16/11/2016 às 20h42min - Atualizada em 16/11/2016 às 20h42min

Manifestantes são retirados da Câmara e seguirão para a Polícia Federal

Deputados criticaram grupo, que defende volta do regime militar. Maia afirmou que todos responderão a crime de depredação de patrimônio público e por entrada desrespeitosa no parlamento

por Hylda Cavalcanti
Rede Brasil Atual
Manifestantes interromperam a fala de deputados que estavam discursando sobre temas de seus estados.(Lucio Bernardo Jr./Agência Câmara)

Brasília – Somente depois de três horas da invasão do plenário da Câmara dos Deputados,  hoje (16), é que os quase 50 manifestantes deixaram o local. Eles foram retirados pela polícia legislativa no início da noite e escoltados pela Polícia Federal aos poucos, em grupos de três e quatro pessoas. Estão presos no Departamento de Polícia Legislativa e serão encaminhados para a Polícia Federal.

A secretaria geral da mesa da Câmara dos Deputados está investigando se o ato – que teve como objetivo pedir intervenção militar no país – consistiu em ação programada por alguma organização de extrema-direita ou se foi iniciativa espontânea, combinada por meio de redes sociais, versão dada pelos manifestantes.

Outra preocupação dos deputados em relação ao episódio se dá em relação à segurança do Congresso Nacional como um todo, à atuação da política legislativa e à forma como os manifestantes conseguiram entrar. Já que informações não confirmadas apontavam que alguns estavam armados – e para entrar no Congresso é preciso passar por vistoria e equipamentos de raio X.

Os integrantes do grupo dizem ter chegado a Brasília ontem, provenientes de vários estados, após iniciativa organizada por meio do WhatsApp e do Facebook. Alguns deputados tentaram negociar com eles a melhor forma de se retirar do local, uma vez que muitos pediram não ser conduzidos ao departamento de polícia legislativa e, em seguida, à Polícia Federal, onde seriam indiciados. Mas o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que não aceitaria qualquer acordo.

“É inegociável. Acordo a gente faz antes de ser observada qualquer baderna, com pessoas que prezam o respeito às instituições. Depois de invadirem o plenário, quebrarem a porta de vidro, não tem mais acordo”, disse. Maia afirmou que todos responderão a crime de depredação de patrimônio público e entrada no parlamento de forma desrespeitosa.

O primeiro-secretário da Câmara, Beto Mansur (PRB-SP), afirmou que assim que soube da invasão tentou ponderar com os manifestantes que o plenário não seria o lugar ideal para esse tipo de protesto, mas não confirmou se é verdadeira a informação de que alguns portam armas. Mansur contou que a retirada dos jornalistas e outras pessoas do plenário no momento da invasão pela segurança legislativa teve o intuito de evitar qualquer situação de violência que atentasse contra os profissionais.

No plenário, o grupo pediu a presença do presidente Michel Temer, de coronéis, cantou o hino nacional, gritou viva para o juiz Sérgio Moro (responsável pela ação da Justiça Federal na operação Lava Jato). Num discurso confuso, os manifestantes disseram, ainda, que o gesto deles marca um ato pela volta do regime militar ao país, o fim da corrupção e dos maus políticos, dos super salários e das altas aposentadorias.

Assim que entraram no plenário, os manifestantes interromperam a fala de deputados (que estavam discursando sobre temas de seus estados enquanto aguardavam ser registrado quórum para início oficial da sessão). Na confusão, uma das portas de vidro foi quebrada e pelo menos duas pessoas – uma assessora parlamentar e um dos manifestantes – se machucaram e precisaram ser atendidas no setor médico da Casa.

Fascismo

Os parlamentares, tanto integrantes de partidos aliados do governo como da oposição, demonstraram revolta com a invasão. “Isso é coisa de fascistas. Uma armação da ultra-direita que ficou animada depois da vitória do Donald Trump nos Estados Unidos e achou que poderia invadir esta Casa”, disse Chico Alencar (Psol-RJ). “É um absurdo. A volta à era dos extremos”, reclamou Betinho Gomes (PSDB-PE), que se preparava para discursar quando os manifestantes entraram.

Para Gomes, esse tipo de manifestação deve servir de alerta para os parlamentares, no sentido de o Congresso evitar desgastes com a população e passar a discutir melhor as matérias legislativas, evitando tramitações açodadas. “Sem um parlamento ativo, não se tem democracia”, acrescentou.

O deputado Vicente Cândido (PT-SP) afirmou que os parlamentares precisam “dar uma resposta a esses tipos de agressões” procurando fazer um trabalho mais atuante. Relator da proposta de reforma política, Cândido citou a tramitação da proposta da reforma como um exemplo de mudança que pode ajudar a reverter a má imagem da política como um todo, perante a população.

O peemedebista Darcísio Perondi (PMDB-RS), que é um dos mais próximos da base aliada do governo Temer e também estava no plenário no momento da invasão, disse que a democracia “exige mais respeito”. Perondi afirmou que o Brasil não comporta mais uma intervenção militar como pediram os manifestantes e ressaltou: “Eu falo aqui com a experiência de quem viveu várias fases do país. Já vi de perto a época da ditadura, a administração do PT e digo que a volta ao regime militar não é o melhor. Que continuemos seguindo pelo caminho da democracia”.

O deputado Aliel Machado (Rede-PR), que era o segundo inscrito para falar na tribuna, antes do episódio, ressaltou que o protesto dos manifestantes e a forma como foi feito consiste numa “afronta à Constituição brasileira”. “Estava no local e quero reforçar a nossa convicção, enquanto parlamentar, de que nós, parlamentares como um todo, não concordamos com isso. Atenta contra a nossa democracia, independente do pleito dessas pessoas. Não vamos melhorar a realidade do país, por pior que esteja, com uma intervenção militar”, disse.

A sessão foi imediatamente suspensa pelo vice-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PMDB-MA). O presidente, Rodrigo Maia, disse que os trabalhos seriam retomados até as 19h, inclusive como forma de mostrar que a normalidade foi restabelecida na Câmara – mas ainda não há confirmação se haverá quórum para isso.


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