06/03/2022 às 09h36min - Atualizada em 06/03/2022 às 09h36min

Dia Internacional da Mulher – um dia para falar sobre a memória das mulheres leopoldinenses

Mulheres como a leopoldinense Jerônima Mesquita, uma das mais importantes sufragistas brasileiras

Por Natania Nogueira (*)
Jerônima Mesquita nasceu na Fazenda Paraíso, distrito de Providência.
A luta das mulheres por direitos civis e políticos atravessa séculos. Elas vêm se posicionando contra a desigualdade de direitos ao longo da história, numa luta que antecede o surgimento do movimento feminista. Ao longo da nossa história, muitas mulheres que se descaram por suas ações e suas posições políticas, por exemplo, foram silenciadas. O silêncio e o esquecimento da memória das mulheres foram e é um dos maiores obstáculos que uma sociedade que busca por igualdade precisa combater.
 
Na Constituição de 1891, por exemplo, elas nem ao menos são citadas, sendo excluídas da participação política com base no Direito consuetudinário, ou seja, baseado no costume. Um costume que reproduzia um pensamento que acreditava na inferioridade intelectual e física das mulheres. Coisas tais como o direito ao sufrágio impensáveis para elas.
 
Mas essa forma de pensamento começou a ser questionado e combatido pelo movimento feminista que, nos Estados Unidos, França, Inglaterra, Brasil e muitos outros países, foi conquistando ao longo do século XX várias vitorias para as mulheres, que passaram a ser reconhecidas legalmente como seres capazes de contribuir para a sociedade, seja com seu trabalho, seja participando ativamente da vida política. No Brasil, muitas mulheres corajosas e obstinadas levantaram suas vozes e, acreditem, foram ouvidas.
 
Mulheres como a leopoldinense Jerônima Mesquita, uma das mais importantes sufragistas brasileiras. Jerônima Mesquita nasceu em Leopoldina, Minas Gerais, no dia 30 de abril de 1880, na Fazenda Paraíso, distrito de Providência, filha de José Jerônimo de Mesquita e Maria José Vilas Boas de Siqueira Mesquita, barão e baronesa do Bonfim. Jerônima Mesquita foi uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) em 1922. E ao lado de Bertha Lutz e Stella Guerra Duval foi uma das pioneiras na luta pelo direito ao voto feminino no Brasil, atuando no movimento sufragista de 1932.
 
Com Bertha Lutz e Maria Eugênia, em 14 de agosto de 1934 lançou um manifesto à nação, chamado de Manifesto Feminista. Juntamente com um grupo de companheiras fundou, ainda, o Conselho Nacional das Mulheres, em 1947, no Rio de Janeiro uma organização cultural, não governamental, que tem por objetivo em defesa da condição da mulher.  Andou entre doentes e ajudou a aplacar a dor dos feridos durante a I Guerra Mundial. Aos 29 anos foi responsável pela fundação do Movimento Bandeirante no Brasil, em 1919, como reflexo das mudanças ocorridas no decurso da I Guerra Mundial, quando a mulher alcançou certa emancipação por ter participado de responsabilidades até então reservadas exclusivamente aos homens.
 
Jerônima, por toda sua vida, defendeu e buscou justiça através da igualdade de homens e mulheres perante a lei. Sua luta e de suas companheiras, como Bertha Lutz, permitiram que muitos avanços sociais e políticos fossem conquistados pelas mulheres no Brasil. Jerônima Mesquita faleceu na cidade do Rio de Janeiro, onde morava, em 1972. O dia do seu nascimento, 30 de abril, tornou-se o Dia Nacional da Mulher foi instituído em 1980, através da Lei nº 6.791, de 9 de junho de 1980.
 
Em Leopoldina, infelizmente, sua memória ainda não é muito conhecida, apesar dos avanços que tivemos nos últimos anos, no que diz respeito ao ensino da história local. Como personagem importante da história nacional, ela ainda não recebeu aqui o reconhecimento público devido. Recentemente num esforço para levar essa história para mais pessoas a professora Natália Montes escreveu uma pequena biografia de Jerônima, "A Mulher que empoderava mulheres" livro ilustrado pela artista plástica Simone M. Campos 
 
Entrevista
 
Buscando ampliar um pouco mais essa memória, no Dia Internacional da Mulher, conversamos brevemente com historiadora Claudia Mesquista, sobrinha-neta de Jerônima e fechamos este pequeno texto com as palavras de quem conheceu e conviveu, mesmo que por pouco tempo, com essa grande mulher.
 
NN - Em seu tempo, como Jerônima impactou a sociedade Brasileira?
 
CM - Jerônima foi uma mulher que liderou as mudanças pelas quais as mulheres viriam atravessar na primeira metade do século XX, abrindo caminho para a revolução feminista que seria uma das mais importantes revoluções do século passado.   Liderou, com outras mulheres, o movimento sufragista, que viria a garantir o direito ao voto da mulher em 1932. Foi voluntária da Cruz Vermelha na Primeira Grande Guerra, quando morava na Europa com a sua família, e essa experiência foi trazida para o Brasil, onde continuou atuando com uma das mais importantes filantropas de nosso país, sendo uma das criadoras da Pro Matre, entre outras instituições de assistência a mulher brasileira. Sempre pensou na mulher, nos direitos e na assistência social.  Trouxe para o Brasil tudo o que aprendeu em suas vivências nos Estados Unidos e na Europa. Porque esse era o seu país, o seu amado Brasil.  Apesar de ter nascido em uma família de elite, abriu mão desse estilo de vida, para se dedicar a causas realmente mais nobres de amor ao próximo, dos mais necessitados e, principalmente, de assistência à mulher brasileira.  Ajudou a criar o Movimento Bandeirante do Brasil.
 
NN - Quanto a seu legado familiar, quais histórias marcam a memória de Jerônima?
 
CM - Tia Jerônima sempre foi um ícone em nossa família, um exemplo de mulher de fibra e generosa. Ajudou minha avó, viúva do seu irmão José Jerônimo, na educação de seus 10 filhos, entre os quais minha mãe, Maria Cláudia. Todas as minhas tias, incluindo minha irmã, Ana Luiza, foram bandeirantes, pois era uma tradição e quase uma "obrigação" na família.  Me lembro dela, ainda criança, como uma mulher austera, sempre vestida discretamente, muito séria, porém como um semblante muito generoso,  e cordial.  Era uma excelente pessoa, unaminidade na família, embora muito rígida em seus princípiios. Eu sinto muito orgulho desse meu parentesco, e tenho  certeza que todos na minha família também.
 
NN - Jerônima atuou em lutas ligadas a direitos políticos, como aí direito ao voto. Como feminista havia outro tópico que era caro a ela?
Assistência à mulher, para que pudesse criar seus filhos e trabalhar com dignidade.
 
NN- Como sua família acolhe a memória de Jerônima? 
CM -  Com muito orgulho e gratidão por todos que estão valorizando o seu legado.
 
(*) Entrevista concedida a Natania Aparecida da Silva Nogueira/Professora da Educação Básica/Doutoranda em História – UNIVERSO/Diretora - ASPAS
 
MESQUISTA, Cláudia. Perguntas. Mensagem recebida por [email protected] em 28 mar.  2017.
 
Claudia Mesquita é graduada em História pela Universidade Federal Fluminense ( 1985); mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000); doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005) e pós doutora em Memória Social e Patrimônio pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2012). Com experiência em pesquisa, magistério e gestão cultural, vem atuando nas áreas da história social da cultura, história oral, memória e patrimônio cultural, com ênfase em história da cidade do Rio de Janeiro. É autora "De Copacabana à Boca do Mato: o Rio de Janeiro de Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta" (Editora Casa de Rui Barbosa, 2008), "Um Museu para a Guanabara: Carlos Lacerda e a criação do Museu da Imagem (1960-1965)", ( Folha Seca, 2010), coautora de "Memória e Patrimônio: ensaios contemporâneos" (Lamparina, 2009), " Rio 400+ 50: comemorações e percursos de uma cidade ( Edições de Janeiro, 2014), terceira edição comentada de " A cidade mulher" do cronista Alvaro Moreyra (Mauad,2016), e " História do Rio de Janeiro em 45 objetos" (FGV, 2019). Atualmente é professora do Programa de Pós Graduação strictu sensu em História da Universidade Salgado de Oliveira, na linha de pesquisa "Sociedade, Movimentos Populacionais e de Culturas". É pesquisadora filiada aos grupos de pesquisa CNPq: "Imprensa e circulação de ideias: o papel dos periódicos nos séculos XIX e XX" , " Memória, Cultura e Patrimônio", " História Militar, Política e Fronteiras".
 
 
 
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