29/11/2017 às 08h04min - Atualizada em 29/11/2017 às 08h04min

O que fazer para preservar nosso patrimônio?

Leia a íntegra da entrevista com o arquiteto e urbanista Eduardo Fajardo Soares, Mestre em Patrimônio pela UFMG, Coordenador do Plano Diretor de Leopoldina.

Luciano Baia Meneghite
O arquiteto e urbanista leopoldinense Eduardo Fajardo Soares, mestre em patrimônio pela UFMG.
Muito se fala do patrimônio arquitetônico e cultural ainda existente em Leopoldina, principalmente no distrito de Piacatuba, mas, apesar do Plano Diretor Participativo do Município, elaborado em 2006 prever a preservação/tombamento desse patrimônio, até hoje quase nenhuma ação efetiva neste sentido foi tomada. Em todo o município, nos parece que apenas a casa onde morou e faleceu Augusto dos Anjos, o "Espaço dos Anjos, tombado em nível municipal,  e somente a E.E. Professor Botelho Reis “Ginásio” é tombada em nível estadual. Há inclusive negligência quanto à segurança de imóveis que sequer têm plano de proteção contra incêndios, sinistros ou projeto de restauro.

O arquiteto e urbanista leopoldinense Eduardo Fajardo Soares, mestre em patrimônio pela UFMG, que coordenou o Plano Diretor de Leopoldina, é um dos maiores críticos da falta de interesse e de conhecimento nesta área. Nesta entrevista ele fala sobre a ameaça de destruição do que resta de nosso patrimônio histórico e o que fazer para preservá-lo.

Leopoldinense - O que falta para as ações previstas no Plano Diretor, principalmente relacionadas à preservação do patrimônio arquitetônico e histórico de Leopoldina saírem do papel?

Eduardo Soares - Na realidade o que falta e aplicá-las. Na época contatou-se que em Leopoldina já havia um Conselho do Patrimônio, mas inativo. De imediato, nas audiências públicas (leituras comunitárias) e nas pesquisas (leitura técnica) a equipe do Plano Diretor Participativo observou um rico acervo de patrimônio cultural material, nas suas históricas construções   e imaterial, nas suas famosas festas, festivais e na sua tradição do saber fazer na culinária doceira e artesanatos. Evidente que o patrimônio material pela sua própria materialidade nos remanescentes dos casarios, prédios governamentais, estações ferroviárias, religiosos de cunho histórico do início da cidade e seus distritos, inclusive já da era modernista, principalmente  o conjunto de Piacatuba com seu casario e a bela igreja de tradição colonial, a original estação hidrelétrica da antiga e pioneira Cataguazes & Leopoldina e a originalíssima história e festa religiosa da Cruz Queimada, chamaram atenção imediata e sua Torre, evidenciou este patrimônio. Um exemplo bem emblemático na sede é que faz-se uma grande promoção de uma simples intervenção de trânsito e rua no Rosário, o núcleo zero da cidade, onde tudo começou e se ignora solenemente um belo e remanescente casarão ao lado da igreja, a silenciosa testemunha do início da cidade.
 
Leopoldinense - Alguns gestores públicos e privados alegam falta de recursos financeiros para ações mais concretas de preservação do patrimônio histórico.  O problema é só dinheiro?

Eduardo Soares – Absolutamente! Aliás o município até perde dinheiro pela sua omissão, pois como se sabe, o Estado, através de sua conhecidíssima Lei de Incentivo Cultural, a famosa ‘Lei Robin Hood’, que é o repasse de ICMS para prefeituras que um certo número de pontuações no seu cuidado com patrimônio tombado, para exatamente protegê-lo e, no entanto, apesar desta lei já existir há vinte anos, Leopoldina jamais foi beneficiada por ela pois jamais cumpriu os quesitos adequados na proteção deste rico patrimônio. Já em 2006, quando foi feito o Plano Diretor Participativo, aprovado na Câmara, diga-se de passagem, além de recomendar a reativação do Conselho, foi orientado atuação de acordo para usufruir deste benefício. No entanto, até hoje, o que se encontra no Instituto Estadual do Patrimônio Histórico são medidas inconclusas, paradas há anos, e, curiosamente, privilegiam as estações ferroviárias do município, embora merecedora desta atenção, não expressa a verdadeira hierarquia de valor. Enfim, me parece um Conselho inoperante que em todo este tempo só produziu uma expressiva proteção que é o tombamento e reforma do Espaços dos Anjos.Aliás foi graças à atitude do grande e saudoso artista da cidade, Luiz Rafael Domingues Rosa, que durante anos utilizou a casa para sua escola de artes e um museu, que alertou para a importância do imóvel. Dá a impressão que se resume a um mero cargo de troca política.

Leopoldinense - Existe uma mentalidade de que a preservação e o tombamento impedem o progresso. Como conciliar a preservação arquitetônica com novas necessidades de uma comunidade?

Eduardo Soares - Só uma mentalidade ainda muito atrasada e imediatista acredita nesta equação. O que todos estudos comprovam é que além da saúde mental, da autoestima,  a preservação da unidade plástica e tipológica de uma cidade, quando mais antiga for, torna-se uma atração turística e, consequentemente, econômica. Vejamos dois exemplos vizinhos: primeiro Cataguases, que apesar de suas autoridades também sofrerem de certa indigência e obtusidade cultural, pela cultura introduzida na cidade pela burguesia industrial desde início do Século XX, que gerou uma das primeiras publicações modernistas do país, a revista O Verde, do renomado intelectual Rosário Fusco, o nascedouro do nosso cinema com Humberto Mauro e da nossa internacional arquitetura moderna com projetos e acervos artísticos dos nossos grandes mestres, hoje tem um belo acervo, principalmente o arquitetônico e de tipologia da cidade, bem preservado e motivo para um significativo afluxo de turistas do Brasil e do mundo a até Festival Internacional de Cinema. Por outro lado, Muriaé, depois de Juiz de Fora a principal cidade da região da Mata Mineira, com a justificativa de sua pujança econômica através, principalmente da indústria de confecções, nunca deu o devido valor à estes valores patrimoniais e o que a tornou numa cidade confusa, feia levando a maioria das pessoas que vão à cidade fazer grandes compras se dirijam para pernoitar com agradável qualidade de vida na vizinha e bucólica cidade de Raposo, já no Estado do RJ. Nos últimos tempos, cada ano, pelo seu desprezo ao seu patrimônio, à sua agradável tipologia, Leopoldina deixa de ser uma cidade atraente, com singela e atraente beleza e passa a ser apenas uma cidade muito quente. Evidente que devemos incluir aqui seu patrimônio imaterial que cada vez se definha mais, como os congados, folias, calangos, carnaval inequivocamente também uma fonte de economia. Só um exemplo emblemático: até hoje não há sequer um daqueles clássicos folders para dar conhecimentos aos visitantes dos atrativos culturais e naturais da cidade, porque também não podemos nos esquecer, coisa que a cidade ainda não se deu conta que ela está oficialmente dentro do Circuito de Serras e Cachoeiras significativas do Estado.


Vista de Piacatuba  (Imagem drone/Lupa)

Leopoldinense - No caso específico de Piacatuba, que é hoje o distrito com maior potencial turístico, você percebe quais descaracterizações e quais seriam as ações mais urgentes para impedir esse processo de degradação?

Eduardo Soares - Ao longo dos anos e até recentemente, Piacatuba sofreu lamentavelmente uma grande perda de seus exemplares imóveis e casarões. No entanto o que resta preservado de seus antigos prédios, a Torre da Cruz Queimada, sua belíssima igreja, a Rua das Pedras, os prédios e maquinários da antiga Companhia Força e Luz Cataguazes & Leopoldina, inseridos numa montanhosa topografia e beleza natural ainda lhe conferem um grande valor cenográfico, um charme todo especial, tanto que recentemente foi cenário de duas produções cinematográfica nacionais. Já faz parte do calendário regional de significativo evento cultural e festivo o Festiviola e o Gastronômico, lamentavelmente não ocorrida neste ano; a festa da Nossa Senhora da Piedade, assim como as excursões à cachoeira Poeira D' Água ou à represa da Usina Maurício que notoriamente nestas últimas décadas vêm permitindo uma significativa renda econômica aos moradores da localidade.

Interior da Matriz de N.S. da Piedade em Piacatuba (Foto: Eduardo F. Soares)

Creio que a primeira medida a se fazer é a proteção de seu patrimônio material a começar de sua jóia, a igreja da Piedade, que além de sequer serem tombados nem mesmo são protegidos contra sinistro. Por exemplo, mesmo tendo uma empresa de energia do porte da Energisa, não foi oferecido para a igreja um projeto e instalação adequado de eletricidade e prevenção contra o incêndio, além de seu restauro. Outra coisa ininteligível é a prefeitura jamais ter feito qualquer obra de restauro da Rua das Pedras, ao mesmo tempo que treina e resgata a tradição de calceteiros de pavimentação de rua. Além disso, um cuidado de preservação e educação do ambiente natural e imaterial, protegendo a limpeza e atendimento da cachoeira, represa e valorizando as genuínas festas locais. Outra medida seria cobrar das grandes festas ou locações no local de um imposto destinado exclusivamente à esta preservação. Para isto, estas festas deveriam fazer oficialmente parte do calendário da cidade e envidado todos esforços para não ter maléficas interrupções. Embora a iniciativa privada seja bem vinda para as realizações destas festas a prefeitura deveria ser a principal gestora, evidentemente compartilhada, pois, afinal é o patrimônio material, imaterial e natural o protagonista e não as festas em si. Por fim, estenderia este conceito aos demais distritos da cidade,  como Tebas, Abaiba, Providência, Ribeiro Junqueira, como um circuito, que além também de suas inerentes belezas naturais e materiais, tem certas características que podem ser muito bem exploradas, como, por exemplo, o Festival de Doces de Tebas, ou de tira gosto e Museu do Café em Providência, ou de rocambole e festa do Manga Larga Machador em Abaíba, aproveitando os lindos cenários de suas estações ferroviárias. A feliz recuperação do deslocamento por trem turístico pode e deve muito bem perfazer este circuito e também incentivar a transformar as incríveis e antigas fazendas de café em Hotéis Fazendas, como na citada Raposo. Isto depende de mentalidade aberta e empreendedora e não preguiçosa e provinciana. O investimento deve começar por contratar profissionais qualificados para, junto à prefeitura, fazer esta gestão e planejamento.


Fazendas do ciclo do café poderiam atrair turistas  (Arquivo/Leopoldinense)

Leopoldinense - Existe algum exemplo bem-sucedido de localidade que soube aproveitar suas potencialidades turísticas sem se degradar e que serviriam de exemplo para nós?
Eduardo Soares - Ainda que longe do seu potencial as citadas Cataguases, Raposo, para não falar nas clássicas cidades coloniais mineiras.

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