11/04/2020 às 11h47min - Atualizada em 11/04/2020 às 11h47min

A pandemia em Leopoldina!?


Paulo Lucio Carteirinho
 
A pandemia do coronavírus chegou no Brasil. Já são mais de 20 mil infectados. O número de mortos já passa de mil. A doença ainda não atingiu o pico.  A situação só não está pior devido ao isolamento social.
 
A respeito do isolamento social, é  um “remédio” amargo, aplicado por todos os países onde o  vírus conseguiu entrar. Esse “remédio” evita que o vírus se espalhe, porém, tem efeitos colaterais na economia.
 
Com a economia no mundo basicamente parada, inicia-se uma nova crise econômica mundial. Dessa vez, não uma marolinha, mas um tsunami. O mundo já começa a sentir os efeitos dessa crise.  Empresas mundo a fora  já começaram a demitir e até mesmo falir. 
 
Não seria diferente no Brasil. Trazendo esse debate para Leopoldina, a pandemia chegou por aqui. Recentemente, diversos trabalhadores de uma grande empresa foram pegos de surpresa com a notícia de uma demissão em massa.
 
Não sabemos o número real, mas circulam na cidade comentários de que 400 pessoas foram demitidas. Essas demissões ocorreram na Semana Santa, na Quinta-feira Santa, data do “Beijo de Judas”, dia que Cristo foi traído.
 
Muitos trabalhadores estão se sentindo “traídos”. Afinal, ajudam as empresas a construírem seus patrimônios e no momento em que mais precisam das empresas, muitas delas viram as costas.
 
Num momento de crise, qual papel da iniciativa privada? Infelizmente, prevalece a lógica liberal: lucro é comigo, gastos é com o governo.   Claro que não podemos crucificar as empresas. Até porque, não é nada fácil  criar e manter uma empresa. Ainda em momento de crise. Vamos pegar os números dessa empresa de Leopoldina como exemplo.
 
400 funcionários recebendo salário mínimo, R$ 1.045 cada um, custam mensalmente para a empresa mais de R$ 400 mil. Isso gastos só com salários. Fora gastos com benefícios  e encargos trabalhistas: INSS, FGTS, Férias... Se colocarmos tudo na ponta do lápis, esses 400 funcionários representavam um gasto mensal de mais de R$500 mil, ou seja, mais de meio milhão por mês.
 
Quanto tempo vai durar essa crise: 1, 2, 3..6... meses? Como conseguir manter um gasto desses? Como continuar produzindo se não está vendendo? Como disse no começo, a economia de diversos países estão paradas.  Boa parte do mundo está fazendo o isolamento social.  Alguns,  o  “lock down” (isolamento total), onde quase nada funciona.  
 
Vale lembrar que boa parte do que é produzido por essa empresa de Leopoldina vai parar em outros países, mas devido ao isolamento deles ela não está conseguindo exportar. Poucas mercadorias estão circulando no mundo. Sendo alimentos e produtos referentes ao combate do coronavírus: máscaras, remédios, equipamentos hospitalares...
 
Por que a empresa de Leopoldina não muda sua  atividade nesse  momento? Ao invés de produzir  roupas sociais, por que não produzir roupas hospitalares,  máscaras, utensílios de combate ao Covid-19? Pois vender paletó hoje, só se for paletó de madeira.
 
Se a gente não for criativo, dificilmente vamos conseguir manter os empregos. Sair dessa crise. Crise essa que pode aumentar mais ainda, se empresários e governo, não entenderem que o povo é a solução para crise. Primeiramente, garantindo a vida. Daí a importância do isolamento. Depois, renda. É necessário que aconteça a  distribuição de renda. Acumular e guardar riqueza nesse momento não vai ajudar em nada.
 
Infelizmente, empresas e governos não querem ter gastos. O presidente Bolsonaro chegou apresentar ao Congresso a Medida Provisória 927, a qual entre as  várias medidas, uma que  permitiria as empresas suspenderem por 4 meses os salários dos trabalhadores.
 
Tal medida me fez lembrar uma frase de Milton Friedman: “A solução do governo para um problema é geralmente pior que o problema”. Para as empresas com certeza seria bom. Além de economizarem com pagamentos de salários, economizariam com gastos das demissões, que não é nada barato.  Para o governo melhor ainda, afinal, se os trabalhadores não fossem demitidos, o governo economizaria deixando de pagar o seguro-desemprego. 
 
A MP 927 só viu o lado das empresas e do governo. Em momento algum viu o lado dos trabalhadores.   Esses ficaram entre cruz e a espada. O que é menos pior: continuar no emprego ficando 4 meses sem salário ou ser demitido e ter acesso aos direitos trabalhistas?
 
A respeito dos direitos trabalhistas, ultimamente vem sendo  taxado como vilão da economia. Os liberais iniciaram uma guerra contra eles, de modo acabar com muitos deles. Bolsonaro durante a campanha presidencial disse: “Os trabalhadores terão que escolher entre ter emprego ou direitos”.
 
Pois bem, ainda bem que Bolsonaro ainda não conseguiu acabar com alguns direitos trabalhistas. São eles que estão minimizando os efeitos dessa crise. Tendo em vista que garantem,  a milhares de trabalhadores, por um tempo, uma estabilidade.
 
Vamos usar o exemplo das demissões em Leopoldina. Com certeza é algo horrível e que causará impactos na economia da cidade. Porém, a princípio não sentiremos tanto. Tendo em vista que, os que foram demitidos terão por alguns meses recursos, oriundos da multa que a empresa pagará por demiti-los,  direito de  sacar  seu Fundo de Garantia (FGTS) e mais o seguro-desemprego. A princípio vai circular até mais dinheiro na cidade.
 
400 pessoas recebendo seguro-desemprego representam mais de R$ 400 mil mensal  na economia da cidade. Como receberão por 4 meses, serão mais de R$ 1 milhão e meio. 
 
Olha a importância dos direitos trabalhistas nesse momento. Eles ajudarão a manter a estabilidade, não só das famílias dos  que foram demitidos, assim como para a economia da cidade.  Agora, imagina se esses direitos trabalhistas tivessem sido extintos. Como as famílias desses trabalhadores iriam conseguir sobreviver após as demissões? Como ficaria a economia da cidade sem renda?
 
Como podem notar,  os direitos trabalhistas nunca foram inimigos da economia. Pelo contrário, são até solução. Principalmente, em momentos de crise. Não existe fórmula mágica para crise. A melhor forma continua sendo as ideias do economista inglês John Maynard Keynes, que ajudaram na crise  de 1929, até então, a maior crise econômica da história do capitalismo
 
O   keynesianismo tem como base investimentos públicos em momentos de crise. Não vai ser demitindo e  cortando direitos trabalhistas que vai acabar com a crise. Pelo contrário, mais do que nunca, as pessoas precisam de empregos e renda. Afinal, a engrenagem da nossa economia é o consumo.
 
Veja o exemplo dos Estados Unidos, que tem uma sociedade muito mais rica que a nossa, uma das economias mais fortes do mundo. O  governo Trump apresentou  um pacote econômico no valor de U$ 1,2 trilhão, convertendo isso para o real, são  R$ 6 trilhões. Caso seja aprovado, esse dinheiro será destinado a TODOS os cidadãos do país. TODOS os cidadãos adultos, independente de quanto ganham, terão direito a U$1 mil (R$5 mil). As  crianças receberão  U$500 (R$ 2.500).
 
Essa medida intervencionista do Estado americano, que de liberal não tem nada,   mata dois coelhos  com uma só cajadada. Além de resolver os problemas da economia, esse dinheiro ajuda muito mais na saúde. Até porque, os americanos não têm uma rede de saúde pública. Lá não tem SUS. Lá tudo é  privado. Sendo muito caro.  Sai muito mais barato para o governo pagar para o cara ficar em casa, do que gastar com saúde, caso ele seja contaminado. Afinal, lá não tem saúde pública. Imagina o gasto para montar uma estrutura pública.
 
Voltando ao Brasil,  depois do fracasso da MP 927, no tocante a retirar dinheiro dos trabalhadores por 4 meses, o governo foi obrigado a adotar medidas contrárias a essa. Ao invés de retirar das pessoas o dinheiro, a solução seria dar dinheiro para elas.  Nesse sentido, foi aprovado pelo Congresso o projeto que criou o Renda Mínima, que garantiu para autônomos, microempreendedores (MEI), desempregados, beneficiários do bolsa-família, moradores de rua... a quantia de R$ 600, sendo paga durante  3 meses.  
 
Tal medida, assim como os direitos trabalhistas, minimizarão os efeitos da crise. Mas será preciso muito mais. Alguns economistas vêm sugerindo que o governo imprima dinheiro  e distribua para a população. Como disse no começo, a solução para a crise é a distribuição de renda. Infelizmente, foi necessária uma pandemia para que as pessoas percebessem a importância da distribuição de renda e  dos direitos trabalhistas. O papel do Estado. Resta saber se o empresariado,  liberais e políticos aprenderão essa lição.

 

 

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