10/01/2018 às 21h22min - Atualizada em 10/01/2018 às 21h22min

Para Tarcísio Henriques Filho, cenário político de Cataguases é “desanimador”

“Precisamos pensar a Política como sendo mais do que conquistar e exercer o poder”

Antonio Trajano Vieira Cortez/Jornal Atual
Procurador da República e ex-prefeito de Cataguases (1993-1996), Tarcísio Henriques Filho não tem celular, nem facebook, confessando-se adepto dos jornais impressos, livros e revistas. Segundo ele, “isto é um defeito”, que seria típico de uma pessoa “antiga”, para usar uma palavra que ele próprio empregou. Mas suas ideias, em especial na política, não tem nada de arcaicas ou ultrapassadas. Ao contrário, estão em perfeita consonância com o que se defende em termos das boas práticas políticas.
 
Em entrevista concedida ao Jornal Atual – por e-mail, o que mostra que Tarcisinho não é tão arredio à era da internet – ele acredita que a adoção do voto distrital seria suficiente para reformar a política, pois “aproximaria o representante do verdadeiro dono do mandato político: o povo”. Recomenda ainda “a luz forte sobre tudo”, a mais ampla transparência para que o processo político se desenvolva de modo isento.
 
Filho do maior líder político da história recente de Cataguases, o ex-prefeito e ex-deputado estadual Tarcísio Henriques, ele define o cenário político do município como “desanimador”. Segundo Tarcisinho, existe a vinculação a um grupo político de fora: “estamos a reboque dos seus interesses enquanto continuarmos votando em seus candidatos. Não melhoraremos a Política da cidade assim”.
 
Por isto, defende que Cataguases apresente e vote em um candidato “da cidade” nas eleições para deputado federal e estadual. “Acho que estamos andando para trás e isto é algo que sinceramente me aborrece. Não podemos votar em candidatos de fora”.
 
Entrevista – Tarcísio Henriques Filho
 
ATVC-Como talvez nunca tenha acontecido antes, a política e os políticos estão desacreditados pela população. A política tornou desnecessária?
 
THF-Todos somos responsáveis por esta questão de “descrédito” atribuído por você à Política. Os eleitores por participarem do processo de modo automático, sem avaliar as propostas, sem se preparar para as escolhas eleitorais e por votar de qualquer jeito, acreditando em promessas que eles mesmos sabem que não vão se realizar. Os candidatos, por se envolverem no processo, se achando produtos comerciais, fomentando debates sem qualquer sentido prático e levando ao público e aos eleitores o que eles querem ouvir e não o que precisam ouvir. Os eleitos por assumirem seus cargos eletivos como se fossem cargos profissionais. Bom, todos somos responsáveis. Precisamos pensar que a Política continua sendo necessária, na medida em que a alternativa a ela é a briga permanente ou a guerra. Não acho que podemos encontrar uma alternativa melhor.
 
ATVC-Parece ser difícil chegar a um consenso sobre a reforma política e suas nuances com financiamento de campanhas, voto proporcional e coligações. Qual a sua opinião a respeito?
 
THF-A questão da reforma é que ela nunca vai enfrentar o problema mais importante: o vínculo que une eleitor e candidato. O processo eleitoral atual facilita a vida dos políticos e eles não vão mudar aquilo que lhes beneficia. Acredito que uma só reforma seria suficiente: o voto distrital. Só isto iria aproximar o representante do verdadeiro dono do mandato político: o povo. As outras alterações ficariam bem resolvidas com luz forte sobre tudo, ou seja, e aí o teu papel, a imprensa investigando e divulgando tudo para o público. Em minha opinião, o que é fundamental, no processo eleitoral, além do controle popular, evidentemente, é a mais ampla transparência ou, como queiram, a luz do sol incidindo sobre tudo. O eleitor precisa saber quem financia ou destina recursos para quem. Só assim o processo político poderia se desenvolver de modo isento, sem influências negativas e as escolhas seriam mais adequadamente feitas. No final, aqui também, aprendizagem... Agora, no outro ponto, sinceramente, sou forçado a ser contra o financiamento público por uma razão muito simples.
 
ATVC-E qual razão seria essa?
 
THF-O financiamento privado vai continuar existindo. Alguém, sinceramente, acha que os interesses privados vão se “afastar” do processo político? Sinceramente prefiro acreditar no coelhinho da páscoa.… Voto proporcional e coligações, na minha opinião, com o voto distrital se transformam em algo do passado, deixam de importar. Precisamos pensar a Política como sendo mais do que conquistar e exercer o poder. Ela só pode ser o que de fato é se nela envolvermos um esforço efetivo e prático para construir as instituições e, através delas, a vida melhor que todos queremos. Ela não pode continuar sendo uma atividade pensada para controlar, para subjugar as instituições. Se não agirmos assim vamos continuar submetidos aos interesses menores, parciais, que, ocupando os espaços, dominando nossos interesses, dominam nossas vidas e sonhos.
 
ATVC-Diante desse quadro, clama-se sempre pela renovação dos nomes, em especial do Legislativo. No entanto, essa renovação é sempre pífia. O senhor acredita que em 2018 será diferente?
 
THF-Renovação seria sempre desejável. O dono do mandato é o eleitor e ele deveria votar sempre no novo, até para que os vícios políticos fossem menores. Até o novo se contaminar com os vícios postos já é tempo de uma nova eleição, então começamos de novo o processo. Como sempre me diz o José, meu irmão, lembrando de uma sentença memorável do Eça de Queiroz, “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos, pelo mesmo motivo”. Sinceramente acho que o sistema anda se preparando para reeleger os mesmos nomes. Veja, por exemplo, o que andam falando sobre a destinação dos recursos partidários. São os próprios deputados que vão definir os destinatários destes recursos. Alguém acha que um nome novo terá chances?
 
ATVC-Como você avalia o cenário político cataguasense, em especial a atuação do prefeito Willian?
 
THF-O cenário político de nossa cidade é, na minha opinião, desanimador. Apresentamos na última eleição um candidato com todos os requisitos para assumir a Prefeitura e resgatar a boa Política e fomos derrotados por pouco. Mas como estou fora, sinceramente, de longe é difícil perceber algumas nuances do processo político. Tenho conversado muito com o Marco Antônio do Rodoviário Mineiro e fico sempre, nestas conversas, que precisamos nos mobilizar. Acho que estamos andando para trás e isto é algo que sinceramente me aborrece. Pelo que me consta as últimas obras de nossa cidade foram a Policlínica e o presídio, que por feliz coincidência, ambas resultado e demonstração do compromisso que papai tinha com a cidade. Cataguases já teve melhores condições de superar seus problemas e se preparar para um futuro melhor, mas infelizmente sua população prefere continuar subordinada a outros projetos políticos que não são os seus. Nos vinculamos a um grupo político de fora e estamos a reboque dos seus interesses enquanto continuarmos votando em seus candidatos. Não melhoraremos a Política da cidade assim. Mas o eleitor é o responsável por isto, ele escolhe e é ele mesmo quem sofre com a escolha que fez. Este o processo que ele precisa compreender, até mesmo para escolher melhor seus candidatos.
 
ATVC-Cataguases tem condições de ter representante próprio na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa?
 
THF-Sim, tem e já mostrou isto no passado recente. Só não podemos votar em candidatos de fora.
 
ATVC-Você é pré-candidato a deputado federal?  Fernando Pacheco é o nome mais indicado para buscar a vaga na ALMG?
 
THF-Não sou dono de meu destino. Não tenho, nem nunca tive projeto pessoal. Só serei candidato se meu grupo político definir que meu nome tem condições de ser apresentado aos eleitores como representante daquelas ideias que temos e que foram expostas na campanha do Fernando. Tenho acompanhado o processo de escolha dos candidatos e acho, sinceramente, que o Fernando ainda é o nome mais indicado para a nossa vaga na Assembleia Legislativa em Belo Horizonte, como também continua sendo o melhor nome que temos, no quadro político atual, para fazer a Prefeitura de novo funcionar. Isto pode ser comprovado com o resultado da última eleição que tivemos. Nós disputamos a eleição com dois ex-prefeitos e o Fernando de longe teve a melhor campanha, com poucos recursos – o que diz muito sobre a forma como se faz política em Cataguases. Mas isto é uma outra eleição.

ATVC-Você pensa em ocupar pela segunda vez a Prefeitura de Cataguases?

Não me passa pela cabeça voltar ao Executivo Municipal, até porque estou convicto de que não faria nada melhor do que fiz na primeira vez. Ninguém, à exceção do papai, consegue fazer isto diferente do que costumeiramente é. Agora, não abro mão de participar do processo político daí. Acho que precisamos, nós que verdadeiramente gostamos da cidade, de nos envolver nas discussões de seus destinos. Por isto a convocação que fizemos na última eleição. Tenho, e acalento todo dia, a esperança de ver Cataguases voltar a ser o que foi.

ATVC-Você não usa celular, não tem facebook e se dizer feliz com isto Por que essa decisão de não usar essas tecnologias? Como você faz para, estando em BH, estar sempre informado sobre Cataguases?

THF-Nunca vi nenhuma vantagem em substituir um bom jornal pelas informações viabilizadas através das redes. Nada substitui um bom café da manhã lendo o jornal do dia. Acho que o dia em que o jornal de papel morrer eu vou morrer junto. No mesmo sentido, prefiro buscar informações em livros, pesquisas em bibliotecas e em revistas especializadas do que ficar “lançando” filtros no google. Isto é um defeito, reconheço, mas sou muito antigo. Em BH estou sempre nos mesmos lugares ou em sala de aula e neles não posso ficar atendendo celulares, então é melhor nem usá-los. Recebo informações frequentes de nossa Cataguases através dos amigos que ainda tenho por aí. De vez em quanto ligo e peço notícias. É uma pena termos perdido o hábito de enviar cartas. Adoraria receber cartas com as “fofocas” daí.
 
 
 
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