17/06/2015 às 09h34min - Atualizada em 17/06/2015 às 09h34min

Vereador de Juiz de Fora deve ser indiciado por crime contra a fauna

João do Joaninho presta depoimento e nega crime

Por Eduardo Maia e Michele Meireles
Tribuna de Minas
Após esclarecimentos, João do Joaninho deixa delegacia pela garagem, nos fundos do prédio ( FERNANDO PRIAMO/16-06-15)

O vereador João do Joaninho (DEM) deverá ser indiciado por crime contra a fauna, conforme descrito no artigo 29 da Lei 9.605/1998, e por porte de arma de fogo. A informação foi dada pela titular do Núcleo de Atendimento às Ocorrências de Maus-Tratos a Animais, Dolores Tambasco, após cerca de três horas de depoimento prestado pelo parlamentar. João do Joaninho compareceu à delegacia cinco dias após ser flagrado, junto com um homem de 51 anos, em uma lancha com três capivaras e um jacu abatidos, além de uma espingarda e munições, na Represa de Chapéu D’Uvas. O homem que estava no barco com João do Joaninho foi preso, teve o flagrante ratificado, pagou fiança, foi liberado e indiciado. “Naturalmente, pelo que estamos vendo nas investigações, o vereador também será indiciado nas mesmas penas e mesmas sanções, isso se não aparecerem crimes mais graves”, afirmou Dolores. Após depoimento à Polícia Civil, o parlamentar concedeu entrevista coletiva na Câmara Municipal, onde falou pela primeira vez com a imprensa. No encontro, ele voltou a negar a participação na caça, dizendo ter sido “pego de surpresa” ao saber dos animais na embarcação.

Dolores Tambasco preferiu não comentar as declarações dadas pelo vereador durante o depoimento, sob alegação de que poderiam atrapalhar as investigações. A delegada disse apenas que a investigação deu um grande passo. “Muitos pontos que ele falou não estão batendo com outros, vamos ter que apurar, para termos uma convicção. Mostrei uma foto para o vereador, e ele assumiu que estava na embarcação”, disse. Dolores informou que pretende ouvir hoje três policiais militares que estavam na ocorrência em Chapéu D’Uvas. Nos próximos dias, a delegada também irá colher os depoimentos de testemunhas que estavam no local e fazer novas diligências. Após prestar esclarecimentos, João do Joaninho deixou o prédio pelos fundos da delegacia, no carro de seu advogado. Durante o depoimento, a entrada ao prédio do Núcleo foi proibida pela Polícia Civil, que deixou o portão de acesso à unidade fechado durante parte da oitiva.

 

Vereador diz que foi pego de surpresa

Depois de deixar a delegacia, João do Joaninho se dirigiu ao Palácio Barbosa Lima, onde respondeu à imprensa na Sala Asa Delta, acompanhado de seu advogado. Emocionado, chegou a chorar diante dos repórteres e disse estar “chateado” pela repercussão do caso. O vereador afirmou que estava sendo transportado por um vizinho e que foi “pego de surpresa”, durante a abordagem policial, ao notar que havia animais abatidos na lancha. Ele ainda sustentou o posicionamento anterior, divulgado por nota à imprensa na sexta-feira, de que é apenas testemunha no caso, contrariando a versão da Polícia Militar, como consta no Registro de Evento de Defesa Social (Reds), de que seria co-autor. Segundo o parlamentar, o barco que o transportava e onde estavam os animais foi doado por um granjeiro e é de uso comum do condomínio onde ele tem uma propriedade.

Questionado sobre a contradição das informações diante do relato do escrito pela PM, João do Joaninho afirma que não entende a versão dos policiais no Reds. “Eu tenho a minha versão, a realidade do que aconteceu e que passei para a delegada. Não fui preso, ninguém me deu voz de prisão, não fui co-autor. Fui pego de surpresa, fiquei estarrecido. Estava tudo tampado, o barco tinha lona e capota tampando, já era de noite. Quando ele (o homem de 51 anos) me pegou na casa do meu amigo, eu entrei no barco, e ele acelerou. Foi uma questão de dez minutos até onde aconteceu o evento”, disse. Na semana passada, em entrevista à Tribuna, o sub-comandante da 4ª Cia de Meio Ambiente e Trânsito, capitão Jovânio Campos, confirmou a versão do boletim de ocorrência, na qual o vereador é enquadrado como co-autor e teria evadido após a abordagem na represa.

João do Joaninho alegou ainda que não pilotava o barco, mas que chegou a “pegar no volante” quando o outro homem percebeu as embarcações com os policiais e fiscais da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. “Quando avistou os barcos, ele pediu para segurar o volante e puxou (a lancha) mais prá frente. Talvez ele já tinha notado que não eram pescadores e, quando peguei, já tinha reduzido a velocidade. Não notei nada de diferente.” O vereador negou que teria fugido e diz não ter visto o sinal da PM para que parasse a embarcação. Ele afirmou que, após ser levado às margens da represa pela PM, seguiu “tranquilamente” para Juiz de Fora, se comprometendo a prestar o depoimento na delegacia. “Quando estava perto do Hospital Regional, recebi uma ligação do meu advogado, dizendo para que eu não fosse à delegacia, que as coisas estavam meio tumultuadas. Eu tinha o compromisso de passar lá e disse ‘quem não deve não teme’”, sentenciou.

Após entrar em contato com o advogado, o vereador disse ter passado na casa de sua mãe, no Bairro São Mateus, seguindo até a recepção do Hospital Monte Sinai, por estar se sentindo mal. João do Joaninho disse que não aguardou o atendimento médico, depois da informação de que podia demorar. Na quinta-feira, a assessoria do hospital confirmou não haver registro de atendimento ao parlamentar. Ontem, no entanto, esclareceu que ele teria passado pela recepção, sem receber consulta. “Eu descia perto do viaduto, o meu cardiologista ligou. Contei a ele o que estava acontecendo, e ele me recomendou comprar um Rivotril. Disse que eu estava assim por estar sendo pressionado”, afirmou.

 

‘Dá vontade de deixar a política’

Sobre o afastamento da presidência da Comissão de Urbanismo, Transporte, Trânsito, Meio Ambiente e Acessibilidade, o parlamentar disse que apresentou o pedido após uma recomendação do presidente da Câmara, Rodrigo Mattos (PSDB). No entanto, o vereador pretende retornar à comissão, assim que as investigações terminarem. “A partir do momento que o presidente sugeriu, rapidamente acatei e achei conveniente”. Questionado se tem conhecimento sobre prática de caça no manancial de Chapéu D’Uvas, negou. “Eu nunca participei de caça e não sei se pescam ou caçam na represa. Vejo os barcos lá, mas cada um tem sua vida”, destacou.

Sobre o impacto que o episódio causará na sua atividade parlamentar e sobre a investigação da Comissão de Ética da Câmara, João do Joaninho foi taxativo: “Estou de braços abertos, quem me elegeu foi o povo. Tive mais do que eu mereço de apoio. Estou tranquilo, mas sentido. Sou um homem público, dá vontade de deixar esse negócio de política.” Segundo o vereador, ele só não se posicionou publicamente antes, por estar “debilitado e abatido”, seguindo ainda as recomendações de seu advogado. Ele não compareceu à reunião da Câmara Itinerante no Bairro Bandeirantes, Zona Nordeste, realizada na noite de ontem.

Em nota publicada no Facebook, o primeiro vice-presidente da Câmara, José Márcio (Garotinho, PV) afirmou estar acompanhando as investigações da Polícia Civil e o trabalho da Comissão de Ética. Além disso, se comprometeu a trabalhar para que “este tipo de crime não fique impune e que os culpados sejam devidamente responsabilizados, na forma da lei, independente de quem sejam.”


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