02/11/2016 às 10h32min - Atualizada em 02/11/2016 às 10h32min

Augusto dos Anjos e Chico Xavier em Leopoldina

O professor federal aposentado, Zanoni Araújo, que ministrou aulas de ‘Técnica em Eletricidade’ na antiga Escola Parque, em Leopoldina, é leitor assíduo do jornal Leopoldinense.

No domingo, 30 de outubro, ele entrou em contato via telefone com a  redação para elogiar a matéria ‘Como e porque os restos mortais do Poeta permanecem em Leopoldina’, escrita por José Luiz Machado Rodrigues(Luja Machado) e Nilza Cantoni, publicada na página 4, da edição nº 318, de 28 de outubro de 2016, na  qual os dois pesquisadores detalham a história em torno do assunto. (Clique aqui para ver)

Encantado com o seu conteúdo, o professor Zanoni ofereceu ao jornal uma cópia da poesia ‘Recordação em Leopoldina’, psicografada pelo médium Chico Xavier na década de 1940, no Centro Espírita Amor ao Próximo, de Leopoldina-MG, ocasião em que o governo da Paraíba queria trasladar os restos mortais do Poeta para a sua terra natal. Segundo o professor Zanoni, a poesia psicografada mereceu elogios inclusive do famoso crítico Agripino Grieco.
Foto de Chico Xavier em Leopoldina-MG - Fotografia gentilmente cedida pela família de Oldemar Montenári
Uma das visitas Parque de Exposições de Leopoldina do então funcionário do Ministério da Agricultura, lotado na Escola Modelo de Pedro Leopoldo, Francisco de Paula Cândido (Em 1966, mudaria para o nome paterno de Francisco Cândido Xavier). O médium Chico Xavier, (O terceiro da esquerda para a direita) psicografou no Centro Espírita Amor ao Próximo sonetos atribuídos ao espírito de Augusto dos Anjos. Estes foram incluídos no livro "Parnaso de Além Túmulo". Na foto, da esq/dir: Isaltino Silveira, Washington Andries, Chico Xavier, Alcino Guanabara, Oldemar Montenári e Nicota.
Segundo relato manuscrito pelo professor Zanoni Araújo e entregue pessoalmente ao jornalista Luiz Otávio Meneghite, na década de 1940, Chico Xavier frequentava Leopoldina na condição de funcionário do Ministério da Agricultura no período de exposição agropecuária. Após o seu compromisso profissional na exposição, Chico Xavier e seu supervisor, Dr. Rômulo Joviano, se dirigiam ao Centro Espírita Amor ao Próximo, onde todos já o esperavam aguardando as mensagens psicografadas que seriam recebidas até altas horas da noite.

De acordo com o relato do professor Zanoni, o Dr. Rômulo era seu secretário na mesa de psicografia, fazendo pontas em lápis e trocando as folhas psicografadas. Foi numa dessas ocasiões que surgiu a poesia de Augusto dos Anjos em homenagem a Leopoldina onde ele próprio pediu que deixassem seus ossos em paz.

Confira publicação no YOUTUBE
Alziro Zarur - O Estafeta do Cristo de Deus, interpretando o poema de Augusto dos Anjos, psicografado pelo médio Francisco Cândido Xavier, em homenagem à cidade de Leopoldina, em Minas Gerais. (1945 - Chico Xavier trabalhando nessa cidade)


 
Recordações em Leopoldina(*)
Augusto dos Anjos
A sombra amiga destes montes calmos,
Meu pobre coração de anacoreta,
Amortalhado em fina roupa preta,
Desceu à escuridão dos sete palmos.
 
Viera o fim dos sonhos intranquilos,
Entre grandes e estranhos pesadelos,
Satisfazendo aos trágicos apelos
Da guerra inexorável dos bacilos.
 
A morte terminara o horrendo cerco,
Sufocando as moléculas madrastas...
Eram milhões de células nefastas,
Voltando à paz do túmulo de esterco.
 
Indiferente aos últimos perigos,
Meu corpo recebeu o último beijo
E comecei o lúgubre cortejo,
Sustentado nos braços dos amigos.
 
Em triste solilóquio no trajeto,
Espantado, fitando as mãos de cera,
Rememorava o tempo que perdera,
Desde as primárias convulsões do feto.
 
Porque morrer amando e haver descrido
Do Eterno Sol, do qual vivera em fuga?
Como é sombrio o pranto que se enxuga
Pelo infinito horror de haver nascido!...
 
Depois, vi-me no campo onde a dor medra,
Ao contato do chão frio e profundo,
Chegara para mim o fim do mundo,
Entre as cruzes e os dísticos de pedra.
 
Terrível comoção pintou-me a cara,
Na escabrosa cidade dos pés juntos,
Tornara-se defunta, entre os defuntos,
Toda a ciência de que me orgulhara.
 
Trêmulo e só no leito subterrâneo,
Sentia, frente à lógica dos fatos,
O pavor dos morcegos e dos ratos,
Dominar os abismos de meu crânio.
 
Meus ideais mais puros, meus lamentos,
E a minha vocação para a desgraça
Reduziam-se a mísera carcaça
Para o açougue dos vermes famulentos.
 
Em seguida o abandono, enfim, do plasma,
Os micróbios gritando independência...
E tomei nova forma de existência
Sob a fisiologia do fantasma.
 
Fugindo então ao gelo, à sombra e à ruína.
Do caos sinistro em que vivi submerso
Revelou-se-me a glória do universo,
Santificado pela Luz Divina.
 
Oh! Que ninguém perturbe os meus destroços,
Nem arranque meu corpo à última furna,
É Leopoldina a generosa urna,
Que, acolhedora, me resguarda os ossos.
 
Beije minhalma alegre o pó da rua,
Deste painel bucólico e risonho,
Onde aprendi, no derradeiro sonho,
Que o mistério da vida continua...
 
Bendita seja a Terra, augusta e forte,
Onde, através das vascas da agonia,
Encontrei em mim mesmo, em novo dia,
Pelas revelações de luz da morte.
 
(*) Espírito:  Augusto dos Anjos -Psicografia de  Francisco Cândido Xavier, do Livro: Poetas Redivivos
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