28/05/2018 às 19h38min - Atualizada em 28/05/2018 às 19h38min

Quem apoia Pedro Parente e quem quer sua demissão?

Temer e 'mercado' ainda o defendem, mas greve de petroleiros pode alimentar coro da classe política por sua saída

por Miguel Martins
Carta Capital
Temer reagiu aos ataques a um "técnico dessa qualidade" (Marcos Corrêa / PR)

A partir da deflagração da greve dos caminhoneiros, Pedro Parente, presidente da Petrobras, passou a ser pressionado por diversos setores da sociedade. Embora os atos nas rodovias não mirassem o dirigente, o diagnóstico de que a crise de desabastecimento está relacionada à política de preços da estatal foi compartilhado por nomes das mais variadas correntes políticas e categorias sindicais.

A pressão pela demissão de Parente foi alimentada não apenas por representantes do campo progressista, entre eles o presidenciável Ciro Gomes, do PDT, mas também por quadros conservadores como Eunício Oliveira (MDB-CE), presidente do Senado, o senador tucano Cássio Cunha Lima (PB) e a senadora Ana Amélia (PP-RS).

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Apesar da publicação, neste domingo 27, de um pacote que inclui a redução do preço do diesel em 46 centavos pelos próximos 60 dias, a pressão pela mudança na política de preços e pela saída do "CEO" da Petrobras promete se intensificar após os petroleiros declararem greve de 72 horas a partir da quarta-feira 30. A continuidade dos bloqueios realizados pelos caminhoneiros mesmo após o acordo pode tornar o cenário ainda mais explosivo.

Enquanto sofre pressões no mundo político e sindical, Parente continua a ser blindado pelo governo e por parte significativa da mídia e do 'mercado'. O esforço do governo em assumir o ônus fiscal de sua política à frente da Petrobras indica que sua saída não está no horizonte de preferência de Temer.

Segundo relatos, o presidente reagiu às pressões pela demissão e aos ataques a um "técnico dessa qualidade". Apesar do emedebista defender seu subordinado, a situação não tem sido positiva para a Petrobras. Nos últimos cinco dias úteis, a queda acumulada das ações chega a quase 30%. Nesta segunda-feira 28, elas registraram recuo de 8%.

A greve dos petroleiros pode dificultar essa blindagem. Ao contrário dos motoristas de caminhões, que elegeram a redução de impostos e outros benefícios práticos como pautas prioritárias, os petroleiros há muito criticam a nomeação de Parente para a presidência da estatal e denunciam as consequências de sua política de reajustar os preços conforme as flutuações da cotação internacional dos combustíveis.

A categoria alerta ainda que a volatilidade dos preços dos combustíveis está relacionada ao aumento das importações de derivados de petróleo e à redução das atividades das refinarias brasileiras após a posse do executivo.

Em meio à nomeação de Parente, em 2016, os petroleiros afirmaram que sua posse era "a volta do PSDB à Petrobras". O executivo foi responsável por chefiar o chamado "ministério do apagão", quando FHC criou um grupo de trabalho em 2001 para gerenciar e unificar as ações de racionamento do governo. À época, Parente participou dos debates para mudar o nome da estatal para Petrobrax, com o suposto objetivo de ampliar a presença da marca no cenário internacional.

No início da crise de desabastecimento, os petroleiros já tinham Parente como alvo principal. Quando a Petrobras anunciou mais um aumento, de 1%, nos derivados do petróleo na terça-feira 22, a categoria afirmou, em nota, que o presidente da estatal colocava "combustível na greve dos caminhoneiros". No dia seguinte, com a multiplicação das paralisações, o próprio Parente foi obrigado a ceder.

De acordo com relatos da mídia, o executivo só convocou uma primeira reunião sobre a crise no final da manhã da quarta-feira 23. Nada foi decidido, pois o governo ainda negociaria com lideranças do movimento. Naquela mesma data, às 17 horas, um novo encontro levou a estatal a cortar em 10% o valor do diesel das refinarias por 15 dias.

Parecia um recuo da política de preços, mas o governo entrou em ação para preservar Parente. Ao admitir que bancará a redução do diesel pelos próximos 60 dias, a equipe de Temer deixou claro que procura solucionar a crise sem interferir na atual estratégia da estatal.

Antes da crise chegar ao seu auge, Parente garantiu que a política de preços da Petrobras não iria mudar. No dia seguinte, o anúncio da queda do valor do diesel assustou os agentes econômicos e os investidores da estatal. As ações chegaram a cair 15% na quinta-feira 24.

A demissão de Parente e uma consequente mudança na política de preços certamente teria impactos negativos para a estatal na Bolsa, mas a continuidade da atual crise, que pode ser ampliada com a paralisação de novas categorias, também pode trazer prejuízos para o 'mercado'.

Ao pedir a demissão de Parente, Cássio Cunha Lima afirmou: "Um governo minimamente sólido já o teria demitido". Como o próprio senador sabe, não é o caso.

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