30/04/2014 às 09h36min - Atualizada em 30/04/2014 às 09h36min

A árvore da Forca

Conheça também a história do carrasco Fortunato

A árvore da Forca: Luciano Baía Meneghite ; O carrasco Fortunato: José do Carmo Machado Rodrigues
Autores

"Estão cortando a Árvore da Forca." Me lembro de ainda pequeno ter escutado meu pai chegar em  casa dizendo isso. Isso era lá pela metade dos anos de 1980. Fiquei curioso. Acho que na época ainda não tinha ouvido falar na famosa Árvore da Forca.   

  A árvore, uma Piorreira, na verdade estava morta ou quase. Anos antes teria sido atingida por um raio, o que a danificou muito. A prefeitura então decidiu cortar o que restou.

  Por ser criança e morar na Cohab, no outro lado do bairro Pirineus, poucas vezes ia até o local da forca que ainda na época era um pasto. A única construção era uma abandonada "Raia de malha" também chamada de "Rinha" por realizarem brigas de galos no local. Hoje é a quadra da Unidos dos Pirineus.

  Com o tempo, fui escutando muitas estórias a respeito do Morro da Forca. Os mais velhos, diziam que se tratava de um lugar mal assombrado. Um trilho no local fazia a ligação com a atual Praça do Urubu e quem por lá passava, principalmente à noite, quase sempre relatava ter visto vultos ou sons estranhos. Luiz Rousseu Botelho, em seu livro "Alto Sereno" registrou uma das lendas do local no final do século XIX. Tratava-se de um senhor octogenário conhecido por Chico Cabeludo que morava na "Favela do Morro da Forca" e que nas noites de sexta feira viraria porco e seqüestraria crianças.   Entre verdades e invencionices, O local isolado, a velha árvore de galhos retorcidos em que se viam ainda espécies de ganchos e elos de correntes encravados; tudo dava mesmo um aspecto fantasmagórico, contribuindo para as lendas. Mas como quase sempre, por trás das lendas há fatos reais, neste caso não é diferente.

  Fizemos um apanhado de tudo que lemos e ouvimos a respeito e com ajuda de colaboradores obtivemos algumas imagens históricas.

 Em 10 de junho de 1835, uma lei determinou a pena de morte para "escravos ou escravas que matarem por qualquer maneira que seja, propinarem veneno, ferirem gravemente ou fizerem outra qualquer grave ofensa física a seu senhor, a sua mulher, a descendentes ou ascendentes".

   Uma chacina cometida por escravos contra a família de um deputado mineiro disparou a discussão da pena de morte. Outra motivação foi a Revolta dos Malês, em que negros muçulmanos se rebelaram contra seus senhores em Salvador.

   A pena capital era aplicada por enforcamento. Outro artigo estipulava uma pena "branda" em casos menos agressivos: "Se o ferimento ou ofensa física forem leves, a pena será de açoites."

   Em setembro do ano de 1856, no então distrito de São José do Paraíba (Atual Além Paraíba) o norte americano Michael Jackson foi assassinado, sendo acusados pelo crime, escravos que conduzia para vender. Eram eles: Davi, Américo, Antonio, Francisco, Miguel, Vicente e Joaquim. Depois de presos e encaminhados para a cadeia pública de Leopoldina,foram julgados no ano seguinte. Quatro deles, Davi, Américo, Vicente e Joaquim foram condenados e enforcados. O dia da execução é citado como 15 de dezembro de 1857 ,mas por publicação  do Correio Oficial de Minas encontrada por Natania Nogueira, a execução teria ocorrido em 24 do mesmo  mês e ano.  Segundo o Livro "Nossas Ruas, Nossa gente" de José Luiz Machado Rodrigues e Nilza Cantoni, Pelo relatório da Presidência da Província de Minas Gerais, este enforcamento teria sido executado por um outro carrasco que não  Fortunato, citado em outros textos.

 Um dos escravos, de menor idade, teria sido poupado da pena capital, mas foi castigado e após cumprir pena foi solto. Muito doente e agonizante teria levantado do leito envolto em um lençol e encaminhado para junto á cova de seus parceiros no Morro da Forca, morrendo no local.

   Não se conhece registros oficiais de outros enforcamentos no local, o que não quer dizer que não possam ter ocorrido. O Carrasco Fortunato por alguns relatos teria atuado pelo menos  cinco vezes na Vila de Leopoldina.

  Um erro judicial em 1855 no caso conhecido como "A Fera de Macabu" levantou no Brasil a discussão sobre a pena de morte que   acabou sendo extinta.

  Uma curiosidade é que onde hoje é a Praça Mário Malaquias e a capela de Nossa Senhora Aparecida nos Pirineus, seria construída a Matriz original de São Sebastião, por ter sido ali erigida a primeira capela de pau a pique para a primeira missa celebrada no então Arraial de São Sebastião do Feijão Crú em 1831. No entanto, por ter se transformado em local de execução e cemitério, a igreja optou pela construção no morro da atual Catedral.

 

Fontes Consultadas:

 Livro "A Fera de Macabu"- Carlos Marchi - Editora Record

 Site do Arquivo Público Mineiro

"O Brasil já teve pena de morte (só para escravos)" Bruno Hoffmann - Almanack Brasil

Revista Acaiaca – Centenário de Leopoldina 1954

Livro "Nossas Ruas, Nossa Gente" – José Luiz Machado Rodrigues e Nilza Cantoni

Livro "Alto Sereno" de Luiz Rousseu Botelho

 

O Carrasco Fortunato 

1884 - O carrasco Fortunato José já morto na Cadeia Pública de Ouro Preto

 

José do Carmo Machado Rodrigues

 

Velhos escritos são delícias. A Gazeta de Leopoldina (MG) de 18 de abril de 1922, disponível para leitura na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, reproduz texto do periódico "Mosaico Ouro-Pretano", de 1877, que oferece curiosíssima biografia de um  personagem singular da história leopoldinense: o "Carrasco Fortunato".
Li e tive pena do Carrasco Fortunato. Tanto na opinião do periódico de Ouro Preto, de 1877, que apurou-lhe as atribuladas origens, como na do articulista leopoldinense, de 1922, que as repassa, o vil Fortunato é referido como o grande culpado pela ignomínia dos enforcamentos que praticava (quase só se enforcavam escravos).  

Nem uma palavrinha de censura à legislação penal do Império, nem um monossílabo de desaplauso à insensibilidade dos magistrados que proferiam tais sentenças... Maldito era o Fortunato!

Com ortografia revista e algumas aparas, divido o achado com os leitores, abrindo aspas para a preciosidade histórica. Foi escrito em 1922: 

"A geração leopoldinense atual talvez ignore (...) que o Brasil já teve pena de morte e que, neste pequeno torrão mineiro deu-se a ela plena execução. Os executores dessas penas, chamados carrascos, eram tipos abjectos, abomináveis, de corações empedernidos, tirados, muitas vezes, das próprias prisões, onde cumpriam penas perpétuas por crimes hediondos. Eram verdadeiros párias sociais, de sentimentos monstruosos, que se compraziam com as desgraças alheias, indiferentes aos transes lancinantes por que passavam as suas vítimas...

Pois em Leopoldina, berço de tradições liberais, já houve execuções, já foram cumpridas penas de morte! Só um executor, o Carrasco Fortunato trabalhou cinco vezes em Leopoldina, exercendo seu monstruoso mister em 29 localidades mineiras e em duas da província do Rio de Janeiro, num total de 87 execuções! O Carrasco Fortunato teve a sua época de celebridade, embora sinistra e torva, como torva e sinistra foi a sua existência, relatada em traços ligeiros no Mosaico Ouro-Pretano de 1877:"

As aspas que se seguem passam e ser para o texto do jornal de Ouro Preto:

"Fortunato José, natural da freguesia de Lavras, era escravo de João de Paiva, cuja viúva, Da. Custódia, criou-o com excepcional bondade e carinho. Esse tratamento generoso, quase maternal, não impediu que no moleque Fortunato se desenvolvessem os maus instintos que uma natureza ingrata lhe implantara, e tanto que ele bem cedo entregou-se ao jogo, à embriaguez e a outros vícios. Admoestado freqüentemente, mas com brandura, por sua senhora, criou-lhe ódio e, um dia, enfurecido, prostrou-a morta com um bordoada certeira. Foi isto em 1833; tinha, então, 25 anos o miserável, predestinado a uma vida medonha e abominável.  Preso, julgado e condenado à pena última (enforcamento), foi recolhido à cadeia de Ouro Preto. Mas aquela pena não teve execução, sendo de facto, por acordo com o assassino, comutada na de prisão perpétua com a obrigação de servir de algoz a outros miseráveis condenados à forca.


Fortunato dizia-se empregado público, no seu ofício de executor da justiça...

Ele próprio forneceu a relação das execuções que consumara até 1874 (d'então em diante não as houve mais no Brasil), tendo sido as primeiras em Ouro Preto, no ano de 1833, no dia de Natal! As vítimas foram dois desgraçados escravos. Declarava Fortunato que essas primeiras execuções lhe repugnaram, repugnância que reaparecia sempre que era forçado a enforcar mulheres!... Quanto aos homens, 'ficou habituado a cumprir a sua obrigação insensivelmente!...'

Disse que, de ordinário, os sentenciados revoltam-se contra os sacerdotes que buscam suavizar-lhes os tristes últimos momentos. 
Nos primeiros anos de seu officio, dormia em comum com os demais presos, inclusive aqueles que ele tinha em breve de enforcar. Mas estando na cadeia de Pitanguy, de um desses sentenciados, armado de faca, teve que dar cabo antecipado, pelo que apresentava nas mãos feias cicatrizes. Desde então passou a dormir separado dos presos condenados.
Reclamava que devendo o emprego ser-lhe rendoso, pagavam-lhe pouco: 12$00 quando havia parte interessada; ou 4$00, quando o pagamento era feito só pela municipalidade. (...)
Alto, musculoso e ainda forte em 1877, apesar dos seus 69 anos, dos quais 44 na prisão, queixava-se apenas de sofrer reumatismo, acrescentando pacatamente que "se obtivesse a liberdade iria viver sossegado em algum canto". 

Eis parte da biografia do Carrasco Fortunato, que foi, como executor da Justiça, hóspede de Leopoldina, onde, ali no Morro da Forca, em que existe, atualmente, uma caixa d'água, fez cinco execuções. - J. Botelho F. "

Pois é, meu iracundo Fortunato. No morro que chamavam "Morro da Forca", hoje Pirineus, onde te mandaram matar gente, já não existe caixa d'água. A cidade tomou conta do morro, tem uma praça e uma igrejinha de N. S. Aparecida, a santa moreninha do Brasil, que lá ainda não estava no teu tempo e, talvez por isto, não te acudiu naqueles dias ferozes em que cumprias tua parte no acordo macabro que as autoridades te impuseram: enforcar para não ser enforcado. 

No mesmo morro reside agora este escriba que leu tua biografia e detestou os adjetivos assestados à tua pessoa. Não engoliu a "excepcional bondade e carinho" que a senhora te deferia na infância e duvidou muito da "brandura das admoestações" que tu, negrinho escravo, teria recebido dela. 

Posso imaginar como foste maltratado, Fortunato.  Filho de sinhá que sofrer hoje uma micra do que sofreste naqueles tempos, cumpre 8 anos de terapia comportamental e não desentorta a cuca.

E, sabe de uma coisa, Fortunato, para mim tu foste efetivamente funcionário público. Toma nota: foste Serventuário da Imperial Justiça. Tão do teu lado me coloco que, impossibilitado de também aplicar uma bordoada certeira na cachola de quem te chamou de pária, de typo abjecto, abominável, torvo, sinistro, já me presto a repassar tua história para devolver à memória de teus pífios biógrafos todos esses insultos. 

Escravo, infeliz e desgraçado, tu sequer sabias que a pena de morte estava escrita numa lei dos poderosos para preservar-lhes o patrimônio. Desletrado, jamais poderias proferir sentença condenando alguém à forca.

Um tal Joseph de Maistre, que escreveu um livro chamado "As Noites de São Petersburgo", lembra que só ao carrasco e ao soldado é permitido matar sem crime. Mas as execuções do carrasco, dependendo de sentença, são tão raras que basta um carrasco para várias províncias. Quanto aos soldados, precisam ser muitos porque eles matam sem medida, principalmente pessoas honestas. Apesar disto, o soldado é honrado por todas as nações; o carrasco é o infame.

Fortunato, se o justiceiro de circunstância não fosses tu, eles arrumariam outro para ser "hediondo" no teu lugar. Ou seja, no lugar deles... 

Da perspectiva atual podemos compreender perfeitamente e justificar a criança miserável, a criança massacrada, que se transformou no adulto Fortunato. Pena que ainda façamos tão pouco por ela. 

Em verdade, não evoluímos muito além de ligeiramente alterar o conceito de escravidão que, sob aparências liberais, continua quase tão cruel quanto antes. Tanto assim que se você, Fortunato, nascesse nos dias que correm poderia estar "predestinado a uma vida medonha" bem parecida com a que viveu há 193 anos.

E se estiveres me ouvindo, pode acreditar: é quase certo que terias, de novo, alguns problemas com a justiça.
Entre os humanos as coisas caminham devagar, meu bruto! 

Por isto, de onde estiveres, Fortunato, tente compreender a humanidade – tantas vezes, ela sim, medonha e insensível - e tente se possível perdoá-la.

 

                                      

No alto do morro se destaca a árvore da forca,na primeira metade do século XX.   

 

 Enforcamento de negros no Texas, em 1930.Cena semelhante ocorreu em Leopoldina.

 

Morro do Pirineus visto da rua Presidente Carlos Luz


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