22/05/2015 às 08h35min - Atualizada em 22/05/2015 às 08h35min

Empresário se instala dentro de presídio para comandar fábrica

Três vezes por semana, Tarcísio Cruz transpõe os muros e portões do Complexo Penitenciário Nelson Hungria para dar expediente na linha de produção de bolas esportivas

Agência Minas
Todo o trabalho é desenvolvido pelos presos, seja no galpão, seja no interior das celas. (Osvaldo Afonso/Imprensa MG)

Por dez anos, Tarcísio Rodrigues da Cruz conduziu a fábrica que fundou no Bairro Glória, na Região Noroeste de Belo Horizonte. Em 2012, surgiu a oportunidade de uma parceria com a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) para produzir as bolas esportivas da marca Trivella utilizando o trabalho de presos do Complexo Penitenciário Nelson Hungria, em Contagem.

Em vez de fazer um teste para ver se daria certo, Tarcísio tomou uma decisão radical. Fechou as portas da fábrica do Glória e mudou-se ‘de mala e cuia’ para a penitenciária. Não se arrependeu, apesar da forte resistência da família na época.

“Minhas filhas acharam que eu estava ficando doido. Como já sou mais velho, ameaçaram até me interditar. Tive que trazer toda a família aqui para provar que se tratava de coisa séria e que estava fazendo um bom negócio”, conta Tarcísio, hoje com 74 anos de idade.

É realmente inacreditável ver aquele senhor levantar-se da cadeira, junto à mesa onde empilha pedidos e notas fiscais, na pequena sala, com mostruário de produtos na parede, atravessar a porta sempre aberta e caminhar entre 41 empregados vestidos com o uniforme vermelho da Suapi. Pacientemente, ele mostra cada fase da produção, em que são usados objetos cortantes, colas, tintas e prensas.

Tarcísio não se incomoda com as limitações de trabalhar num presídio de segurança máxima, onde, mesmo que pudesse portar um telefone celular, não haveria sinal por causa do aparelho bloqueador. Da mesma forma, acostumou-se com a inspeção de segurança dos insumos que recebe para tocar a produção. Do lado de fora, o filho, também chamado Tarcísio, faz os contatos necessários com fornecedores e clientes.

É claro que, como todo empresário parceiro do sistema prisional, o dono da Trivella se beneficia por estar enquadrado nas regras da Lei de Execução Penal e não da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Por isso, está livre de pagar o décimo terceiro salário e recolher FGTS, por exemplo.

Mas isso não seria suficiente se não houvesse uma forte confiança na direção da Nelson Hungria e satisfação com o trabalho dos presos. Rogério Alan, 34 anos, é um deles. Tornou-se um coordenador de produção tão eficiente que Tarcísio, quando precisa se ausentar por um dia ou dois, não hesita em deixar a fábrica sob o comando do detento.

Rogério está preso há 11 anos e sua primeira experiência de trabalho dentro da penitenciária foi na Trivella. “Posso confiar no trabalho desenvolvido pelos meus funcionários. E o Rogério é um ótimo gerente”, diz o patrão Tarcísio.

Não se trata de um elogio fácil. Afinal, Rogério foi condenado a 92 anos de prisão. O preso agradece a confiança e diz que a oportunidade de trabalho na fábrica de bolas foi a coisa mais importante que lhe aconteceu desde que foi preso. “Este emprego deu um novo significado para a minha vida. Enquanto o Tarcísio precisar de mim, ficarei aqui”, diz o detento.

A diretora de Atendimento do Complexo Penitenciário Nelson Hungria, Judesônia Curte, observa que a experiência de Rogério mostra que o trabalho agrega valor à vida. “Aqui dentro, o trabalho faz com que o preso se esqueça por um tempo que está em unidade prisional. O trabalho e a educação são essenciais para a ressocialização do indivíduo. Atualmente 272 presos da Nelson Hungria trabalham”, diz Judesônia.

Produtos

A Trivella fabrica bolas de futebol de salão, de campo, de vôlei, handball, ginástica e as usadas por cegos, com guizo interno. Há bolas costuradas à mão e outras recebem acabamento por termofusão. São 400 unidades por dia.

Todo o trabalho é feito por presos. Além dos 41 detentos que cumprem jornada de oito horas diárias no galpão, outros 50 trabalham no interior das celas, na costura dos gomos das bolas de futebol. A empresa investe na mesma tecnologia utilizada para fabricar a “Brazuca”, que foi a bola oficial da Copa do Mundo do Brasil.


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