15/04/2023 às 16h45min - Atualizada em 15/04/2023 às 16h43min

Escol(t)a!?

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Paulo Lúcio Carteirinho
Recentemente, uma série de ataques a  algumas  escolas deixaram  preocupados:  profissionais da educação, pais e alunos. Até porque, essa não foi a primeira e infelizmente não será a última, além de não saber onde será o próximo ataque.  

Os ataques nas escolas vêm aumentando ultimamente. Muito fruto dessa onda extremista que vem crescendo mundo afora.  Mas a violência não se resume apenas a esses radicais extremistas, têm muito mais coisas envolvidas, como por exemplo, a forma que a sociedade vem se organizando ao longo do tempo, em cima de valores capitalistas que desumaniza a sociedade, incentivando a todo o momento a disputa, o individualismo, que para mim é um dos principais problemas da violência na sociedade.  
 
A maioria das escolas está mais preocupada em preparar os alunos para o mercado de trabalho do que um cidadão para viver em sociedade. A primeira pergunta que se faz para o aluno é: “O que você quer ser quando crescer?”. Como se ele não fosse nada e para ser alguém tem que ter algum emprego que seja valorizado pela sociedade: juiz, médico, empresário...

Ao adotarem esses valores capitalistas nos seus conteúdos curriculares, inclusive diminuindo e até retirando disciplinas das áreas das humanas (arte, história, sociologia, filosofia...)  e substituindo por disciplinas técnicas (empreendedorismo, projeto de vida, tecnologia...) as escolas não estão  formando cidadãos críticos, mas sim pessoas  para atender o mercado, para disputarem umas com as outras as poucas vagas de emprego.

Falando em disputa, essa semana vi um vídeo muito interessante.  Um palestrante entregou para um grupo de pessoas numa sala  bolas de festa de aniversário e agulhas, pediu para elas encherem as bolas e falou que o último que ficasse com a bola cheia ganharia R$ 2 mil. Após enchidas, os participantes começaram a furar as bolas uns dos outros, até que sobrou apenas um com a bola cheia, sendo este  o ganhador. No final o palestrante perguntou: Em algum momento eu falei que era para furar a bola do outro? Apenas falei que o último que ficasse com a bola cheia ganharia.  Por que vocês furaram as bolas uns dos outros? Complementou ele, ao invés de vocês preservarem suas bolas, vocês preferiram atacar uns aos outros, isso ocorre pois vocês foram ensinados a fazer isso.  
 
Esse tipo de ensino é aplicado nas escolas quando o foco passa ser preparar o aluno para a disputa no mercado de trabalho. Isso vem fazendo que a sociedade fique doente. Até porque, muitos não conseguirão atingir esse sonho que a escola vende. Não que eu não reconheça o poder da educação, mas se engana quem acha que todos vão ser bem sucedido, afinal, mesmo com o diploma nas mãos muitos acabam não conseguindo trabalho devido vários fatores: financiamento para começar seu próprio negócio, questão social, idade, cor, raça, sexo,  gênero, religião, deficiência...
 
Algumas perguntas mostram isso.  Quem mesmo com diploma tem mais chance de conseguir emprego: um branco ou um preto? O homem ou a mulher? O hétero ou o gay? Novo ou o velho? O “normal” ou o deficiente?...

Esses fatores que citei acima não são considerados e com isso alguns acham que a escola é capaz de garantir o sucesso do aluno, o que não é verdade. Quando muitos percebem que não são valorizados acabam ficando doentes tendo várias doenças psicológicas, muitas das vezes levando-os a ficarem violentos. Se analisar os ataques as escolas irão notar que a maioria dos causadores deles sofrem de algum transtorno psicológico, seja de nascença ou adquirido no decorrer da vida, principalmente por frustação.   Algumas dessas pessoas ficaram tão frustradas consigo mesmas que resolvem se vingar escolhendo justamente a escola para isso, afinal, foi lá que venderam a ela a ilusão do sucesso na vida.
 
Falando em raiva, a escola vem, ou melhor, sempre foi, em muitos casos, um péssimo lugar para se frequentar. Local onde muitos alunos sofrem diariamente bullying, recebendo apelidos, xingados e virando alvo de piadas. Nem todos levam isso na esportiva, inclusive muitos dos casos da violência nas escolas é justamente praticado por pessoas que são atacadas por essas brincadeiras de mau gosto e resolvem se vingar. Sem contar os métodos avaliativos que em muitos casos rotulam os alunos como fracassados. Nem todos suportam isso.  
 
Como podem ver, a escola vem virando um barril de pólvora. Ao invés de discutir esses problemas que relatei acima, fora outros que não abordei, alguns preferem fazer o debate raso, achando que o problema da violência nas escolas será resolvido colocando policiais, seguranças,  detectores de metais e portas giratórias, transformando escola em escoltas, daí o título desse artigo escol(t)a.
 
Não será com uso de forças de segurança que vamos resolver o problema da violência na escola e na sociedade. Não que o uso dela não seja importante, mas se continuar com esse modelo educacional voltando a atender o capitalismo, individualista e egoísta, ficaremos cada vez mais inseguros, pois esse modelo é o causador dessa tragédia social que estamos vivendo.
 
Precisamos de escolas mais humanas, onde os alunos não devem ser pressionados a serem algo ou querer algo em troca. Precisamos urgentemente rever os currículos e métodos avaliativos. Se não mudar isso vamos continuar vendo escolas sendo palco de tragédias e por mais que as protejam em volta dos seus muros, não seremos capazes de proteger  fora deles, pois as escolas estão  sendo violentas com os alunos e muitos estão revidando essa violência.

 
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