02/07/2020 às 11h11min - Atualizada em 02/07/2020 às 11h11min

Funchal

O homem que "ressuscitou" em Leopoldina

Por Antônio Valentim
Ampliação de foto da União Musical Leopoldinense 25 de Março nas escadarias do antigo Fórum de Leopoldina, por volta da década de 1940- Autor desconhecido/Desenho de Luc
Apesar de ser um nome pouco comum, em nossa cidade, existiram dois. Um muito famoso, por ser um grande pintor, escritor etc. O outro, porque com ele aconteceram fatos pitorescos e um quase trágico. Funchal Garcia, foi um grande pintor, famoso em todo o Brasil, um homem que adorava Leopoldina e que fez história, tanto por sua arte, quanto por sua paixão pelo carnaval, tendo sido um dos maiores foliões que nossa terra já viu. Mas a nossa narrativa desta feita, é sobre seu homônimo, o Funchal “Sacristão”, ou do homem que ressuscitou.

Funchal era um homem alto, corpulento, com cara de poucos amigos, sempre vestido com camisas de manga comprida e de paletó. As crianças, tinham medo dele, apesar do pobre homem ser inofensivo, e viver na igreja ajudando os padres nas missas e em outras tarefas no templo ou na sacristia. Mas a razão deste receio era consequência das histórias que contavam sobre ele. Uns diziam que na quaresma, Funchal virava lobisomem, outros falavam que ele se transformava em mula sem cabeça, e outros monte de bobagens mais. Com isso, a molecada quando via ou se deparava com ele pelas ruas, tratavam de se esconder, ou a correr dele, e eu, a bem da verdade fazia o mesmo que os outros.

Na realidade, o que consta, e o que contam sobre Funchal, é que certa vez, sua morte foi anunciada na cidade, e o padre com quem ele trabalhava e morava organizou o velório, convidando a todos, para participarem e a rezar pela alma daquele cristão. As pessoas foram chegando, algumas beatas ajudando com flores, velas, outras puxando a reza, velando o corpo do homem, sepulto na sacristia pelo pároco. Lá pelas tantas horas da noite, uma das mulheres notou um movimento no caixão e comentou com outra próxima, e assim por diante até que todos já percebessem que algo anormal estava acontecendo. Todos ficaram ressabiados, e de repente, o defunto sentou-se no caixão, e atônito, com aquela parafernália de velas, flores e de gente à sua volta, gritou com a voz roufenha:

“O que está acontecendo aqui? O que eu estou fazendo neste caixão?”

Foi um Deus nos acuda. As pessoas trombavam umas nas outras, gritando, outras querendo correr, mas as pernas não obedeciam, muitas beatas desmaiaram, o padre, sem saber o que fazer, e o que havia acontecido. Soube-se no dia seguinte que alguns que conseguiram correr, dois caíram dentro de um açude próximo, outro entrou numa moita de brejaúba e foi difícil tirá-lo de lá. Duas mulheres, foram encontradas penduradas pela saia numa cerca de arame farpado ainda gritando por socorro. O que aconteceu, é que Funchal havia sofrido um ataque de catalepsia, e deram-no como morto, causando aquele furdunço todo.

Daí para frente, ficou com Funchal, aquela pecha de morto vivo, de fantasma, de assombrado etc. Outra história interessante que contam sobre Funchal, teria sido confidenciada a um amigo seu, pelo próprio Funchal, e assim de boca em boca, foi se espalhando, até que a ouvi de meu pai, que contava para alguns amigos. Dizia Funchal, que tendo ido trabalhar com um padre que havia vindo da Holanda, a princípio, não entendia quase nada do que o vigário falava, mas com o passar do tempo foi se acostumando com a fala enrolada e com os hábitos do padre. Só havia uma coisa com a qual ele não se acostumava e não aceitava. O tal padre, era fanático por gatos, tendo na igreja e na casa em que moravam pra mais de uns cem bichanos. Funchal não era chegado aos bichos, que lhe atazanavam a vida, sujando, arranhando e quebrando tudo por ali. Por mais que ele falasse com o vigário, o homem não aceitava se desfazer dos bichos.

Funchal costumava argumentar com o padre que gato não era bicho abençoado por Deus. O homem, ficava indignado com ele, e com essas histórias e retrucava dizendo que todos os bichos haviam sido criados pelo Senhor e que ele provasse o contrário. Funchal, dizia que um dia provaria ao padre que ele estava certo.

Certa ocasião, tendo o vigário que se ausentar da paróquia por compromissos, Funchal aprontou o seguinte: Chamou e atraiu com petiscos, todos os bichanos para dentro de um quarto da casa. Ali, com um chicote nas mãos e algumas bombas “cabeça de negro”, e busca-pés, começou a bater com o chicote nos bichos, explodindo as bombas e soltava os busca-pés, enquanto gritava a todos os pulmões: “Viva Nosso Senhor Jesus cristo”. E tome chicote, e tome bomba, e tome busca-pé. Os gatos pulavam por todos os lados, querendo fugir, apavorados, mas com o quarto todo fechado, não tinham por onde escapar. “Viva Nosso senhor Jesus Cristo! “E chicote em cima, e mais bomba, e mais busca-pé. Quando finalmente Funchal abriu as portas, os bichanos saíram a toda, e para todos os lados, miando como se tivessem mil cães ao seu encalço. Quando o vigário retornou, assim que chegou deu pela falta de seus bichos. Perguntou a Funchal por eles. Este, com a cara mais cínica do mundo, disse que assim que o padre viajou, os bichos também haviam ido embora, pois não gostam de igreja e nem de Deus. O padre mais uma vez zangou com ele e começou a chamar seus miaus. Funchal disse mais uma vez para o padre, que iria provar que gato não gosta de Deus. Com a presença do padre, os bichanos foram se aproximando, se juntando, sestrosos ainda com o sacristão. O padre começou a colocar comida para seus protegidos, eles foram se juntando cada vez mais. Aí Funchal disse para o vigário:

“Vou provar agora para o senhor que esses bichos não gostam de Deus” E assim dizendo, estalou as mãos e gritou: Viva Nosso Senhor Jesus Cristo!”, Voou gato pra todos lados, pulando em cima do padre, arranhando o homem todo. Quando finalmente se viu livre dos bichos, o padre disse que o sacristão tinha razão e que não queria saber mais daqueles bichos do demo. Funchal, rindo por dentro, falou que o vigário podia deixar que ali aqueles sacripantas não poriam mais os pés.

Funchal faleceu de verdade, aqui em Leopoldina, muitos anos depois.


(Publicado originalmente no jornal Equipe)
 

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