25/06/2014 às 16h48min - Atualizada em 25/06/2014 às 16h48min

Entrevista Natânia Nogueira

Se houvesse um título de Embaixadora das Gibitecas, ele certamente iria para o município de Leopoldina, em Minas Gerais. E a cidade de 50 mil habitantes, na Zona da Mata mineira, vibraria numa só voz pelo reconhecimento do trabalho da professora Natania Nogueira. Porque se existe alguém mais dedicado a oferecer a oportunidade de leitura de histórias em quadrinhos para estudantes, por favor se apresente. A iniciativa dessa professora da história começou em 2007, na Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado, e serve como modelo para qualquer instituição interessada em ampliar o acesso aos quadrinhos. Ela conta que os gibis já despertaram o prazer pela leitura em muitas crianças e adolescentes. Isso sem falar na paixão desenvolvida pelas HQ's. "A Gibiteca é a sala mais conservada de toda a escola, mesmo sendo frequentada diariamente por alunos de todas as idades", conta a professora. Na entrevista a seguir, Natania dá dicas valiosas para quem deseja fazer um projeto semelhante.

DEUS NO GIBI – Qual a finalidade principal de uma Gibiteca? Gerar o prazer de leitura nos alunos ou funcionar como material de apoio para outras disciplinas?
NATANIA – As duas coisas e, também, quebrar a ideia negativa que se tem com relação aos quadrinhos, ainda considerados uma subleitura, coisa de criança. Quadrinhos podem ser uma forma de incentivar a leitura, podem ser um instrumento de ensino e uma forma saudável de lazer para todas as idades.

DEUS NO GIBI – Qual o espaço mínimo necessário e o volume de revistas necessários para se começar uma Gibiteca?
NATANIA - Eu trabalho com Gibiteca escolar. Comecei a primeira Gibiteca com 600 revistas. Hoje, sete anos depois, são 7000. Há pouco tempo, recebi uma doação de mais de 1000 revistas, que serão usadas para a criação de uma nova Gibiteca escolar, ainda este ano. Isso vai depender muito do espaço e do direcionamento que a escola vai dar ao uso dos quadrinhos. Há casos e professores que criam pequenas gibitecas dentro da sala de aula. Isso também é válido. Você tem que levar em conta o perfil da escola e da sua clientela, da criatividade do professor, do espaço disponível etc.

DEUS NO GIBI – É mais difícil convencer os alunos, de que os gibis contribuem para sua formação intelectual, ou os professores?
NATANIA - Os alunos aceitam muito bem a Gibiteca na escola. Ela é mais frequentada do que a biblioteca e os professores foram aprendendo a usar e a valorizar os quadrinhos. Nós realizamos, desde a instalação da Gibiteca, um trabalho de formação junto aos professores, com palestras, oficinas e seminários. A escola se envolveu
no projeto, os professores entenderam e apoiaram a proposta e os alunos passaram a participar mais das atividades relacionadas à leitura. Dos 5 aos 15 anos, todos leem quadrinhos e os professores se tornaram leitores também.

DEUS NO GIBI – Como avalia a sua experiência à frente desse projeto?
NATANIA - Não foi fácil e não é até hoje, mas é compensador. O projeto começou pequeno e foi crescendo junto com a escola. Eu posso dizer que cresci como profissional e pessoalmente, junto com ela. O projeto da Gibiteca conseguiu atingir aos alunos de forma muito positiva. Eles valorizam e cuidam do espaço. Gosto de dar o exemplo do cartaz que temos na porta da Gibiteca. Ele está lá há mais de dois anos, praticamente novo. Sem um risco, sem um recadinho, sem um nome escrito, fora o desgaste do tempo, está praticamente novo. A Gibiteca é a sala mais conservada de toda a escola, mesmo sendo frequentada diariamente por alunos de todas as idades.

 

DEUS NO GIBI – Aconteceu algum episódio que te fez compreender como esse tipo de iniciativa é importante para as crianças?
NATANIA - Vários. Mas um dos que mais me marcou foi quando abrimos para participação de alunos como voluntários. Fomos convidados, numa ocasião, a levar a Gibiteca para a rua, em um projeto social. Os meninos que se voluntariaram a ajudar praticamente tomaram conta do serviço todo sem que eu precisasse fazer quase nada. Aquilo me marcou. O compromisso, a dedicação e o prazer de poder fazer algo pela Escola, sabendo que não iriam receber nada em troca além de gratidão. Muitos voltam até hoje, para verificar como a Gibiteca está e alguns até fazem doações. Muitos desses meninos não gostavam de ler, mas passaram a gostar de ler graças ao trabalho com os quadrinhos.

DEUS NO GIBI – De que forma vê as críticas constantes de que os quadrinhos seriam um tipo de leitura mais fácil, e que as escolas deveriam incentivar mesmo é a leitura de livros?
NATANIA - São uma leitura fácil? Eu não tenho certeza disso. Veja bem, sou professora de história em uma outra escola, onde não se usam quadrinhos, não há Gibiteca. Coloque uma questão com uma tirinha em uma prova e veja os alunos se acabarem. Eles têm uma dificuldade enorme em fazer a leitura de imagem. Formar um leitor completo é formar alguém que consegue ler texto e imagem e os quadrinhos fazem isso. Não digo que seja uma leitura melhor, nem que seja pior. Boa leitura é aquela que te faz querer ler. Num nação de poucos leitores temos que incentivar a leitura, seja ela qual for. Além disso, se você for entrevistar leitores de quadrinhos que já são adultos vai perceber que eles leem de tudo, são leitores completos.

DEUS NO GIBI – Qual o maior erro que cometeu num projeto desse tipo e que não faria novamente hoje, pela experiência?
NATANIA - Acho que meu maior erro foi criar muita expectativa inicialmente e ser muito apegada. Achar que as pessoas iriam abraçar o projeto com o mesmo amor que eu estava abraçando. Tive que fazer uma conscientização muito grande junto aos colegas e alunos. No início foi difícil. Eu me frustrava, também, quando desapareciam revistas ou elas eram vandalizadas. Eram poucas, claro, mas isso me angustiava. Não que isso tenha acabado. Ainda ocorre, mas estou sabendo administrar melhor os pequenos problemas.

 

DEUS NO GIBI – É possível manter uma Gibiteca apenas com doações?
NATANIA - Claro! No nosso caso, praticamente a Gibiteca é mantida com doações. Inclusive nós chegamos a doar quadrinhos para professores de outras escolas que querem desenvolver projetos com seus alunos mas não possuem recursos. Praticamente o nosso acervo é composto de 98% de revistas doadas. Mas é preciso estar sempre fazendo contatos, pedindo apoio, doações e mostrar que as revistas estão realmente sendo utilizadas na escola.

DEUS NO GIBI – Qual o gênero e título preferido atualmente pelos alunos?
NATANIA - Sem dúvida, infantil e mangá, os quadrinhos de super-herói também tem uma saída muito boa. Os meninos adoram Naruto, as meninas são apaixonadas por Tina e Turma da Mônica Jovem.

Para saber mais sobre a Gibiteca da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado acesse:
http://gibitecacom.blogspot.com.br/

 

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