas os machados manejados pelos es­cravos, habituados com esse labor, nada conseguiram.

O fazendei­ro desconfiou de que estava acontecendo alguma coisa inexplicável e mandou que fosse feita uma grande fogueira, em torno da cruz. Os escravos juntaram lenha e gravetos e atearam fogo para queimá-la. Satis­feito, o senhor reuniu os cativos e regressou à sua fazenda. Duran­te toda a noite, o fogo ardeu sem parar. Na manhã seguinte, um dos escra­vos notou que esquecera a foice onde fizeram a fogueira e foi buscá-la. Ao se aproxi­mar, a cruz continuava em pé, somente chamus­cada, mas imponente. Diz-se, no lugar, que todos os ho­mens que tentaram destruir a cruz fo­ram castigados – doenças terríveis os acometeram e alguns tiveram morte trágica.

Por esse motivo, o nome Santa Cruz Queimada transformou-se em símbolo religioso e local de peregrinação. É ra­ro o habitante da Zona da Mata minei­ra que não tenha ouvido falar da prin­cipal atração do distrito de Piacatuba, em Leopoldina. Muitos devotos saem de longe, levando suas dádivas, em cumprimento a promessas atendidas."
 
PLINIO FAJARDO ALVIM – Pesquisador da História da Mata Mineira – Membro da Academia Ferroviária de Letras – Bisneto de Joaquim Fajardo e Guilhermina Fajardo.
 
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