27/11/2016 às 08h53min - Atualizada em 27/11/2016 às 08h53min

Espaço dos Anjos

Óleo sobre tela de Luiz Raphael Domingues Rosa

Por Alexandre Moreira
A casinha na Barão de Cotegipe, quase escondida pela folhagem do oiti que lhe faz companhia, debruça-se sobre a calçada, atenta ao movimento da cidade. O transeunte, distraído, em 5 ou 6 passos cruza por ela, absorto em seus pensamentos e alheio à sua graça brejeira e aos tesouros que abriga.

Na cidade que vai aos poucos se transformando, onde as antigas construções vão sendo impiedosamente substituídas pelo que a moda do momento dita como "novo", a casinha azul desafia o tempo. Espaço sagrado onde a História é cultuada, guarda tesouros que resistirão muito mais à inclemência dos séculos que as construções pseudo-modernas que teimam (inutilmente) desafiá-la.

A casinha discreta na rua de pomposo nome já ouviu os passos e a voz do poeta maior Augusto dos Anjos. Viu-o à mesa com a esposa e filhos, permitiu que a luz entrasse para iluminar o papel onde escrevia seus versos, protegeu-o como a um filho querido quando o mesmo agonizava.

Como se fora sua sina, eis que tempos depois recebeu, portas e janelas abertas, novo artista, para, novamente, servir-lhe de inspiração, abrigar-lhe os sonhos, tornar-se cenário para sua arte.

Este, também, um dia partiu e não mais voltou, mas a casa, saudosa, transformou-se, cresceu em reconhecimento, ampliou sua importância, assumiu, finalmente, seu papel e também escolheu manter viva a memória dos que um dia a escolheram para nela viverem.

O quadro  revela, na simplicidade da sua composição, na escolha cromática, nos pequenos, mas importantíssimos, detalhes que muitas vezes demandam que os observemos por mais tempo, o carinho do artista plástico, professor, colecionador e agitador cultural leopoldinenses, Luiz Raphael Domingues Rosa, para com a sua casa-atelier-museu Espaço dos Anjos. Nele, realmente, morou a família dos Anjos: Augusto, Ester, Glória e Guilherme. Mas se anjos servem como mensageiros entre o Divino e o humano, a casa cumpriu, e cumpre sua função por ter sido e ainda ser aquele espaço sagrado onde as Artes se manifestam e realizam. Um espaço construído com suor e lágrimas, mas com fé e esperança por Luiz Raphael.
 
 
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