05/09/2014 às 19h57min - Atualizada em 05/09/2014 às 19h57min

82,8% nunca foi entrevistado em pesquisa eleitoral

Maioria dos leitores nunca foi entrevistada em pesquisa eleitoral.

A enquete do Jornal Leopoldinense Online que ficou disponível para votação de sexta-feira, 29/8 a sexta-feira, 5/9,  perguntava: Você já foi entrevistado em alguma pesquisa eleitoral? O resultado você vê abaixo:

Não: 82,8%

Sim: 17,2%

Para avaliação do tema pesquisa eleitoral, publicamos abaixo um artigo do Alexandre Sylvio Vieira da Costa, Engenheiro Agrônomo-Professor Adjunto -Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e colunista semanal do Jornal Leopoldinense.

As tendências das eleições

Finalmente após anos acompanhando as pesquisas eleitorais pela televisão e jornais, vejo os jornalistas descrevendo as principais informações das pesquisas e não apenas um número simples e frio que durante muito tempo foi interpretado de forma equivocada. Quando citam as pesquisas reforçam as informações sobre margem de erro, número de eleitores pesquisados e, recentemente, intervalo de confiança, fatores de extrema importância na interpretação dos resultados.

Em primeiro lugar vamos analisar o número de eleitores que participam destas pesquisas: cerca de 2400 pessoas e que devem representar a opinião dos eleitores brasileiros, cerca de 135 milhões de pessoas. Este processo é chamado de amostragem. Existe a chance de errar? É claro! Por conta disto a primeira análise é a margem de erro e que está associada ao número de pessoas que participam da pesquisa. Quanto maior o número de pessoas entrevistadas, maior será a precisão dos resultados e, consequentemente menores as chances da pesquisa errar, a chamada margem de erro. Mas então, porque não se faz uma pesquisa com um número maior de pessoas? Custo meu amigo! Quanto maior o número de pessoas entrevistadas, maior será o custo da pesquisa. A maioria das pesquisas utiliza uma margem de erro de 2% para cima e para baixo. Desta forma, o candidato A que está com 30% dos votos na pesquisa eleitoral, na realidade ele não tem 30%, mas com valores de 2% para mais e para menos da margem de erro, a pesquisa garante, parcialmente, que o candidato teria, se a eleição fosse hoje, entre 28% e 32%. Se o candidato B apontar nas pesquisas com 27% dos votos, na verdade a estatística descreve ele com valores entre 29% e 25%. Desta forma entramos na primeira avaliação correta e não indutiva dos resultados. Se avaliarmos apenas os números fixos, verificamos que o candidato A está na frente do candidato B, fato que a pesquisa não garante pois o que interessa é o intervalo da margem de erro. Como existe uma sobreposição de valores, ou seja, os valores do intervalo de um candidato coincidem, por menor que seja, com os valores do outro candidato, a estatística afirma que eles estão tecnicamente empatados.

Atualmente um segundo fator entrou no vocabulário dos candidatos em relação às pesquisas: o intervalo de confiança. Vamos voltar ao candidato A que está com votação variando entre 28% e 32%. A pesquisa também não pode afirmar com 100% de certeza de que, se a eleição fosse hoje, a votação do candidato estaria dentro deste intervalo. Desta forma, antes de iniciar as pesquisas, é calculado o intervalo de confiança, significando que, o candidato tem uma determinada garantia de que a votação dele estará dentro daquele intervalo. Esta confiança deverá ser de, no mínimo, 95%, ou seja, existe ainda a probabilidade de 5% das pesquisas estarem erradas, ou a votação do candidato A ficar fora da faixa entre 28% e 32%. Para aumentar esta confiança seria necessário fazer a pesquisa com um número maior de pessoas, fato que elevaria  custo da pesquisa.

Podemos verificar que nenhuma pesquisa de opinião é 100% confiável, mas nos mostram uma tendência de como as pessoas estão pensando. No próximo artigo vamos analisar o grande problema das pesquisas:  a coleta das informações em campo. Você já foi entrevistado em algumas destas pesquisas eleitorais?

No Brasil temos informações de todos os tipos. As informações são coletadas por diversos órgãos como IBGE, Fundação João Pinheiro, dentre outros. Estas informações são extremamente importantes em vários aspectos, principalmente no direcionamento das políticas públicas, mas no caso das pesquisas eleitorais, servem como base para saber o que as pessoas estão pensando sobre os candidatos. Graças ao censo e a outras pesquisas amostrais sabemos com grande precisão quantos homens e mulheres existem no país e são eleitores, as idades, escolaridade, rendimento, onde mora, se é atendido pelas políticas públicas, dentre outras diversas variáveis. Esta segmentação de informações torna-se importante no momento de definir quantas pessoas serão entrevistadas em cada grupo.  Por exemplo, se temos mais pessoas, eleitores, na classe C em relação a classe A, a proporção de pessoas que serão entrevistadas na pesquisa deverá ser maior da classe C em relação a classe A. Esta divisão também deverá ser respeitada em relação aos demais fatores como sexo, idade e escolaridade.

Com o quadro de grupos de pessoas definido, os pesquisadores definem as regiões do Brasil onde serão selecionados os entrevistados. Na região Sudeste, por exemplo, onde temos a maior densidade populacional do Brasil, teremos o maior número de entrevistados, respeitando-se a proporção também para as demais regiões e estados. Com tudo definido, os funcionários dos institutos de pesquisa iniciam a coleta das informações em campo e é aí que os problemas começam.

As avaliações dos candidatos pelas pessoas, principalmente pelas de baixa renda e escolaridade, grupo que predomina no Brasil, tende a apresentar um caráter pessoal. Por exemplo, grupo de pessoas da classe D e E que recebem o bolsa família e o grupo que não recebe, ou o grupo de pessoas que receberam casas do programa minha casa minha vida e o grupo que não recebeu. Estas pessoas tendem a ter opiniões distintas em relação ao candidato que está no poder ou de um candidato que já foi gestor público e que, de uma forma direta contribuiu ou não para a sua melhoria de vida. A maioria dos eleitores brasileiros não estão interessados em saber se fulano ou sicrano é corrupto, mas se tem água tratada na sua torneira, rede de esgoto, escola para as crianças, posto de saúde com médico para atender aos doentes, ajuda financeira no banco para alimentação, dentre outros pontos que interferem diretamente na vida do cidadão. Isto fica claro quando vemos um candidato a governador que foi flagrado recebendo dinheiro ilícito em um evidente ato de corrupção e que está na frente das pesquisas eleitorais deste mesmo estado, ou como escutamos durante décadas a respeito de um gestor do Estado de São Paulo onde a frase mágica das pessoas era: “ele rouba mas ele faz”.

As pesquisas eleitorais realizadas de forma séria, técnica e idônea são confiáveis e realmente refletem uma realidade de momento em relação aos eleitores, mas muitas não são. Por isto, devemos sempre confiar, desconfiando.

 


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