15/06/2020 às 10h09min - Atualizada em 15/06/2020 às 10h09min

NOTA PÚBLICA DO MOVIMENTO NEGRO DE LEOPOLDINA

“É PRECISO SER ANTIRRACISTA”.

Assistimos, nesses dias, uma onda de protestos nas ruas dos Estados Unidos, que se espalharam por outras partes do mundo, desencadeadas pelo assassinato pela polícia, de George Floyd, homem negro, 46 anos, no dia 25 de maio. No mesmo mês de maio, também foram assassinados pela polícia, desta vez no Brasil, no dia 17, o adolescente João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, e no dia 20, o jovem João Vitor Gomes da Rocha, 18 anos, ambos no Rio de Janeiro, ambos também negros. Maio é o mês em que nossa historiografia registra o dia 13 como o “dia da Abolição da Escravatura”. Mas o Movimento Negro brasileiro, à luz da realidade e detida reflexão, ressignificou essa data e a considera o Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo. Os fatos acima narrados, que não são isolados, demonstram o acerto desta proposição. Pois o racismo, tanto lá, como aqui, continua sendo um elemento presente no cotidiano de toda a população negra, impossibilitando o pleno exercício de direitos, como trabalho, educação, moradia, lazer, segurança, interrompendo sonhos, destruindo famílias e ceifando vidas, como as de Floyd, João Pedro e João Vitor.

A experiência e a História já evidenciaram que o racismo é mais que um fenômeno individual isolado e praticado em certos momentos por alguns indivíduos por falta de educação, conhecimento ou algum desvio de caráter como muitos ainda querem crer, mas está entranhado nas estruturas de nossa sociedade, do Estado e de suas Instituições, constituindo um elemento estrutural e estruturante de nossa brutal desigualdade sociorracial, que justifica e legitima a construção histórica de discursos de  inferioridade e subalternização da população negra, possibilitando a indiferença e a naturalização ante os ataques frequentes à sua cultura, religião, direitos e sua aniquilação simbólica e física, como o genocídio da juventude negra, pobre e periférica a muito denunciado e com pouco ou nenhuma medida eficazmente tomada pelas autoridades públicas e políticas que tem, ou deveriam ter, o dever de fazê-lo. E nesse sentido vemos como boa nova os protestos contra o racismo e a violência policial seletiva ocorridos nos EUA e espalhados pelo mundo motivados pelo assassinato de Floyd, bem como as vozes que se levantam e também protestam contra os assassinatos de João Pedro e João Vitor por aqui, congregando negros(as), brancos(as) e todos(as) quantos se solidarizam com essa causa e não podem mais assistir passivamente o estado de coisas bárbaras que acomete desde sempre a população negra no Brasil e no mundo.

Propositadamente emitimos esta Nota passados alguns dias desses acontecimentos para rememorá-los, mas também para afirmar nossa convicção de que a luta e a mobilização contra o racismo não deve ser esporádica e somente acionada em momentos de comoção social de crimes que vem à luz, mas deve ser uma constante e prática diária de toda a sociedade que deseja uma realidade efetivamente justa, democrática e antidiscriminatória.

O Movimento Negro de Leopoldina conclama, pois, a todos e todas que se solidarizam e reconhecem a justiça da causa antirracista, bem como ao poder público, a atuarem ativamente na promoção da igualdade racial e na extinção de discursos, práticas, costumes e símbolos racistas ainda existentes em nossa cidade, sugerindo desde já, como já o fizera antes, ações de reparações de cunho simbólico como: a retomada das discussões da Instituição do feriado municipal do dia 20 de novembro, a instalação, já aprovada em Conferência da Igualdade Racial, do busto do Mestre Vitalino em praça pública(uma indicação do falecido vereador Rosalvo com essa proposta foi votada e aprovada por unanimidade na Câmara Municipal), e a mudança de nome de nosso principal logradouro central, a Rua Barão de Cotegipe, único senador a votar contra a chamada lei  áurea em 1888, por um nome que de fato, dignifique e encarne causa humanitária e antirracista. Conclamamos ainda que os eleitores e eleitoras em geral, e a população negra, em particular, neste ano em que teremos eleições municipais, procure se inteirar das propostas de políticas públicas de promoção da igualdade racial e antirracista dos candidatos e candidatas que se apresentarem e direcione seu voto a quem estiver efetivamente comprometido e comprometida com esta pauta. E finalizamos com a lição que nos foi legada pela intelectual negra Angela Davis que para nós constitui um imperativo ético e uma exigência nos tempos que correm: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista.”

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