Recentemente, o governo do Estado de Minas Gerais publicou um memorando contendo uma lista de escolas estaduais que estão aptas a aderir ao programa Escola Cívico-militar. Dentre essas escolas, duas de Leopoldina: Enéas França e o Ginásio.
As comunidades escolares dessas escolas, formadas pelos profissionais das escolas, alunos (acima de 14 anos) e seus familiares irão decidir se a escola dever ou não aderir ao programa.
Há um grande debate a respeito desse tema, com gente a favor e contra. Muitos leigos confundindo escola cívico-militar com escola militar. E bom destacar que são coisas diferentes. Escola militar é uma coisa, escola cívico-militar outra totalmente diferente.
Escola militar é totalmente administrada pelas Forças Armadas, para estudar nelas tem que passar em prova, as escolas têm mais recursos, melhores estruturas, professores com melhores salários, o público são na grande maioria de melhores condições... .
Já Escola cívico-militar é a mesma escola atual, com as mesmas regras de matrículas, mesma estrutura física, mesmos profissionais, os professores recebem os mesmos salários e o mesmo público. A única coisa que muda é que terá gestão compartilhada entre civis e militares, sendo que a gestão pedagógica fica sob a responsabilidade de pedagogos e profissionais de Educação, enquanto a gestão administrativa e de conduta ficam com os militares ou profissionais da área de segurança.
Falando em conduta, muitos olhando para a questão da disciplina acham que ter militares na escola é algo bom, pois acreditam que existe hoje uma indisciplina muito grande por parte dos jovens e com isso os militares serão capazes de discipliná-los. A respeito disso, é bom destacar que é uma inverdade que todos os jovens são indisciplinados. Um ou outro pode até ser, mas não podemos generalizar e quem faz isso contribui na construção de um preconceito contra as novas gerações, taxada como rebelde, indisciplinado e mal-educados.
A grande maioria dos nossos jovens são disciplinados e os que são indisciplinados, na grande maioria, é devido problemas sociais e famílias muitas das vezes desestruturadas. Muitos jovens têm pais divorciados, alguns sequer sabem quem é o pai, filhos sem mãe, criados por parentes, morando em abrigos, pais presos, problemas com álcool e droga dentro dos seus lares, vítimas de violência e abusos, jovens grávidas, pais que trabalham praticamente o dia todo e com isso são ausentes de casa, muitos jovens inclusive tornando responsáveis pelos seus lares. É muito comum vermos na periferia uma criança de 12 anos cuidando dos irmãos mais novos., assumindo papel dos seus pais. Outros com afazeres domésticos deixando de brincar e até mesmo estudar. Pais que não conversam com os filhos, não acompanham o rendimento escolar.
Quero destacar que não podemos generalizar, temos muitos jovens que passam pelos problemas acima citado mas não são afetados por eles. Porém, é natural que esses jovens com diversos problemas sociais e familiares desestruturas serão mais indisciplinados. Tanto que quando se fala em escola cívico-militar ninguém fala em implantar em escola particular ou pública de referência , normalmente esse tipo de programa é sugerido em escolas de periferia, onde têm mais problemas sociais. Inclusive, são justamente nesses locais que vemos mais a presença da polícia no dia a dia. Agora, querem colocar polícia também nas escolas como se a solução fosse a militarização.
Não será com presença de militares que iremos resolver o problema da educação, o buraco é mais embaixo. Se querem melhorar a educação, aí não me refiro a Leopoldina, muito menos ao Estado de Minas Gerais, falo de forma nacional, deveriam investir mais nas escolas, melhorar suas estrutura: climatizá-las com ar condicionado; colocar recursos tecnológicos (TV, Datashow, som, computadores) em todas as salas; ter salas de informática que atentam todos os alunos; jogos e brincadeiras; criar laboratórios de pesquisa; ter quadra de esportes que forneçam todas as modalidades de esporte; investir em melhores salários para os profissionais; colocar cursos técnicos, saberes populares, aula de teatro, cinema, música, pintura, oficinas; escola com rádio e jornal; com grêmio estudantil; com viagens e excursões... .
Falo por experiência própria, afinal, estudei em uma escola referência no Rio de Janeiro, sendo na Escola Técnica Estadual República, onde concluir meu ensino médio com o curso técnico em informática. Lembro-me que nas aulas de educação física fiz capoeira, basquete e boxe. A escola tinha piscina olímpica, campo de futebol oficial, pista de atletismo. Uma excelente estrutura que contribuiu muito para meu aprendizado.
Para finalizar, vale destacar que esse ano será aprovado um novo Plano Nacional de Educação, que inclusive já está feito e foi encaminhado para o Congresso aguardando sua análise. O novo plano definirá ações para os próximos 10 anos e toda mudança nesse momento deveria ser evitada, afinal, deveríamos aguardar a aprovação desse no plano, feito por profissionais da área e aprovado pelos representantes do povo, o qual as redes de ensino terão que se adequar.