Zé Curricha - O Panamá do Zé - O Zé do Panamá

Por Por Sérgio Domingues França -
6 Min

Foto: álbum de família

Na quinta-feira, 12 de junho de 2008, quando poucos minutos confirmaram o ultrapassar das 6 horas, deixávamos nossa residência, no Vale do Sol, em direção à padaria, para o recolhi mento do pão matinal. Ao iniciarmos o atravessar da rua José Pinto da Silva, um carro parou ao nosso lado. Fato estranho. O que poderia ser naquele momento, numa manhã de pouca neblina? Para surpresa nossa, no carro, ao lado do motorista, a esposa de um antigo e leal amigo: o Zé Curricha. Com os olhos brilhantes, umedecidos por lágrimas, respiração e aspiração um tanto aceleradas, ela levou alguns segundos para traduzir a infausta informação: o falecimento do nosso companheiro Zé Curricha, confirmando ainda, o horário do sepultamento. Não estava preparado para acolher a notícia. O carro foi acelerado e não chegamos a transferir palavras à D.Antônia, envolta em tão difícil realidade. Parado, sem condições de caminhar, olhando não sabendo para onde, talvez para um casal de canarinhos cabeça de fogo, que já se postara à espera da ração matinal, encontramos com a bondade e a generosidade daquele amigo convoca do para outra vida.

Com este estado de espírito, começamos a desarquivar, de nossa memória, o que poderíamos qualificar como um autêntico filme, onde o personagem principal era o Zé Curricha. Estavam abertas as portas para projeções de acontecimentos, confirmando o poder de fidelidade aos princípios de amigos que com ele conviveram. Os capítulos foram sendo projetados, ora com lentidão, ora com maior velocidade. Lá estava, em foco, o Zé Curricha, com sua espontaneidade, em trajes especiais, viajando em nossa companhia para a cidade de Muriaé, época em que nosso objetivo era a faculdade “Santa Marcelina”. Professor Hudson ao volante de sua Vemag, levado pelo espírito da amabilidade, não deixava de modificar o itinerário, na chegada, para que o ilustre companheiro de viagem pudesse ficar num ponto, por ele de terminado, no bairro da Barra. “Encontros” marcados naquelas imediações ... Percebíamos uma imagem com irradiante entusiasmo, prolongado sorriso, sempre otimista. Imagem diferente. Ali estava o Zé Curricha – quem sabe com a imaginação voltada para o amplo horizonte visual de suas metas – trajando uma calça branca do tecido “panamá” que irradiava ondas de luz em lua cheia. Reflexos de luz, somente do “panamá”. Elegante postura! Poucos usavam roupas de “panamá”, poucos conheciam seus segredos. As narrativas melodiosas das histórias do “Panamá do Zé” ampliaram um visual. E ele, na intimidade dos amigos, tornou-se o “Zé do Panamá”. Grandes conquistas!

A viagem de retorno, sempre festejada e aguardada com rara alegria. Acontecia uma parada obrigatória, sem mudar o rumo do destino, levada pelas forças do sentimento: a cidade de Laranjal. Antecedendo-nos, aguardando nossas presenças em sua residência, ao lado da Igreja Matriz, permanecia o apóstolo do Cristianismo, filósofo, sociólogo, historiador, professor, de saudosa memória, Monsenhor Geraldo Mendes Monteiro, o Pe. Geraldo. Marcantes e inesquecíveis momentos naquela sala. Mesa farta, aperitivos deliciosos e, também, contínuos ensinamentos do mestre Geraldo. Prof. Hudson, amparado por sua cultura, não marginalizava as oportunidades de rever, manter a intimidade com obras raríssimas que pousavam naquelas estantes. Rica biblioteca.

Aliás, devemos repetir o que o Prof. Hudson R. de Andrade, recebeu convite para lecionar inglês para os americanos. Em seu curriculum: diploma assinado pelo presidente Lyndon Johnson. Optou por Leopoldina.

Eram belas as exteriorizações de senti mento do Pe. Geraldo. Inteligência que sempre se inclinou para o coração. Não deixava de evocar a origem da palavra escrita; não deixava de acentuar que “só pela palavra os homens se afastam profundamente dos demais seres vivos, elevando-se à incontrovertida superioridade”. E o Zé Curricha, totalmente presente, acompanhava atentamente todo o movimento, considerando-se um grande vencedor. Conquistas diversas daquelas que aconteciam na Barra, no tremular do “panamá”. Nos afirmara que vinha ganhando novas construções em conhecimento.

A vida ensinou-o a ser, acima de tudo generoso, autêntico e fiel aos amigos. Coragem e determinação tornaram-se valores imprescindíveis para deixarmos aquela casa. Á saída, Pe. Geraldo convocava o Zé Curricha para um canto da sala e após rápida conversa, que nunca conseguimos decodificar, faria gestos como que abençoando-o. O segredo foi mantido e guardado no cofre daquela alma.

Os encontros se repetiam às sextas-feiras e raramente eram cancelados. O virar dos calendários levou Zé Curricha a arquivar o famoso e histórico “panamá”.

Ouviu em dezembro de 1.984, o “ego conjugo robis in matrimonium” na igreja São José. Estava confirmada a aliança conjugal com Antônia das Graças que tornou-se dedicada esposa e companheira, mãe de seus filhos Patrícia e José Rodrigues. Desfrutou dos carinhos da neta Maria Fernanda.

Do cartório do Registro Civil de Piacatuba consta o registro, no dia 14 de abril de 1.947, do nascimento de José Rodrigues, o nosso Zé Curricha. Como nós, ou a quase todos nós, apegado ao Flamengo. Trabalhou na Coop. Prod. De Leite de Leopoldina, exercendo atividade de lavador de veículos como operador-mestre. Posteriormente transferiu estas obrigações para seu filho. Lá comparecia diariamente, supervisionando os trabalhos. Era fácil localizá-lo em tão vasta área de paralelepípedos. Muito querido. Muito estimado. Palavra serena. Com o afastamento do filho daquelas operações, deixou de marcar presença naqueles pontos, rompendo o que era tradição. Afastou-se. Não mais retornou.

Nossos encontros deixaram de ter continuidade, agora, saudade. Agora, recordações de um amigo autêntico. Hoje, o Zé Curricha deve estar ao lado do Pe. Geraldo, adquirindo no vos conhecimentos, revivendo históricos momentos e, talvez, quem sabe, revelando segre dos do “panamá”; recebendo, também, outras bênçãos.

(Crônica publicada pelo Professor Sérgio França na edição nº111 do Leopoldinense de 1º de julho de 2008)