18/12/2020 às 13h20min - Atualizada em 18/12/2020 às 13h20min

Petrópolis, aqui vou eu!

Decio Fontanella
Décio Fontanella nasceu 1935 na Fazenda Luziânia, em Leopoldina, onde viveu até 1968, quando se mudou para São Paulo. Hoje vive com a família em Mogi Mirim, SP.
Recentemente me dei conta de que uma de minhas filhas, quando tinha 40 anos, já tinha morado em 27 casas. Será que esta vontade de mudar está no sangue?

Meus avós, por exemplo, num rigoroso dia de inverno, saíram do vilarejo de Strona, na região do Piemonte, Itália, pegaram um trem a vapor e foram até Gênova, de cujo porto partiram em janeiro de 1899, com cinco filhos com menos de nove anos de idade, para uma viagem transatlântica de cerca de 25 dias de duração. O navio “Aquitaine” fez parada em Marselha e na Ilha da Madeira, enfrentou o mar e chegou ao porto do Rio de Janeiro.

Do Rio, ao que tudo indica, pegaram imediatamente um trem até Juiz de Fora, onde ficaram alojados na Hospedaria dos Imigrantes por 4 dias com outras vinte pessoas ali acolhidas. No quinto dia, em 23/2/1899, pegaram outro trem e desembarcaram no município de Leopoldina, na Estação de Santa Izabel – hoje Abaíba. Estabeleceram-se na Fazenda Luziânia.

Chegaram, portanto, em pleno verão tropical, tudo muito diferente do que conheciam: a cor da terra era de um vermelho nunca visto, o sol brilhava sem misericórdia, as árvores pesadas, com mangas que chegavam a quase 1kg cada uma, o ar denso, quente e úmido. De parecido com a também linda região de Strona, encontraram em Leopoldina as montanhas esverdeadas que, se impedem a visão física do horizonte, podem também suscitar querer romper barreiras.

Eu sei que o contexto socioeconômico italiano à época foi fator decisivo para emigração de meus avós. Mas, mesmo assim, por pior que tenha sido esse contexto, aventurar-se e cruzar o Atlântico? Talvez nessa decisão tenha havido um algo mais, um desejo de mudança, uma inquietação que eu acredito que tenha sido passada para toda a família.

O Tiro de Guerra

Foi talvez com essa inquietação que pedi transferência para a agência do Banco Ribeiro Junqueira de Petrópolis logo depois que terminei o Tiro de Guerra, com 18 anos.

Fazíamos o Tiro de Guerra sempre fora do expediente de trabalho, de tal forma que eu continuava no meu emprego no banco. Uma ou duas vezes por semana, às vezes no sábado e no domingo, às vezes depois do trabalho, às vezes até nos feriados. Eu fiz com o meu amigo Antônio Augusto Cabral, filho do Milton Cabral, que era o contador do banco.

O grupo se reunia lá próximo do Colégio Leopoldinense, do outro lado do Feijão Crú, havia uma espécie de praça de esportes, uma área enorme de terra onde se jogava pelada e basquete.

O Tiro de Guerra era meio que um rito de passagem, o menino se tornava adulto, e eu pedi transferência para Petrópolis, pois três dos meus irmãos, Elmo, Mauro e Luiz, e mais a minha irmã Laura, viviam e trabalhavam na fábrica de tecidos Cometa daquela cidade. Eu fiquei morando com minha tia Cuqui (Constantina), irmã da mamãe, e suas três filhas, Mariquinha, Aparecida e Laura. A casa ficava no Alto da Serra.

Antes de morar no Alto da Serra, tia Cuqui morou num outro sobradinho perto da estrada de ferro. Um dia, seu filho Juvenil estava sentado no murinho da varanda, caiu nos trilhos e faleceu. Seu único filho homem. Tinha 25 anos quando morreu.

Foram dois anos com tia Cuqui. Eu não ia muito à cidade porque o Alto da Serra era longe do centro, tinha que pegar ônibus. Na serra o ar era leve, o frio era um tirano, a terra encharcada, hortênsias floridas por todos os lados. Eu aproveitava a vida com essa família grande que se formou em Petrópolis, meus irmãos, minhas primas, tia Cuqui. Moravam todos perto. Só mamãe e meu irmão Arlindo que não estavam lá.

Um encontro inesperado

Numa ocasião, a agência de Petrópolis organizou uma visita à matriz, em Leopoldina. Foi um final de semana muito, mas muito especial. Viemos todos de ônibus. Haviam organizado uma partida de futebol do time dos funcionários da agência de Petrópolis contra – olha só que covardia – o time do Ribeiro Junqueira. Perdemos de 11 a zero! Depois do jogo tomamos banho e fomos ao jantar em nossa homenagem organizado pela matriz no Clube Leopoldina. Foi aí que eu conheci e, depois, comecei a namorar uma das funcionárias da matriz, a linda e vivaz – e ela continua linda e vivaz – Maria José Domingues Barcellos. Eu tinha uns 20 anos. Aquele final de semana talvez tenha sido um dos mais significativos da minha vida. Foi inesquecível.

Na agência de Petrópolis eu, como havia sido treinado na matriz de Leopoldina, percebi que tinha mais experiência em serviço de banco que meus colegas. Talvez tenha ensinado mais do que aprendi. O contador daquela agência era gente muito boa, seu nome era Jair mas, que pena, agora não me lembro seu sobrenome. Se o meu interesse era subir na vida indo para Petrópolis, isso não ocorreu. Na verdade, não tive promoção nenhuma. Mas alguma coisa em mim mudou, eu saí de casa, saí da minha cidade pela primeira vez.

À casa torna

Dois anos de Petrópolis e eu voltei para o banco em Leopoldina e aí eu comecei mesmo a trabalhar. Já não era aquele menino de 12 anos e tampouco o de 18 do tempo do Tiro de Guerra. Já estava mais maduro, já tinha uma namorada e já tinha uma compreensão do enorme tamanho do banco e da importância do meu trabalho. Eu cuidava das transações entre as 50 agências do banco. Um cliente com conta na agência de Porto Novo poderia fazer um depósito ou saque na agência de Sapucaia, por exemplo. Essa informação era registrada em cinco vias de papel de diferentes cores que vinham para a sede onde fazíamos os lançamentos no borrador diário, à máquina de escrever. Agora imagine você centenas de transações como essas chegando diariamente por malote. Quinzenalmente, cada agência mandava um livro com as vias e tínhamos que checar cada transação. Éramos quatro os responsáveis pelo borrador diário Nelson Paiva, Chico Neto, Walber Fernandes e eu.

Muitas outras transferências

Pois não é que, com 18 anos, tive a mesma ansiedade que meus avós tiveram vindo da Itália, 55 anos antes? Hoje eu me pergunto por que eu quis ir para Petrópolis e não vejo uma razão prática, se não a de que eu queria uma mudança. Não sabia exatamente o que iria mudar, mas o fato é que mudei, voltei mais maduro, comecei a trabalhar com um adulto, não era mais um menino. Aprendi que mudar de cidade não era assustador e era até atraente. A migração estava no meu sangue e Petrópolis foi a primeira de muitas de minhas transferências. Depois vieram várias cidades do estado de São Paulo para onde fui transferido acompanhando as progressivas incorporações bancárias. De Leopoldina fui primeiro para Suzano (com 4 filhos sendo que a caçula tinha nove meses), Osasco, Sertãozinho, Paulínia e finalmente Campinas.

Os quatro filhos cresceram e se formaram. Eu me aposentei com 42 anos de idade, vocês acreditam? Trinta anos de banco! Mas não parei, continuei trabalhando e construí a casa em que vivo hoje, parece até que repeti o que papai fez construindo as casinhas da vila perto da fábrica em Leopoldina.

Agora, aposentado, moro em Mogi Mirim, muito perto de Campinas-SP, mas tenho meu pensamento em Leopoldina boa parte do tempo, sendo nutrido por lembranças afetivas de tantos amigos e conhecidos, alguns dos quais nomeei nos textos anteriores. O espaço neste Leopoldinense, foi grande, mas insuficiente para citar todos.

Estão dentro de mim. Em Leopoldina permanecem grandes amigos: José Luiz Barcellos, meu cunhado, um verdadeiro irmão, e sua dedicada e elegante esposa, a professora Auxiliadora Morais. Também as gentilíssimas Evanice e Veranice Maranha – primas em segundo grau de minha esposa Maria José – e o grande e afetuoso Ronaldo França. Muitos da família Fontanella, descendentes de meus tios, também permanecem em Leopoldina, mas infelizmente não os conheço.

Agradeco imensamente as mensagens carinhosas que recebi especialmente de Luja Machado Rodrigues e CássioMuniz. Um agradecimento imenso ao meu novo amigo Luiz Otávio Meneghite que tanto me apoiou na publicação dessas memórias.

Nesses tempos de pandemia, posso apenas enviar um forte abraço “virtual” para todos, torcendo para que, em breve, eu possa visitar nossa linda cidade.

Fim

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