15/06/2018 às 09h08min - Atualizada em 15/06/2018 às 09h08min

Professor de história sugere a Vereadores nome do jornalista Gama Filho para rua no Pirineus

Pela proposta a atual rua General Olímpio Mourão, onde está localizada Escola Estadual Sebastião Silva Coutinho (Polivalente), mudaria de nome.

Edição> Luiz Otávio Meneghite
Gaminha com a esposa Dora e filhos Laís e Leonardo Gama
O Professor  de História da Rede Estadual de Ensino, Rodolfo Alves Pereira, encaminhou no dia 13 de junho de 2018, uma carta dirigida aos Vereadores Pastor Darci José Portela, Ivan Martins Nogueira e José Ferraz Rodrigues, propondo a substituição do nome da atual rua General Olímpio Mourão Filho, segundo ele “um militar envolvido em vários episódios que atentaram contra a democracia”, pelo nome do jornalista leopoldinense Gama Filho, falecido em 22 de maio de 2015, aos 58 anos, vítima de infarto fulminante.
 
A carta dirigida aos Vereadores
 
O jornal Leopoldinense teve acesso à carta dirigida aos parlamentares que integram a Câmara Municipal de Leopoldina. Eis a íntegra do documento:
 
Leopoldina (MG), 13 de junho de 2018.
 
Senhores (as) legisladores (as) representantes do povo leopoldinense,
Em diversos momentos de nossa história republicana enfrentamos turbulências políticas, crises e conflitos sociais, os quais resultaram em movimentos que atentaram contra a democracia, as liberdades individuais e os direitos civis da população. Nesse sentido, nas diversas ocasiões em que o autoritarismo se apossou do Estado brasileiro, ele proibiu greves, perseguiu e eliminou opositores, impôs à censura aos meios de comunicação e cerceou direitos fundamentais para a cidadania e a liberdade do povo.
 
A memória é um elemento indispensável para o povo, portanto, cabe a todas as instituições democráticas e à sociedade preservá-la afim de construirmos uma cultura fortemente calcada em ideais de liberdade, igualdade, respeito às diversidades, tolerância e paz social. Somente assim evitaremos novos atentados contra o regime democrático e asseguraremos a solidez do Estado de Direito.
 
Dito isto, nos dirigimos a esta casa sugerindo que modifique o nome da rua Olímpio Mourão Filho, no bairro Pirineus, tendo em vista que o referido personagem, general do exército, participou ativamente de golpes contra o regime democrático. Além de ter sido membro da Ação Integralista Brasileira, de marcante influência fascista, ele redigiu o Plano Cohen, o qual resultou na implantação do Estado Novo (1937-1945); também conspirou contra o presidente legítimo – João Goulart – iniciando, em março de 1964, movimento com tropas militares culminando no afastamento do presidente do cargo. Como se percebe, o histórico de ativismo político do militar esteve sempre à favor do autoritarismo, contra, portanto, a liberdade que almejamos.

Com a manutenção da memória de personagens tão controversos em nosso cotidiano e no imaginário coletivo será que estamos contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa, estável e com cultura verdadeiramente democrática? Evocamos as palavras do cientista político Evaldo Vieira, para o qual a ditadura continua inacabada, pois até os dias de hoje muitos dos agentes do autoritarismo “conservaram ou viraram nomes de logradouros públicos (avenidas, ruas, estradas, viadutos, praças etc.), condecorados e aposentados”. Em suma, agentes públicos e civis que cometeram crimes no passado e, em virtude da Lei da Anistia de 1979, ficaram impunes e ainda permanecem vivos no imaginário coletivo, alimentando grupos minoritários contrários ao regime democrático e defensores do ódio e da intolerância.
 
Portanto, sugerimos que a supracitada rua receba nova denominação, passando a ser chamada rua “Jornalista Jair Patrocínio Gama”, popularmente conhecido como Gama Filho. Ele faleceu em 2015, foi fundador e editor do jornal Tribuna do Povo e tem excelentes serviços prestados à sociedade leopoldinense. Em nota no site do jornal Leopoldinense, foi publicado o seguinte sobre a trajetória de Gama Filho:
 
“Um personagem importante dentro do desenvolvimento sócio-cultural da cidade de Leopoldina e da Zona da Mata Mineira. Além do espírito positivo que possuía, foi um incansável batalhador das boas causas. Exerceu as funções de diretor de Comunicação do Brasília Country Clube, e de diretor executivo do Sindjori MG. Foi homenageado com a Medalha do Mérito Leopoldinense e recebeu diversas homenagens, sendo: da Associação dos Bairros Bela Vista, São Cristóvão e São Sebastião, do E.C. Ribeiro Junqueira, Lions Clube Omar Peres, Medalha do Mérito Legislativo outorgado pela Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais, Mérito Reconhecimento da Polícia Civil, outorgado pela Secretaria de Estado da Segurança Pública de Minas Gerais, diplomas de Colaborador da PMMG, do 21º Batalhão com sede em Ubá, Diploma do Mérito do Comando Geral da PMMG, a nível estadual, e da CEDEC MG, outorgado pelo Gabinete do Governador do Estado de Minas Gerais.
 
Não resta dúvida acerca da importância de se preservar a memória de um cidadão de bem, o qual sempre esteve ao lado da democracia e é um exemplo de generosidade e de pessoa comprometida com o bem-estar social. Ao mesmo tempo, o poder público tem a oportunidade de, pedagogicamente, corrigir a distorção levada adiante pela Lei nº 808 de 09/08/19724, a qual denominou uma rua de nosso município com o nome de uma figura tão controversa que defendia ideais flagrantemente antidemocráticos.
 
Há que se ressaltar a existência de precedentes de instituições públicas que tomaram a atitude na alteração de seus nomes, caso ocorrido em 2015, por exemplo, com um colégio em Salvador. A comunidade escolar optou por abandonar o nome Emílio Garrastazu Médici e em seu lugar foi escolhido o de Carlos Mariguella, guerrilheiro e símbolo da resistência à ditadura militar brasileira.
 
Pelo exposto, solicitamos ao Poder Legislativo Municipal que considere a presente sugestão, considere também a memória das vítimas da ditadura e do horror gerado pelo Estado autoritário. Com a discussão e adoção da medida ora proposta, acreditamos, que ela será um passo simbólico importante para construirmos juntos uma cultura ancorada nos valores democráticos. Dessa forma, esperamos que o povo seja capaz de suportar quaisquer turbulências políticas e econômicas sem optar por vias que se afastem do direito e das garantias fundamentais à dignidade humana.
 
Atenciosamente,

 

Rodolfo Alves Pereira
Professor e cidadão leopoldinense

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